domingo, 15 de julho de 2018

1978-07-00 - Seara Nova Nº 1593


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Editorial

Estão-se a criar progressivamente em Portugal as condições objectivas para a efectivação de uma ampla aliança de classes e camadas sociais igualmente empenhadas na luta contra a degradação da situação económica e financeira causada pela política do actual Governo. Nunca como hoje se tinham mostrado tão comuns e solidários os interesses de um vasto espectro social englobando o operariado, o campesinato, os trabalhadores do terciário e os pequenos comerciantes e industriais. A política económica e social do actual Governo é igualmente perniciosa para todos esses sectores. Aos que vivem do seu salário, corrói-lhes o poder de compra pelo desmesurado aumento dos preços e pelo agravamento da carga fiscal. Os pequenos comerciantes e industriais são vítimas da retracção do crédito, da alta das taxas de juro e da diminuição do poder de compra da população. A curto ou médio prazo poderemos vir a assistir a uma catadupa de falências de pequenas e médias empresas (PME) com consequências imprevisíveis sobre a já periclitante economia portuguesa e sobre a situação do mercado de trabalho.

A criação das condições objectivas dessa vasta aliança não significa que ela se possa efectivar de imediato. Importa primeiro que as diversas classes e camadas sociais, cujos interesses estão presentemente solidários, saibam definir a forma comum pela qual esses interesses podem e devem ser defendidos. De outra forma o País permanecerá na actual situação de impasse, de crise institucionalizada, em que as forças progressistas são suficientemente fortes para impedir a instauração de um regime autoritário e repressivo, mas não o bastante para impor a sua própria política para a saída da crise.
O presidente do CDS considerou «sadio» um processo de falências das PME, desde que devidamente controlado. Sendo o patronato um sector onde o CDS recruta um importante segmento da sua base social de apoio, aquele político pretende, com um «processo controlado», que as falências não se multipliquem de forma a causar a perda da sua credibilidade dentro daquele sector e a levar os pequenos comerciantes e industriais a reavaliarem a questão da defesa dos seus interesses. Igualmente outros sectores das camadas sociais intermédias são objecto de acções de propaganda dos políticos de direita, tendentes a empolar questões não essenciais e a evitar que aqueles sectores sejam ganhos para uma política consequente de defesa dos seus interesses reais. No entanto, pouco a pouco, vai-se construindo a unidade.
Assume neste aspecto uma particular relevância a movimentação criada â volta do 30.° aniversário da morte de Bento Caraça. A homenagem a esse grande lutador antifascista congregou a unidade de amplos sectores democráticos. Porém, e é a própria herança de Bento Caraça que nos revela, o fascismo não se combate apenas com sessões de homenagem. O fascismo combate-se activamente, evitando as causas da sua proliferação: democratizando o Estado, promovendo uma ampla participação popular em todas as instâncias do poder político, fazendo uma política de alianças entre todas as forças que protagonizem os interesses das classes e camadas sociais não monopolistas e não capitulando perante as forças que representam os interesses do imperialismo e dos monopólios.
Há poucos dias, Lisboa e Porto assistiram a manifestações fascistas, tendo a Polícia reprimido contra-manifestantes que protestavam contra a realização daquelas manifestações, originando um morto e diversos feridos. Causa inquietação esta atitude das autoridades e ainda mais a autorização concedida a manifestações contrárias ao regime democrático. A unidade das forças sociais e políticas interessadas em defender, na acção, a democracia é indispensável para o combate eficaz e consciente às forças conservadoras e reaccionárias.
Igualmente relevante foi a cimeira de Bissau. Há entre Portugal e Angola um vasto contencioso que é urgente eliminar no interesse de ambos os povos. Foram dados em Bissau passos importantes nesse sentido. É necessário que em Portugal haja vontade política para levar à prática, sem hesitações, esses acordos.


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