sexta-feira, 22 de junho de 2018

1978-06-22 - O Povo de Guimarães Nº 017


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A BATALHA DE S. MAMEDE
JOSÉ CRAVEIRO

Passa depois de amanhã o 24 de Junho, feriado municipal em várias cidades e vilas de Portugal. Enquanto na vizinha Braga esfogueteiam folguedos populares em honra de S. João, Guimarães tem dedicado circunspectamente esse dia a comemorar oficialmente a batalha de S. Mamede, com actos e palavras oficiais, oficialmente participados por patriotas oficiais. E alguns oficiosos, quero crer, e honra lhes seja.
A apresentação desta antinomia festiva não leva, da minha mente, nem pitada de ironia que moleste ou morsegue qualquer das duas cidades minhotas. Registo factos, objectivamente. De subjectivo, o muito que poderia sair-me denunciado é a vaga suspeita em que estou de que nem em Braga se festeja efectivamente o Santo, nem em Guimarães é a batalha o que efectivamente se tem celebrado.

A historiografia de audiência nacional continua sem bem saber o lugar onde se travou a batalha de S. Mamede, ainda que atribua credibilidade inconcussa a documentos que a localizam «in campo Sancte Mametis quod est prope castellum de Vimaranes»; os estudos de João de Meira localiza­ram-na definitivamente nas imediações dos muros do Castelo. Assim, Guimarães sabe o lugar e a data da peleja e é perfeitamente natural que os vimaranenses a ponham na conta de fasto local de monta maior, dada a significação nacional que se lhe atribui. O que já me não parece tão naturalmente compreensível é que alguém pretenda investir a inerte circunstância geográfica de uma peleja entre barões galaico-portucalenses, repartidos por duas parcialidades opostas, para extrair daí pergaminhos e privilégios para os moradores do lugar. Nem o burgo de Guimarães precisa de prevalecer-se de um mérito tão perfunctório, quando os tem, efectivos e muitos, de que honradamente pode orgulhar-se; nem o fasto é assim duma significação histórica tão brilhante e tão feliz como isso.
O carácter exemplar que ao evento se atribui em divulgação que começam em livros escolares parece-me a mim pecar de grosseira perspectivação das conveniências científicas e morais. Que um moço de 16 ou 17 anos se rebele contra a mãe e, vencidas as forças que lhe defendem a vontade, a prenda e expulse é acto que me parece por de mais teio para ser exemplar. O namoro da mãe viúva com o Fernando Trava? Pois sim. Ia lá agora importar-se um príncipe matulote daqueles tempos com o aconchego político-marital da mãe, viúva desde os 32 anos, certamente ainda bonitona aos 48! E o patriotismo? Ora não, que ainda não havia disso, nem semeado estava ainda tal sentimento no agro das estruturas feudais. Nas relações de suzerania e vassalagem, cimentadas na fidelidade, mais ou menos precária, a juramentos prestados de pessoa a pessoa, os motores da História eram então os possidentes da terra que a não trabalhavam; os outros, a maioria ignara e timorata da personagem, trabalhando a terra que não possuíam, iam no reboque das ambições de barões leigos e eclesiásticos que tinham, com a terra, os cavalos, as armas e a tecnologia militar ou as chaves das portas do Céu. Àqueles mais não cabia do que, suando pelo pão e por outras necessidades de seus protectores e mandões, assegurar as migalhas da sua sobrevivência. Da malha de tais relações ressumava, e não podia deixar de ressumar, violência e anarquia, truculência e trafulhice.
Resulta sempre História mesmo de mãos que para fazê-la se não adestraram. Aos construtores de futuro, se modeladores conscientes dele se querem, compete assegurar-se da compreensão do presente que vivem mediante o esclarecido conhecimento do passado donde provêm. Eu diria que político que se está nas tintas para a História produzirá sempre um futuro que acontece, mas não o constrói como obra sua consciente.
Os planos de D. Teresa e seus parciais apontavam para a indepen­dência de toda a parte ocidental cristã da Península, una na sua física configuração geográfica e na humana estruturação sócio-cultural dos seus habitantes. Tal plano comprometia, a favor de Santiago de Compostela, as ambições do prelado bracarense, cuja sé fora recentemente tornada metropolita. Estavam nisto e aqui os Mendes, poderosos senhores da Maia.
Consideram alguns prematura a definição do pequeno reino de Aquém-Minho e fracassada, com S. Mamede, a hipótese de um reino maior Galaico-Portucalense. Ressentiram os Galegos o fracasso, na sua terra e na sua gente «assoballadas» pelo duro e «assoballante» centralismo de Castela. S. Mamede cortou em dois um destino que, para a «mesma xente na mesma terra» parecia dever ser comum; e lamentarão como nefasto um sucesso a que possivelmente remontam o começo da marginalização dos seus interesses culturais e materiais, metidos por adjectivos caminhos da História, pedregosos caminhos que ainda sofrem no espírito e na carne.
O  certo, porém, é que o pequeno reino de Portugal se definiu, se fortaleceu e se objectivou em tarefas que cumpriu com êxito e, ao cumpri-las - Fenícia dos tempos novos - se fez ponta de lança dos destinos europeus que modelaram a História do Mundo. Cabe perguntar: ter-se-iam definido e executado tais destinos se, em vez do pequeno Portugal de Afonso Henriques, se tivesse conformado o reino maior que D. Teresa ambicionou?
E sabê-lo?
A História que aconteceu está aí - a feita - abrindo as portas da por-fazer.
Guimarães honra o fasto de S. Mamede. Vai fazê-lo este ano em tom maior, com alargado e condigno programa. Completam-se 850 anos sobre a efeméride: número jubilar. Pois que a celebra com a participação comum das gentes, consciencializando-se cada um de que a felicidade dos povos não é gratuitamente deferida pelos Fados em que não cremos, mas obra a conseguir pelo participado esforço comum em que devemos acreditar. De caminho, colhamos, de fastos e de nefastos do passado, a lição que deles pende; e dessa lição tiremos a luz que nos alumie nos passos a dar para a construção do futuro. E, já agora, façamo-lo belo e feliz quanto em nós couber.



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