sexta-feira, 20 de julho de 2018

1978-07-20 - Unidade Popular Nº 169 - PCP(ml)

Para ver todo o documento clik AQUI

Camaradas do PCR falam ao nosso jornal da situação na Argentina:
«Consideramos o social-imperialismo o inimigo principal do nosso país»

Unidade Popular entrevistou alguns camaradas do Partido Comunista Revolucionário da Argentina. As declarações dos camaradas argentinos, membros.de uma delegação do PCR que visitou recentemente a República Popular da China, mostram-nos de forma evidente o grau de penetração do social-imperialismo russo na Argentina e na América Latina.
O PCR da Argentina, partido irmão do PCP(m-l) é um partido que aplica correctamente no seu pais a tese dos três mundos. Publicamos os extractos mais significativos da entrevista.
Qual a posição oficial do PCR da Argentina sobre a realização do Campeonato Mundial de Futebol neste país?

Aposição do nosso Partido foi a de utilizar a realização do Campeonato Mundial de Futebol na Argentina, na cidade de Buenos Aires e noutras cidades do interior do nosso país, aproveitando a circunstância para desmascarar o carácter antioperário da ditadura videlista, a sua feroz e sangrenta repressão sobre o movimento operário e popular, contribuindo, na medida das nossas possibilidades, para o desenvolvimento da campanha internacional de solidariedade em torno da luta contra a repressão da ditadura fascista de Videla.
A ditadura de Videla procurou aproveitar-se da realização do Campeonato Mundial de Futebol para dar uma imagem ao mundo de que na Argentina não existe qualquer repressão e melhorar a imagem geral da ditadura interna. Na Final do Campeonato Mundial, Videla apareceu a oferecer a taça seguindo-se um discurso, discurso esse que não foi aplaudido pelo povo argentino presente. As pessoas limitaram-se a aplaudir a equipa argentina que saíra vencedora, mas não aplaudiram Videla. Um outro aspecto do Campeonato Mundial, aspecto menos falado, é o do grande negócio que envolveu. A sua preparação custou mais de 700 milhões de dollars ao governo argentino, cifra muito elevada se tivermos em conta a gravíssima crise económica que a Argentina atravessa. Recuperaram-se apenas 30 a 40 milhões de dollars, segundo os cálculos oficiais. São muito poucas as obras que servem de infraestrutura para a vida quotidiana do povo. Isto significa que o verdadeiro motor desta política têm sido também grupos vinculados principalmente à construção de estádios, onde existem interesses de sectores vinculados à ditadura videlista, incluindo uma companhia de construção dirigida por pontas-de-lança do social-imperialismo, companhia que é favorecida pela ditadura e que beneficiou através da realização do Mundial de Futebol.
Fala-nos da penetração económica e política do social-imperialismo na Argentina.
A ditadura videlista assenta essencialmente no poder dos grandes latifundiários e da grande oligarquia ligados ao imperialismo. No entanto, é o social-imperialismo russo, juntamente com a grande burguesia latifundiária, quem detém a hegemonia no seio desta força.
Nos últimos tempos, o social-imperialismo russo tem vindo a substituir na Argentina o imperialismo americano no seu papel hegemónico. No nosso país, o papel dominante e hegemónico pertencia, desde os princípios do século, ao imperialismo inglês. Mas, em meados da década de 40, este foi substituído pelo imperialismo americano que, no início dos anos 70, é por sua vez substituído pelo social-imperialismo russo.
A Argentina é um país dependente, e um foco de disputa entre várias potências imperialistas, especialmente entre a União Soviética e os Estados Unidos. Actualmente, na Argentina, o papel dominante cabe ao social-imperialismo russo e é por esta razão que hoje, consideramos o social-imperialismo como o inimigo principal do nosso país, juntamente com os latifundiários e a grande burguesia a ele ligados. Isto não quer dizer que os Estados Unidos já não tenham qualquer influência na Argentina ou que esta tenha rompido com os Estados Unidos. O nosso país tem grandes dívidas financeiras em relação a organismos internacionais controlados pelos Estados Unidos. Muito menos significa que nela não actuem outras potências imperialistas. O que queremos dizer é que nos aspectos político, económico e estratégico, o social-imperialismo passou a ser dominante no nosso país, nomeadamente a hegemonia que detém no seio da ditadura videlista, precisamente através de Videla. Não se pode dizer que esta hegemonia seja uma posição absolutamente consolidada. Mas, de qualquer forma, é uma posição hegemónica.
Refere-te, agora, à repressão exercida sobre o povo argentino.
Segundo indicam determinadas fontes, o número de desaparecidos na Argentina excede os 20 mil. Segundo a própria versão oficial do governo o número de detidos é de 3772 pessoas. Entre os desaparecidos contam-se numerosos camaradas do nosso Partido e, entre os detidos, estão também muitos dirigentes e militantes nossos. No entanto, a repressão atinge todas as forças políticas e populares do país. Estão presos, por exemplo, muitos peronistas, tais como Isabel Peron e Lorenzo Miguel, dirigente sindical peronista.
Qual o grau de repressão em relação ao partido revisionista?
