quarta-feira, 6 de junho de 2018

1978-06-06 - Voz do Povo Nº 200 - UDP


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Editorial
Algo está podre neste país

Esta é a dura realidade dos dias que correm. É a amarga conclusão que cada vez mais trabalhadores e democratas são obrigados a retirar.
Na verdade, os destinos de Portugal não estão a ser traçados pelo povo. A vontade popular expressa nas derrotas eleitorais da direita e nas grandes acções massivas é sistematicamente desvirtuada, esquecida, contrariada. A pouco e pouco, o novo Portugal que começou a ser construído após o 25 de Abril vai dando de novo lugar às velhas e chocantes realidades da dominação capitalista e imperialista.

Em Ovar, homens do CDS manipulam eleições para a Mesa da Casa da Misericórdia. Um tal Leonardo de Azevedo assume a direcção e impõe desde logo um clima selvático de desrespeito pelas trabalhadoras e asiladas. As coisas chegaram a tal ponto que duas jovens são violentadas e um velho asilado morre por maus tratos. Eis uma imagem particularmente chocante do que ocorre já por esse país fora nas empresas em que antigos patrões sabotadores estão regressando e impondo as suas leis discriminatórias contra os trabalhadores. Protegidos e estimulados pela legislação governamental, os trafulhas e parasitas que após o 25 de Abril correram a esconder-se da fúria popular regressam agora, triunfantes, desejosos de descarregar a vingança sobre os ombros de quem trabalha.
Na RDP, empresa pública dita ao serviço do povo, a Direcção de Serviços de Programas viola correspondência e intercepta telefonemas dirigidos aos realizadores. Após terem sido completamente arredados da definição da política de programação, os trabalhadores da RDP vêm agora controlada a sua própria actividade ao ponto de ser violado o sigilo que deve rodear as suas fontes de informação. Eis mais uma imagem da ofensiva que decorre em todo o país contra as liberdades conquistadas e sempre mais ampliadas após o 25 de Abril. Aqui e ali começam a surgir notícias de controlo de movimentos em diversas empresas e locais públicos, notícias que põem a nu a real organização de um serviço de informações intimamente relacionado, hoje como outrora, com as chefias das empresas. Entretanto, é claro, estes eficientes serviços revelam-se incapacites de meter na ordem os bandos de caceteiros e separatistas. E não se sabe até que ponto esses serviços não estarão apoiados em redes de informação constituídas pelos pides (humanitariamente) postos em liberdade.
O negócio do café, entretanto, permite aos grandes importadores amealhar enormes fortunas à custa dum circuito comercial (como tantos outros) em que reina a lei da selva. Importando a quase totalidade do produto em Portugal, os grandes importadores impõem preços elevados às centenas de pequenos e médios torrefactores de café e são responsáveis pelo aumento constante da famosa "bica". Enquanto o governo aumenta drasticamente os impostos que recaem sobre os trabalhadores, congela os salários e sobe os preços, tudo isto a pretexto das enormes dificuldades do pais, a verdade é que esse mesmo governo se recusa a ir buscar os meios de financiamento de que necessita aos negócios fáceis que, como o do café, propiciam lucros especulativos e imorais. Na verdade, o monopólio das importações do café por parte do Estado, não só acabaria com estes regabofes dos grandes capitalistas como asseguraria à Nação uma receita de largas centenas de milhares de contos anuais.
Mas o problema não ficaria, mesmo assim, resolvido. E isto porque, infelizmente, os dinheiros públicos não parecem estar a ser administrados da melhor maneira. Não bastando já o facto de se pedir austeridade a quem trabalha para, pelo contrário, se irem entregar chorudas indemnizações aos grandes capitalistas expropriados, chegou agora a vez do governo demonstrar o que entende por austeridade. E a verdade é que os nossos governantes, depois de decretarem um máximo de 20% para os aumentos salariais, propõem agora que os seus próprios ordenados sejam aumentados... de 50%! É caso para dizer, dá-me o teu aumento que eu dou-te o meu salário...
Estas são apenas algumas das revoltantes consequências da política que o 1º e o 2º Governos vieram aplicando. Sem falar, evidentemente, da preocupante situação que envolve as Forças Armadas crescentemente controladas pela direita e onde todos os subterfúgios são legais para afastar militares democratas e abafar os direitos constitucionais. Para não falar do tremendo significado da actuação presidencial que agora culminou com a completa ilibação do último presidente do fascismo.
Não há dúvida. Algo está podre neste país. Já vai sendo tempo de o dizer publicamente. E de esclarecer que a responsabilidade não é do povo nem da democracia mas daqueles que insistem em governar contra o povo e distorcer a democracia a seu bel-prazer.



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