domingo, 3 de junho de 2018

1978-06-00 - Resposta Nº 02


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Editorial

Surgiu a RESPOSTA - com uma tiragem reduzida - e quase foi sorvida por algumas escolas, locais de trabalho e livrarias das principais cidades. Surgiu discreta, mesmo com uma certa timidez - ainda sem a polémica e ousadia que cheguem. Apareceu "simples mas simpática" (dizem-nos): está aberto um crédito de receptividade que já mostra que a Revista vai ser útil e que terá um papel a desempenhar - por isso a vamos melhorar, aumentar a tiragem, avançar com confiança.
Este número da Revista aparece alguns dias após o anúncio do possível regresso a Portugal de Américo Tomás, o último e ridículo Presidente do regime fascista, um homem que nunca procurou respostas, não as deu e não as aceitou - um lamentável símbolo do ódio à cultura e ao progresso, do obscurantismo e da opressão que entravaram historicamente o avanço do povo português.
Contra esta eventualidade do regresso de uma das múmias da História de Portugal, a RESPOSTA levanta a sua voz e junta a sua presença para que nos possamos erguer como um só corpo contra esta medida pseudo-humanitária que é mais um recuo inacreditável, que abre brechas por onde os chacais vão querer avançar ainda mais até de novo esmagarem o nosso povo.
Alertamos para os perigos cada dia mais evidentes de quaisquer vacilações e ambiguidades na defesa das liberdades. É necessário ter a coragem de, hoje, de modo muito concreto, unir, com dignidade e firmeza, os esforços de todos os democratas e progressistas deste mesmo lado da barricada onde nos encontramos com Ruy Luís Gomes (1) quando clama com toda a sua força moral, que "fascismo nunca mais"!
Por isso se tornam oportunas as palavras de outro intelectual da Resistência, Mário Dionísio, nesta sua primeira colaboração para a RESPOSTA, a propósito da doutrinação obscurantista no regime de Salazar, Caetano e Tomás:
O pecado era o espírito crítico; a virtude era a pobreza, a humildade, a ignorância. Sem essa "virtude", ruiria toda a estrutura da "Nação" e do império, a defesa implacável dos exploradores contra os explorados, sistematicamente prosseguida em nome da "liberdade do indivíduo", da "cultura ocidental", da "caridade cristã"...
É também por isso que se torna, mais do que nunca, necessário, o julgamento público da PIDE e do fascismo que o Tribunal Cívico Humberto Delgado está levando a cabo com a participação de algumas destacadas figuras da nossa vida política e cultural.