O partido revisionista não tem sido alvo de grande repressão porque se apoia abertamente no governo e, para além disso, a sua participação em movimentos de luta e em movimentos organizados para o aparecimento dos sequestrados e liberdade dos detidos procura desviar a atenção dos principais responsáveis pela repressão, uma vez que não se poderia conceber qualquer repressão sem o acordo de Videla, que é o Presidente e comandante das forças armadas. Houve, no entanto, alguns militantes da base do partido revisionista que foram presos. Isto provoca uma contradição no seio do partido revisionista porque muitos dos seus militantes não compreendem como podem as cúpulas do seu partido apoiar Videla quando este oprime e prende determinados militantes desse mesmo partido.
Quais os nomes dos jornais mais pró-sociais-imperialistas e se o partido revisionista tem influência em alguns jornais?
São, por exemplo, La Opinion, Clarin e Crónica e tem grande influência nos principais diários da Argentina, La Nacion e La Razon. La Nacion e Clarin são talvez os principais matutinos e La Razon o principal diário da tarde. Crónica e o principal diário da capital federal no que respeita à capacidade de chegada aos sectores populares.
Quanto à segunda parte da sua pergunta, o partido revisionista na Argentina não tem influência de massas, não tem influência no movimento operário e muito menos no campesinato. Desenvolve, isso sim, um grande trabalho no seio da burguesia nacional principalmente no sector das cooperativas de crédito. O partido revisionista é mais um instrumento do social-imperialismo russo. Consideramos que observar a influência do social-imperialismo na Argentina através da força que o partido revisionista tem é um grave erro porque, na realidade, o social-imperialismo tem montado um aparelho directo na Argentina, aparelho que tem utilizado para a compra de terras, para a compra de empresas-chave, para dominar sectores-chave da economia nacional, além de ter agentes directos infiltrados no aparelho de Estado e no seio das forças armadas. É claro que isto tem ajudado o partido revisionista.
O canal de Beagle gerou um conflito com o Chile. Qual a situação actual e as razões deste conflito?
Já tínhamos abordado a questão da ditadura videlista, ditadura que se caracteriza por uma política de exploração, de entrega das riquezas nacionais, uma política de repressão feroz e sangrenta e, além disso, por uma política de preparativos belicistas visando a disputa com a República do Chile em torno de problemas fronteiriços e, mais propriamente, em tomo da questão do canal de Beagle. Este problema gerou uma situação de conflito que poderá acarretar graves consequências tanto para o povo argentino como para o povo chileno. Este conflito, já com raízes históricas, tem sido actualmente estimulado pela interferência das duas super­potências, uma vez que por detrás desta disputa está a luta pela hegemonia e pelo controle do Atlântico Sul e a ligação entre o Pacífico e o Atlântico, zona estratégica muito importante. Pode resumir-se em poucas palavras a história deste conflito: na altura em que Lanusse era Presidente da Argentina e Allende do Chile, foram acordadas negociações acerca da situação fronteiriça, presididas pela Rainha Isabel de Inglaterra. Nós consideramos que foi uma atitude incorrecta, visto que este problema devia ter sido resolvido directamente com os chilenos através de conversações pacíficas, tendo em conta os interesses de dois países do Terceiro Mundo que têm inimigos comuns e interesses comuns a defender, e não com a participação de um terceiro país.
Os sociais-imperialistas têm espicaçado a ditadura de Videla em relação a este problema fronteiriço, utilizando a aliança com sectores pró-soviéticos da Bolívia e do Peru a fim de atiçar este conflito, e aproveitando-se igualmente do conflito existente entre a Bolívia e Chile. Este conflito permanecerá latente porque está estritamente relacionado com necessidades táticas e estratégicas das superpotências e não dos argentinos ou chilenos. Assim, a posição do nosso Partido é a de chegar a acordo com o Chile através de conversações pacíficas e bilaterais, tendo em conta os interesses de ambos os países. É importante que se dê solução a este conflito com o povo chileno porque a sua existência oferece grandes possibilidades sobretudo ao social-imperialismo de ocupar posições num lugar estratégico.
Este conflito do Canal de Beagle mostra que a América Latina deixou de ser o pátio traseiro do imperialismo americano. Hoje, a América Latina é alvo das disputas por parte das duas superpotências. Persistir actualmente na ideia de que a América Latina continua a ser o pátio traseiro do imperialismo americano é não ver a penetração do social-imperialismo russo neste continente e é contribuir para que esta seja ocultada.
Qual é o nível das lutas populares contra a ditadura de Videla?
Durante os meses de Abril a Maio do ano passado, desencadeou-se no nosso país uma grande campanha de denúncia e crítica à ditadura videlista e ao social-imperialismo russo. Nos meses seguintes, desencadearam-se numerosas lutas pelo aumento dos salários, e este período de agitação a nível sindical desembocou na grande greve nacional dos ferroviários. A par desta grande greve, numerosas fábricas e diversos sectores da produção desencadearam lutas pelo aumento dos salários, e a ditadura viu-se forçada a ceder a muitas reivindicações do movimento operário.
Também os movimentos para o aparecimento dos sequestrados e pela liberdade dos detidos têm tido um grande incremento na Argentina, dos quais o mais combativo é o Movimento de la Plaza, em que participam vastos sectores políticos e de diversas crenças religiosas, sobretudo católicas. Através do desenvolvimento destes movimentos e da grande pressão internacional, a ditadura viu-se forçada a pôr em liberdade 300 presos.



Sem comentários:

Enviar um comentário