sexta-feira, 15 de junho de 2018

1978-06-15 - Europeu Nº 18


Para ver todo o documento clik AQUI

Comentário
PSD: UMA OPÇÃO INADIÁVEL

Estando as coisas como estão, falar de crise política, em Portugal e hoje, continua a forçar-nos a falar quase exclusivamente da crise do PSD, facto que já se vai tornando um hábito e um hábito de vitalidade. Ele é demonstrativo não da corrosão, como querem algumas vozes "de esquerda", mas de vontade e força activista de prosseguir na transformação democrática do tecido social.
Surgiu entretanto o documento-bomba "Opções Inadiáveis". Subscrito pelo grupo dirigente que se opõe às teses de Sá Carneiro, o texto viria a ser posteriormente apoiado por uma fatia partidária ainda mais larga que inclui o grupo parlamentar PSD. Sá Carneiro entretanto, Observa, o que não quer absolutamente Significar que esteja a contar espingardas.

A 14 deste mês, encerrou o prazo para a entrega de propostas e documentos internos de análise, com vistas ao Congresso de Julho. Não é sabido ainda que documentos e sobre que temas apareceram. A gravidade maior resultará da circunstância de eventualmente os subscritores de "Opções Inadiáveis" virem a ter de se enfrentar apenas com os discursos do Congresso e não com a resultante de prévia meditação, a frio, dos delegados sobre alternativas apresentadas com tempo.
Fechámos o texto sobre este assunto incluído no último "Europeu" referindo que "contrariamente a tantos aventureiros, é fora de dúvidas que, tal como as coisas estão, os problemas do 2º maior partido do país tendem a pôr em risco a própria estratégia democrática de todos nós". Tecendo seja ele qual for o raciocínio, ninguém que neste país se esteja a bater acima de tudo pela construção democrática pode por em dúvida esta verdade; o PSD é indispensável a esta democracia. A liquidação do PSD como força política da área democrática anti-fascista, agradará concretamente e antes de mais aos ditadores que Se acoitam nos extremos totalitários, mais ou menos convergentes, da própria democracia.
O perigo porém não espreita por agora dessas bandas. O perigo espreita exactamente de dentro da própria democracia, acoitado na ambição e nas catilinárias vingativas dos que, afirmando-se embora estrénuos defensores da alternância no poder, vão no concreto rejubi­lando com o desaparecimento dos seus opositores. (Entretanto as hienas aguardam que os vencedores lhes permitam revigorar forças com o que sobrar da carnificina).
Sucede que a crise de identidade do PSD, que corresponde também ao abandono da sua natureza frentista, segue a par e passo o desenrolar da própria crise de identidade partidária nacional, da própria busca de rumo que não é apenas dos Sociais-democratas. E se hoje - agora - PS e CDS nos oferecem a imagem tranquila de um elenco de militantes bem comportados, não é menos verdade que isso fica mais a dever-se à sua adaptação comodista ao "statuo quo" de serem Poder do que a uma mais perfeita consciência da proposta socialista ou centrista. Trata-se de habituação ao "establishment” e não de crescimento da própria consciência militante ou enriquecimento ideológico.
Não é tão somente o PSD que se depara hoje com uma consistência frentista à procura de uma mais límpida imagem de partido, como já aqui dissemos amiúde. Talvez que apenas o CDS e o PCP, por motivos óbvios ainda que distantes, possam gabar-se de uma coesão ideológica partidária nítida. Ainda assim e recentemente, os desaguisados no CDS levaram a demissões de Comissões Concelhias.
O canto sarcástico de vitória que se ergueu de certos "corações" socialistas mais estrenuamente "ortodoxos" perante o aparecimento do texto "Opções Inadiáveis", tresandou a sectarismo agravando mais ainda a menoridade crítica anti-sá-carneirista que os infecta. Não a congratulação pelo conteúdo socializante das teses do "grupo de Lisboa" do PSD. O que aponta para algumas direcções controversas no futuro próximo e muita perplexidade face ao futuro.
Em primeiro lugar ideológica e militantemente, o poder está a fazer cada dia mais mal aos socialistas, despoletando-lhes o patriotismo a favor da quezília e da vingançazinha mesquinha interpartidária, sem vislumbres de que perdoem a curto prazo o carácter social-democrata do PSD.
Em segundo lugar, o único texto até agora surgido de correcção interna às posições de Sá Carneiro, corre portanto o perigo de morrer jovem, estrebuchando entre um PS que o anima mas realmente não o aceita como argumento e as bases de um PSD que o vituperam mas não o combatem, ainda por sectarismo.
Em terceiro lugar, as reacções dos democratas não-PSD vão todas tragicamente no sentido de se alegrarem com o agravamento da actual impotência da alternativa de poder social-democrata mostrando assim, na prática, que não desejam realmente, ver concretizada a demagógica tese da "alternância de governo", que não desejam ter de vir a ser oposição.
Em quarto e último lugar, não se vislumbra bem daqui até que ponto pode o Presidente da República beneficiar - beneficiando-nos - de todas estas incompreensões e inimizades, não obstante todos correrem a prestar-lhe homenagens cada vez menos sinceras e mais "diplomáticas".
Oxalá no PSD, os verdadeiros social-democratas que não são chauvinistas de partido, sejam capazes de contornar esta perplexidade e achar a ponta do fio de Ariana, capaz de reconstruir a unidade possível no seio de cada um e de todos os partidos democráticos.
Esta é com efeito uma opção inadiável. A bem do desenvolvimento e da independência da Pátria comum.


Sem comentários:

Enviar um comentário