sexta-feira, 27 de julho de 2018

1978-07-27 - O Povo de Guimarães Nº 022

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QUE DESTINO PARA A BIBLIOTECA DE RAÚL BRANDÃO?

No número 18 do nosso jornal, transcrevemos duas posições tornadas públicas no «JORNAL DE NOTÍCIAS»: uma da Dr.ª Maria João de Vasconcelos, membro da Comissão Instaladora da Casa Museu Raúl Brandão; e outra da Sociedade Martins Sarmento.
Referimos então que tais posições não eram concordantes e prometemos, a propósito, esclarecer os nossos Leitores — é o que vamos tentar:
Do confronto das aludidas posições, averiguámos e ficámos a saber que o tão-falado-herdeiro é nem mais nem menos que o Dr. RAUL DE ARAÚJO ABREU ROQUE DE FIGUEIREDO, que, por nós contactado, logo nos disse: — «eu não sou nem fui herdeiro de Raúl Brandão... e os responsáveis pelo comunicado da Sociedade Martins Sarmento bem o sabem. Podia nada dizer a respeito disso, se não fosse o espírito de insinuação maldosa e gratuita que está bem patente em tal comunicado. Só por isso, pois, insisto em que não fui contemplado no testamento de Raúl Brandão; e esclareço que, com outros, fui contemplado como herdeiro e legatário no testamento da viúva de Raúl Brandão, a minha Tia Maria Ange­lina.»

Esclarecido este ponto, resolvemos avançar para uma questão que reputamos de extrema gravidade: TEREM SIDO VENDIDAS EM LEILÃO obras que pertenceram a Raúl Brandão.
Ora, se a comunicação da Dr.a Maria João de Vasconcelos a referia no tempo e era peremptória no sentido de a mesma não ser imputável ao herdeiro da casa que foi de Raúl Brandão, a CASA DO ALTO, a comunicação da Sociedade Martins Sarmento limita-se a referir a venda em leilão de alguns livros.
Afinal, quem é o responsável? — «Eu, diz-nos o Dr. Raúl Roque de Figueiredo, só passei a ser dono da CASA DO ALTO depois da morte de minha Tia Maria Angelina, ocorrida em 15 de Outubro de 1973. Claro que, enquanto a minha Tia foi viva, eu nada tive ou tinha a ver com os bens da herança de Raúl Brandão e muito menos com a guarda ou conservação da sua biblioteca (note que, se venda em leilão houve, não tenho dúvidas de que a minha Tia Maria Angelina foi absolutamente estranha a ela). E é isso que choca: os responsáveis da Sociedade Martins Sarmento tiveram conhecimento de um facto que poderá ter ocorrido em 1970 ou 1971; e sabem que tal facto, a ter-se verificado, ocorreu em vida da minha falecida Tia Maria Angelina — apesar disso, referem-no no seu comunicado em termos de, deliberadamente, deixarem no ar a insinuação de que a responsabilidade poderá ter sido minha».
Mas se o Dr. Raúl Roque de Figueiredo não foi herdeiro de Raúl Brandão; e se, ao fim e ao cabo, aquele nunca foi responsável pela guarda e conservação da biblioteca de Raúl Brandão; e se os responsáveis da Sociedade Martins Sarmento disso tinham conhecimento, ou obrigação de o ter — como se explica tal tomada de posição por parte dos responsáveis da Sociedade Martins Sarmento?
O Dr. Raúl Roque de Figueiredo explica: — «os responsáveis da Sociedade Martins Sarmento sabiam que eu nunca fui responsável pela guarda ou conservação da biblioteca; eles conhecem perfeitamente o teor do testamento de Raúl Brandão. Mas a história, pelos vistos, é outra... E nada mais cómodo do que o querer sacudir a água do capote! São estes os factos:
— Pouco tempo após o falecimento da viúva de Raúl Brandão, a minha Tia Maria Angelina, várias vezes foi contactado o então Presidente da Sociedade Martins Sarmento, e mesmo o seu actual Presidente, sempre fazendo-lhes ver a necessidade de mandarem levantar os livros da biblioteca de Raúl Brandão. O que se impunha, e com urgência: a Casa do Alto situa-se num local relativamente isolado e estava desabitada. Que sim senhor, iam tratar do assunto... (o actual Presidente da S.M.S. chegou até a perguntar se os livros não caberiam todos na mala do seu próprio automóvel...);
- Em Agosto de 1976, no dia da Marcha Gualteriana, interpelei pessoalmente o actual Presidente da S.M.S., na casa dum Cunhado do mesmo, dizendo-lhe e fazendo-lhe sentir que não compreendia como é que a S.M.S. não «ligava-meia» ao legado de Raúl Brandão;
- Só em Março de 1977 é que o actual presidente da S.M.S., tele­fonicamente e por intermédio do Dr. Santos Simões, fixou, com o meu acordo, um dia e hora para «empacotar» os livros;
- No dia e hora designados, que me lembro ter sido uma quarta-feira, fomos à Casa do Alto: eu, o actual presidente da S.M.S., um funcionário desta e o Dr. Santos Simões. E na tarde desse dia, foi «empacotada» uma parte dos livros. (Note-se que não se procedeu logo ao transporte dos livros «empacotados», porque o estado do caminho era lastimoso. Aliás, foi logo previsto que o transporte se efectuaria no verão seguinte, possivelmente com um veículo cedido pela Câmara Municipal de Guimarães);
— Ora, até hoje, nunca mais fui contactado pelo actual Presidente da S.M.S. para proceder ao «empacotamento» do resto dos livros e nem sequer para ir ou mandar buscar os já «empacotados».



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