CARAÇA - REFORMADOR OU REVOLUCIONÁRIO?
Saudamos a presença de velhos lutadores antifascistas nas nossas páginas, reforçada com a evocação feita por Sebastião Gonçalves da figura de Bento de Jesus Caraça, que apresentámos como referência cultural fundamental no número de lançamento da Revista.
RESPOSTA aderiu ao trabalho da Comissão que promove a Homenagem Nacional a Bento de Jesus Caraça e espera poder contribuir, com a sua participação, para que, de Bento Caraça, seja dada aos jovens de hoje uma imagem real e clara, a do homem dedicado à divulgação cultural e científica activa junto do povo, procurando despertá-lo para tomar em mãos o seu próprio destino. Bento Caraça não pode ser confinado a uma homenagem mais ou menos formal, à celebração de uma figura estática do nosso passado - isso equivaleria à sua neutralização, à destruição da sua mensagem que nos é legada pelos seus trabalhos e pelo testemunho dos seus contemporâneos. Ele era um agitador das ideias de progresso e tinha bem a consciência da necessidade de colocar um povo em movimento para levar por diante o avanço social. São de Bento Caraça estas palavras:
"A vitória de uma ideia revolucionária significa, na época em que se dá, um acomodamento momentaneamente estável, mais perfeito que o anterior, entre as forças em presença; significa que se deu um novo passo no sentido de subtrair o colectivo à tirania do individual; sentem-no bem as massas que, nessas épocas de comoção dos fundamentos da sociedade, se lançam, numa explosão de entusiasmo, ao assalto do corpo decrépito e parasitário que sobre elas vive.
Mas a sua falta de preparação cultural, o não reconhecimento de si mesmas como um vasto organismo vivo e uno, torna-as incapazes de levar a sua obra mais além da destruição do passado: impossibilita-as de proceder à construção da ordem nova que a sua revolta preparou.
E então dá-se no dia seguinte ao do triunfo a sua abdicação num grande gesto de renúncia - essa obra de reconstrução é um novo grupo, uma nova classe, mas não a colectividade inteira que a vai empreender…”:
Daí que se deva transmitir uma mensagem vigorosa traduzida em múltiplas iniciativas em Associações Cívicas, órgãos de trabalhadores. Escolas, etc., com esclarecimento e debates vivos sobre Bento Caraça - não como uma figura parada (mumificada?) mas ligando a realidade portuguesa do seu tempo e de hoje, cuja transformação progressista era o seu objectivo último. Deverão, pois, promover-se sessões públicas com a participação de contemporâneos de Caraça e de jovens de hoje, permitindo ao mesmo tempo, divulgar o essencial da sua figura e aprofundar o significado do seu ideário - procurar resposta à questão: Caraça foi um reformador ou um revolucionário?

JOVENS DE HOJE E JOVENS DE ONTEM
Trata-se de um homem que criou a Biblioteca Cosmos com a finalidade da mais larga divulgação cultural, que dirigiu a Universidade Popular Portuguesa - e tudo isto a par da intensa actividade de pedagogo e de matemático de prestígio. Ao perfil renascentista de Bento Caraça - homem de cultura, junta-se o Bento Caraça - cidadão exemplar e lutador que expôs à repressão do fascismo toda a força moral e cívica da sua personalidade respeitada. Um exemplo aos jovens de hoje, mas também aos de ontem -para que não se recolham e não se demitam da participação que ainda está ao seu alcance e lhes é exigida hoje  juntando a voz e o saber da intelectualidade ao braço forte da juventude e das classes trabalhadoras, apontando-lhes o exemplo antigo da unidade e da luta: é necessário agregar todas as forças morais da democracia e do socialismo neste país e juntá-las à força material que lhes poderá dar corpo, a da juventude e do povo trabalhador, para barrar o caminho às forças fascistas que já provocam e conspiram abertamente em Portugal. Os homens da Resistência não poderão baixar os braços - assim o exigem os homens e as mulheres que os vão continuar (e ultrapassar)!
O fascismo esmagou gerações - não poderemos permitir que seja esquecido e esmagado todo um passado que herdámos, criando assim um verdadeiro hiato, na consciência histórica do povo português, correspondente ao património cultural, moral e político (de luta) que nos é transmitido pelos contemporâneos de Caraça; para que não se crie um vazio que só pode servir a quem nos pretenda colocar à mercê de um qualquer "salvador" que acaba sempre por surgir numa curva do futuro, quando o povo se divide e se deixa embalar com a conciliação, a vacilação ou a cobardia dos sectores avançados.
Este caminho, árduo e prolongado, é continuamente desbravado por novas camadas. RESPOSTA dará o seu contributo continuando a trazer às suas páginas a colaboração vigorosa e de qualidade que aponte as análises e as novas pistas nos caminhos da Economia, Saúde, História, Ciência, Música, Luta dos Povos, etc. E a polémica terá de estar presente - já neste número damos uma ajuda nesse sentido. O inquérito que vamos enviar aos intelectuais (verso da contra capa) e os Jogos Florais RESPOSTA/78 (destacável nas páginas centrais) são duas iniciativas significativas dos caminhos que queremos (vamos) abrir.

(1) Na sua evocação de Bento de Jesus Caraça, neste número da RESPOSTA.


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