sexta-feira, 1 de junho de 2018

1973-06-01 - NINGUÉM SAI! - MRPP


NINGUÉM SAI!

Aos inquilinos da Fundação Salazar, no Laranjeiro;
Ao povo do concelho de Almada;
À classe operária:

Hoje, dia 1 de Junho, no bairro da chamada Fundação Salazar, no LARANJEIRO, a burguesia vai cometer mais um dos seus odiosos crimes contra a classe operária: oito famílias proletárias, inquilinas dessa especulativa fundação vão ser pura e simplesmente postas na rua, sob o cínico e cobarde pretexto de que têm os alugueis em atraso.

A questão imediata que se levanta a todos nós, que sabemos que o crime vai ser praticado, é esta; vamo-nos resignar? Vamos cruzar os braços? Vamos aceitar que cerca de 70 irmãos nossos, dos quais 50 são ainda meninos, sejam lançados a rua e fiquem, a partir de hoje, sem um abrigo? Ou vamos lutar, combater unidos, resistir organizados e impedir que a burguesia, que a "benemérita" Fundação Salazar, possa consumar o crime fria e calculadamente planeado? Vamo-nos remeter ao silêncio e à passividade que nos tornam cúmplices dos capitalistas, cúmplices dos inimigos do povo? Ou vamo-nos juntar aos nossos camaradas, unir solidamente com eles e lutar a seu lado contra a repressão fascista, contra a humilhação e a opressão do povo? A nossa escolha só pode ser uma: a nossa escolha é a da luta contra o inimigo de classe, a da unidade e solidariedade proletária contra os vampiros que sugam o povo.
Em Janeiro passado, o presidente fantoche Tomás, supremo magistrado da Fundação Salazar, veio ao Laranjeiro proceder à inauguração do novo bairro. As cem famílias que lá habitam - a maior parte das quais já lá morava desde Julho, antes mesmo da inauguração oficial - viram com os seus próprios olhos e ouviram com os seus próprios ouvidos o discurso carregado de promessas, que o desdentado e caquéctico presidente achou por bem vomitar na altura. E, porque o viram e escutaram, estão, como ninguém, em condições de compreender agora - agora que à demagogia do discurso se opõe a realidade concreta e dolorosa do despejo - todo o cinismo, a mentira e a hipocrisia de que é capaz não só o primeiro lacaio dos monopólios, como a classe de que ele é presidente.
As oito famílias ouviram, todos os habitantes do bairro ouviram, porque todos foram obrigados a estar presentes na cerimónia inaugural - ouviram o fantoche Tomás prantear a sua "emoção", a sua “dor" relativamente à situação de milhares de famílias operárias forçadas a viver em barracas, em palheiros e em grutas; todos eles repararam como ele quase chorou lágrimas de crocodilo, quando falou de um "perigo moral e espiritual” que as crianças e os adultos correriam nesses "ambiente de promiscuidade"; todos anotaram o seu juramento de que a Fundação Salazar - de que ele é presidente e fundador tem por lema “dar um lar a cada família portuguesa”. Agora, apenas quatro meses depois do enfadonho discurso, todos podem ver e comprovar como o fantoche Tomas, porta-voz da burguesia, se rala com a saúde moral e espiritual das crianças; como ele arrelia com a sorte das famílias operárias vivendo em barracas, em palheiros e em grutas; como a Fundação Salazar - de que ele é presidente e primeiro responsável - se consome em dar um lar a cada família portuguesa. Um lar cujo pavimento é a rua e cujo tecto é o firmamen­to, a lua e as estrelas, tão cantados pelos poetas nascidos nos palácios - eis o que a burguesia, eis o que a Fundação Salazar terá para oferecer aos trabalhadores. Eis o que ela pretende dar às oito famílias do Laranjeiro no dia 1 de Junho.
