quarta-feira, 27 de junho de 2018

1978-06-27 - Voz do Povo Nº 203 - UDP


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Editorial
A semente de uma unidade mais sólida

NÃO é sem uma certa preocupação que se assiste à tranquila e constante ascensão do CDS. No MEC, acaba de colocar gente da sua confiança; começou já a invadir os governos civis; exige mudanças no MAP e no MAS; clama pela aplicação da Lei Barreto. Tenta, enfim, orientar a governação em áreas particularmente sensíveis da política nacional.
Até aqui e durante alguns meses, o CDS e os seus dirigentes andaram a procurar dar a ideia de que era um partido democrático, maduro, moderado inclusive. O dr. Freitas do Amaral contou até, recentemente, com um programa de promoção pessoal que a RTP lhe dedicou. Por todo o lado, o CDS tentava dar a ideia da estabilidade.

Entretanto, durante todo este tempo, o papel do vilão andava a ser desempenhado pelo dr. Sá Carneiro. Como agora se verifica, os objectivos de ambos os partidos não diferem no fundamental. Ambos preconizam, a curto prazo, a mesma série de medidas. A diferença está em que o CDS tem obtido mais resultados, agindo pela calada e, sobretudo, escudando-se atrás de um PS que não se cansa de fazer o frete à direita, de um PS a quem não repugna, na prática, ser o mais fiel aliado objectivo das forças reaccionárias, das forças anti-25 de Abril.
A propósito do CDS, convém lembrar algumas coisas. Por exemplo, que dirigentes desse partido afirmavam já ter apoiado financeiramente, em 1976, o pasquim fascista "A Rua", o mesmo que convocou e promoveu as manifestações nazis do 10 de Junho. Convém lembrar que muitos dos implicados no processo da rede bombista são elementos do CDS que chegaram a ocupar funções de responsabilidade na estrutura partidária. Convém lembrar que aqui há uns anos, em Itália, foi cabalmente demonstrada a íntima ligação política existente entre a democracia cristã e o partido neo-fascista; que foi inclusivamente demonstrado que a democracia cristã tinha perfeito conhecimento das actividades terroristas dos fascistas.
Vem tudo isto a propósito para reafirmar a gravidade da situação que se vive hoje em Portu­gal. O CDS tem cada vez mais voz activa no Governo. E acontece que, por força dessa situação, estamos perante uma realidade chocante que desprestigia a democracia. Já não é só a política governativa que não tem nada a ver com o voto expresso pelo povo; é a própria composição do governo que põe em causa a utilidade de eleições, já que se verifica que um dos partidos menos votado, repudiado massivamente pelos trabalhadores, tem afinal uma influência crescente na vida política nacional. Verifica-se assim que, na prática, os resultados das últimas eleições estão completamente falseados.
Toda esta situação significa, evidentemente, um reforço da direita. Seria pois o momento oportuno, o momento ideal e, sobretudo, o momento necessário para uma vasta unidade entre todas as forças interessadas, de facto, na defesa do 25 de Abril.
Largos sectores antifascistas compreendem a gravidade da situação e decidiram-se já a enveredar pelo caminho dessa unidade. A realização das primeiras sessões do Tribunal Cívico Humberto Delgado, a presença massiva no funeral do jovem José Jorge, assassinado pela PSP e o fascismo no 10 de Junho, a amplitude do movimento contra o regresso de Tomás, foram pontos altos desta unidade, que confirmam as possibilidades existentes neste campo e deixam antever êxitos ainda maiores para a unidade antifascista.
É, de certo modo, exemplar o facto de tudo isto acontecer, ainda por cima, em plena ofensiva da direita. Nestas circunstâncias, a unidade antifascista significou uma resposta clara do campo democrático e veio provar que é possível erguer uma oposição à escalada reaccionária.
Não podemos pois compreender que algumas forças políticas, e em particular o PCP, persistam em opor-se às manifestações e outras iniciativas democráticas consequentes. Não podemos aceitar que esse partido tenha vindo a público erguer a sua voz, tal como o PS, contra a manifestação de protesto pelo regresso de Tomás. Não é esse por certo o caminho da unidade antifascista e do combate à reacção.

As recentes acções unitárias antifascistas são a semente de uma unidade mais sólida, profunda e duradoura, que é necessário alcançar a curto prazo. Essa unidade, esse desejo que existe entre os trabalhadores, tem de ser acarinhado e protegido, sem sectarismos. Tem de ir para a frente, de forma firme e consequente, sem vacilações que apenas podem servir para a romper, para lhe tirar a eficácia. Os mais recentes acontecimentos mostram que é possível seguir este caminho. Quem duvida que ele é necessário?





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