quinta-feira, 26 de julho de 2018

1978-07-26 - Voz do Povo Nº 207 - UDP

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EDITORIAL
A verdadeira natureza da crise

A reunião do Conselho Nacional do CDS aumentou a pressão deste partido sobre o governo e o Partido Socialista. Numa manobra política medíocre, os dirigentes centristas procuraram passar, de novo, a decisão final ao seu parceiro de governo. A demissão dos ministros do CDS - mantendo o apoio deste partido ao governo — é uma tentativa de obrigar Mário Soares a definir-se. Ou aceita uma remodelação, ou o CDS retira o apoio global ao Executivo. Os dirigentes centristas querem a todo o custo que seja o PS a responsabilizar-se publicamente pelo desenlace desta crise, pelo destino do malfadado acordo PS-CDS.
À hora a que fechamos esta edição não se conhecem ainda as decisões da Comissão Directiva do PS reunida ontem pelas 21 h. A avaliar pela recusa anterior de discutir pessoas, os socialistas deveriam recusar a remodelação ministerial. Todavia, Mário Soares declarou que se demitiria se o CDS denunciasse o acordo estabelecido. E, uma vez que o CDS não pôs formalmente em causa esse acordo, esta pequena nuance deixa ainda ao primeiro-ministro margem suficiente para o seu habituai manobrismo político.

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Parece-nos, todavia, que, mais importante que especular sobre a possível resposta do PS, é compreender a verdadeira natureza e dimensão da crise actual. Aí reside a chave para que os trabalhadores e as forças de esquerda possam intervir com êxito nesta crise de forma a impedir o agravamento da situação política.
Para muitos cidadãos esta crise surgiu inesperadamente e de forma um tanto inexplicável.
O CDS propôs a correcção à direita de diversos aspectos da política governativa, com a subsequente remodelação ministerial. O PS aceitou discutir e corrigir a política, salvaguardando, porém, que a composição ministerial era da exclusiva competência do primeiro-ministro.
À primeira vista, tudo levaria a crer que o CDS iniciaria a discussão da política para depois exigir a personificação das correcções políticas adoptadas (ou seja, a tal remodelação ministerial). Contrariando as previsões iniciais, o CDS reforça a exigência de uma imediata remodelação e acaba retirando os seus ministros do elenco governamental.
A actuação do CDS só pode ser entendida à luz da grande ofensiva desencadeada pelo conjunto das forças da direita e extrema-direita. Só essa visão mais ampla permite compreender que não estamos perante um simples desacordo governativo. Trata-se de uma pressão concertada para provocar mais uma inflexão à direita no conjunto da vida nacional.
A intervenção concomitante da Igreja reaccionária, da CAP, do PSD, PDC e MIRN, o regresso de Tomás, as declarações sonoras dos chamados presidencialistas, todas elas na sequência do discurso presidencial de 25 de Abril exigindo mais audácia (de direita, claro) ao governo, eis o que permite obter a imagem real da crise actual. O CDS surge assim no seu lugar próprio, o de instrumento da reacção e do grande capital no interior do próprio governo.
E o objectivo da reacção e do grande capital é um controlo mais efectivo sobre a política, a estrutura e a acção governativa. O acordo político PS-CDS, o Governo de base PS com personalidades CDS cumpriram já o seu papel na estratégia da recuperação capitalista. Hoje, uma vez concedido o grande empréstimo e já estabelecido o acordo com o FMI, a estrutura do governo ficou desadequada. A reacção quer mais. Amaro da Costa encarregou-se de explicar que não é possível manter esta coligação em que o CDS tem voz menor. Os centristas querem, pelo menos, uma coligação com todas as letras em que detenham metade das alavancas essenciais.
Eis porque o CDS insiste de tal forma na remodelação ministerial. Eis porque é de capital importância a resposta do Partido Socialista. A aceitação das exigências centristas significaria o toque de finados da já reduzida autonomia do PS no Executivo. A partir de então, o PS ver-se-ia enredado numa teia de pressões e jogos de gabinete sem qualquer supremacia para aplicar decisões divergentes das do CDS.
Não se trata, pela nossa parte, de acreditar que o PS desejasse aplicar uma política de esquerda. O I governo já mostrou que os socialistas não conseguem sair do equilibrismo oportunista sempre ao serviço da recuperação capitalista. Trata-se, isso sim, de compreender e denunciar o perigo da manobra do CDS em convergência com toda a direita. E de alertar os socialistas e todos os trabalhadores para as tremendas consequências que adviriam da vitória dessa manobra.
Neste campo, não deixa de ser útil relembrar que Amaro da Costa fez suas as declarações de Lucas Pires em Coimbra, embora esclarecendo que se tratava de um intervenção de carácter histórico e doutrinário. Ou seja, ainda não para hoje mas para amanhã. E o cavalheiro Lucas Pires apenas afirmou que a crise só se resolve em última análise com a revisão da Constituição, a liquidação das conquistas populares, alteração da direcção política do governo e a substituição do primeiro-ministro...
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A única forma de impedir a concretização das exigências da direita é a intervenção activa do movimento operário e popular de massas. O desenlace da crise não pode depender nas negociações entre PS, CDS e presidente da República.
Impõe-se uma tomada de posição firme e inequívoca dos trabalhadores portugueses e das suas organizações de classe. Urge encetar formas de luta de âmbito nacional. É preciso demonstrar à reacção, enquanto é tempo, que o país não está disposto a acatar a sua chantagem: Particularmente, é urgente responder com toda a firmeza ao provocatório regresso do fascista Tomás, regresso que se destina a reforçar ainda mais as exigências do CDS e de toda a direita. Urge exigir a prisão e julgamento desse bandido odioso.
Não são de aceitar quaisquer soluções ambíguas que permitam a ulterior aceitação das exigências centristas. O PS já fugiu demasiado ao mandato que o elegeu para poder dispor dos destinos nacionais sem consultar a vontade popular. A antecipação das eleições gerais é a única saída possível, neste momento, para o impasse a que se chegou. O povo português não aceita mais combinações secretas à revelia da sua vontade.
Urge encontrar caminhos comuns para o campo popular antifascista enfrentar com êxito as pressões da direita e a própria batalha eleitoral. Só uma grande convenção das forças populares e democráticas estará em condições de travar o passo à convergência reaccionária e utilizar a seu favor a antecipação das eleições gerais.



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