De facto, nem a burguesia, nem a Fundação Salazar, nem milhões de fundações com esse ou com outro nome, podem - no caso de que alguma vez estivessem dispostas a isso - a resolver ou minorar sequer o problema do alojamento das massas operárias. Na sua forma actual, a questão da penúria de habitações para os trabalhadores é uma consequência inevitável do sistema capitalista, do sistema de exploração do homem pelo homem, que nos oprime - tal como o são o alcoolismo, a prostituição, o desemprego, a carestia de vida, a emigração, a guerra colonial, a fome, a doença e a miséria. Na nossa sociedade, isso é tudo o que resta às classes trabalhadoras, em contrapartida do luxo, da riqueza, do prazer e da abundância de que goza a classe exploradora, a classe dos que não trabalham, mas que tudo arrecadam. Para abrigar a mulher e os filhos, o operário tem, quando muito, uma barraca na Margueira; o capitalista, porém, possui um palácio na cidade, uma quinta no campo para repouso da ociosidade e mais uma ou várias vivendas na praia onde conta desbastar a gordura perigosamente acumulada.
Apenas a revolução dos oprimidos, a Revolução Popular, destruindo o poder dos capitalistas e instaurando o poder dos trabalhadores, arrancar pelas raízes o sistema de exploração em que vivemos e em consequência resolverá a questão do alojamento das massas operárias.
A expropriação, pelo povo em armas, das quintas, das vivendas e dos palácios dos capitalistas, bem como duma quantidade enorme de outros edifícios hoje parasitariamente ocupados por um governo corrupto e opressor, chegará para acabar com os humilhantes bairros de lata onde definha o proletariado.
O facto de que tenha sido criada uma coisa chamada Fundação Salazar, apregoada como uma instituição "benemérita" e "caritativa”, não passa de mais uma mistificação do povo, do mais burla e fraude monumentais praticadas pela classe dominante. A Fundação Salazar - fazendo jus ao nome do seu patrono - é mais uma sociedade que a camarilha marcelista pôs de pé para especular com a própria miséria dos trabalhadores.
Estas oito famílias operárias são apenas as primeiras, das 100 presentemente alojadas, que a famigerada Fundação Salazar procura expulsar do bairro do Laranjeiro. Não julguem porém, as restantes 92 famílias que um mesmo amargo fim não esteja planeado já para elas na mente da Fundação Salazar e no “coração” do presidente fantoche Tomás. Ainda não decorreram dez meses desde que as primeiras famílias foram habitar o bairro e já os despejos estão em acção. O custo da vida cresce em cada dia que passa. O sistema de exploração em que vivemos caracteriza-se precisamente pelo congelamento policial dos salários e pela subida constante e galopante dos preços das coisas necessárias à vida. Os operários, não podendo pagar as rendas que os senhorios lhes esmifram, são escorraçados das suas casas pelos tribunais, pelas polícias e enviados para bairros de lata cada vez maia distantes, mais infectos e mais mortíferos.
Há que resistir e lutar contra as arbitrariedades, a exploração, a insegurança e o perigo de que somos vítimas. As cem famílias do bairro do Laranjeiro devem estar unidas como um só homem e, se permanecerem estreitamento unidas e solidárias, vencerão.
As famílias ameaçadas de expulsão devem recusar-se decidida e terminantemente a abandonar as suas casas. NINGUÉM SAI! - eis a nossa palavra de ordem de combate.
As restantes 92 famílias devem decretar GREVE ao pagamento das rendas de casa, enquanto a especulativa Fundação Salazar não retirar completamente a ameaça de expulsão dos nossos camaradas.
Os alugueres em atraso não serão pagos!
Os inquilinos da Fundação Salazar no Laranjeiro devem escolher, entre si, os membros duma COMISSÃO para conduzir a sua justa luta. Devemos manter permanentemente informados os operários das fábricas e o povo da zona de forma a obtermos uma solidariedade, activa e militante.
Conclamamos o povo do concelho de Almada a concentrar-se, hoje, dia 1 de Junho, no bairro da Fundação Salazar, no Laranjeiro, manifestando a sua solidariedade popular e impedindo a expulsão dos nossos camaradas das suas habitações.

GREVE ÀS RENDAS DE CASA! NINGUÉM SAI!
CONTRA A REPRESSÃO FASCISTA!                              
CONTRA A TRAIÇÃO REVISIONISTA!
CONTRA A EXPLORAÇÃO CAPITALISTA!
CONTRA A GUERRA COLONIAL-IMPERIALISTA!
VIVA A REVOLUÇÃO POPULAR!                                 
VIVA O M.R.P.P.!  

O Comité Directivo da Zona Mao Tsé-Tung 

CONCENTRAÇÃO NO LARANJEIRO BAIRRO DA FUNDAÇÃO SALAZAR DIA 1 JUN.


Sem comentários:

Enviar um comentário