sexta-feira, 13 de julho de 2018

1978-07-13 - O Povo de Guimarães Nº 020


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REDE BOMBISTA:
«a montanha pariu um rato»...

Na tarde do dia 7 deste mês foi enfim lida a sentença do «caso» da rede bombista. Já lá iam sete meses e meio de julgamento e oitenta sessões de audiência. Entretanto muita tinta correra, muita especulação se fizera, muito evento espectacular se produzira. A direita chegou a ser tomada de pânico com as declarações do réu Ramiro Moreira à Polícia Judiciária. Elas revelavam que a rede bombista e terrorista tinha uma trama assaz complexa e extensa que passava por «grossos» personagens quer do mundo do grande capital quer do seio de aparelhos estatais. Pode-se dizer que as revelações de Ramiro Moreira (feitas à-vontade e segurança, próprios de quem pensa ter as costas quentes) feitas logo a seguir à sua detenção põem a nu a estrutura daquilo que é uma tenebrosa realidade: o pântano musgoso da reacção mais obtusa.

Depois de tão aparatoso julgamento, depois de tão acalorada discussão, após o descarnar de tão importante e canceroso assunto, eis que surge enfim a sentença. E dela podemos dizer o que diz a fábula do parto da montanha: «at ille murem peperit».
E que na realidade, a sentença saiu pífia (embora tal até já fosse esperado...), engrenando da pior maneira com a costumeira estratégia importada dos mafiosos: os peões de brega pagam por todos, são lançados aos chacais; os «chefes», os mandantes esses regressam aos seus círculos sociais com imponência e quase munidos de umas angélicas asinhas cravadas nos costados. Assim, com efeito, a sentença — caindo em confusões e incongruências — ficou muito aquém da meritória peça forense que pretendia ser. Mais uma desilusão para quem anseia ver feita a Justiça e defendida a Democracia.
Como compreender, por exemplo a absolvição de Mota Freitas, de Joaquim Ferreira Torres, do agente da P.J. Júlio Regadas, entre outros? Será que a rede bombista se resume a dois ou três delinquentes de difícil correcção? Será que alimentar bombistas, organizar e instigar o terrorismo é actividade impune neste país? Sendo assim, para que serve a recente Lei sobre organizações fascistas aprovada na Assembleia da República? Para que serve a Constituição?
Esta sentença e o que está por trás e para além dela constituem um inquietante indício de insegurança do regime Democrático.
Quem respira de alívio é a anquilosada reacção cujas figuras de proa não foram grandemente atingidas.
Ramiro Moreira com a pena de 25 anos de prisão; Manuel Teixeira Gomes com 9 anos de prisão; Marques da Costa com 9 anos de prisão; António Rangel com quatro anos de prisão; e Caimoto Duarte, capitão condenado a três anos de prisão — eis o «lúmpen», os «operacionais», eis a rede bombista responsável por dezenas e dezenas de atentados, explosões e mortes. São lançados à voragem, apanham pesadas penas — era para isso que serviam.
Os outros, os Abílios de Oliveira, os Mota Freitas, etc., etc., etc., — esses são todos pacatos cidadãos, valorosos lutadores «anti-gonçalvistas»...
Mas o mais cego é o que não quer ver...


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