quarta-feira, 30 de maio de 2018

1978-05-30 - CARTA DO CAMARADA FARRICA AO COMITÉ CENTRAL - MES



I encontro nacional de organização - ENO
Porto, 1 e 2 JULHO 1978

TEXTO DE APOIO

1ª SECÇÃO
CARTA DO CAMARADA FARRICA AO COMITÉ CENTRAL  

Camaradas:
Sem pretender levantar aqui todas as questões que me preocupam, limitar-me-ei a abordar as que acho mais graves. A situação que hoje vivemos em Portugal é própria para reflexão.  
Depois do nosso III Congresso fiquei mais livre das tarefas centrais do MES e por isso tenho tido oportunidade e paciência para reflectir coisa até aquela data jamais tinha acontecido. O tarefismo e a rotina no nosso trabalho que eu chamo o esforço falhado, sempre liquidaram muitos militantes e bons, afastando sempre os mesmos de pensarem um pouco, pela sua própria cabeça.

Este trabalho em que tenho estado empenhado permitiu-me julgar seriamente o que é o MES, o que pretende ser e como o pretende ser.
E cheguei à seguinte conclusão: o MES é uma força pequena, com uma prática politica errada e com pretensões a ser aquilo que só por si, nunca poderá ser.
É uma forca com divisões internas ultrapassadas com esta forma de pensar e agir; o desgaste internamente é uma realidade e a sua diluição é um perigo constante. A imagem pública cada vez mais apagada. Com tudo isto, o que se faz para combater esta situação? Pouco ou nada! Que tipo de discurso-existe?
Sem me alargar mais nas considerações que faço, digo não, camaradas. Não quero assistir pacificamente à morte do MES; mas não me importo de assistir à sua morte natural.
Por isso estou, por estes motivos a pedir a minha demissão da Direcção do nosso Partido; faço isto por entender ser incompatível com as minhas ideias estar no CC dirigindo um Partido no qual não tenho confiança.
Este meu pedido de demissão implica a minha saída do DETSB.
Camaradas: para além do MES, e da chamada esquerda revolucionária este Comité Central dever iniciar uma discussão séria e honesta sobre estas questões que aqui levanto e que pretendo completar numa intervenção oral que farei.
Sem mais bom Trabalho, e com a certeza que havemos de encontrar uma saída para a actual situação.

30 de Maio de 1978
Francisco Farrica

Camaradas
Foi em situação de manifesta e grave crise que o MES chegou ao III Congresso. De então para a crise do Partido tem conhecido um incessante agravamento. O nosso isolamento perante as massas e os activistas do movimento popular acentua-se de dia para dia. credibilidade política do Partido chega ao seu ponto mais baixo. A desagregação e a desmobilização nas nossas fileiras não pára de crescer. A natureza grupuscular da organização é um facto cada vez mais evidente.
Para esta situação contribuem, sem dúvida, causas de natureza objectiva exteriores ao MES que de modo algum podemos ignorar. Mas o certo é que constitui grave incorrecção procurar-se explicar a crise do Partido recorrendo exclusiva ou principalmente a esses factores do carácter objectivo.
Na verdade, se quisermos compreender e enfrentar esta situação por forma honesta, lúcida e eficaz indispensável se torna olhar para o passado e analisar em termos de verdadeira auto-crítica, em termos principalmente políticos, o percurso do Partido, desde a sua constituição até ao presente, só assim será possível identificar todo o conjunto de erros, de graves erros, por nos cometidos e encontrar uma séria linha do explicação para os sucessivos fracassos que vimos acumulando. Só assim se revelará viável encontrar uma alternativa ao caminho de destruição que estamos percorrendo. Só assim será possível encontrar vias para salva guardar a capacidade de militância e o prestígio dos activistas do campo popular que ainda estão nas nossas fileiras.
Muitos elementos poderia adiantar, como contributo pessoal, para a realização desta tarefa. Penso, todavia, sê-lo incorrecto faze-lo neste momento e por esta forma. Com efeito, trota-se de um trabalho que só teve sentido levar a cabo em termos colectivos e desde que se reúnam condições mínimas para garantir que possa ser efectuado com êxito. Ora, no quadro da actual direcção do Partido não veja qualquer viabilidade para se encetar e levar por diante semelhante tarefas, Assim sendo, a única atitude correcta que julgo meu dever assumir consiste em desvincular-me a partir deste momento, do Comité Central, mas ficando a guardar, dentro das fileiras do Partido, que se gerem condições para que se proceda com a imprescindível urgência e garantias de êxito ao balanço auto-crítico que reputo indispensável. Caso tal venha a suceder, participarem com a maior honestidade e da forma mais activa que me for possível na respectiva realização. Caso contrário, outra alternativa não me resta que não seja a de desvincular-me do Partido e a prosseguir, enquanto activista revolucionário, o caminho que entender como o mais correcto para lutar pela defesa dos interesses do povo trabalhador.
Se tomo esta atitude, devo dize-lo que o faço após longo e profundo processo de reflexão, e porque entendo que, ao ter participado, há aproximadamente 4 anos, com um conjunto de camaradas na constituição ao MES, assumi como todos assumiram a pesada responsabilidade de constituir uma organização política que fosse o instrumento eficaz para dar origem a uma alternativa popular e revolucionária. Ora, é necessário termos a coragem e a lucidez indispensáveis para reconhecer que temos procurado nessa tarefa e que, após o III Congresso, os factos demonstram encontramo-nos mais distantes do que nunca na capacidade de os levar a cabo. E receio bem que os erros cometidos, por vezes inevitavelmente, importa reconhecê-lo, foram tantos e tão graves que se acha definitivamente comprometida a possibilidade de caminhar de atingir o objectivo que era o único que dava razão de ser à nossa existência enquanto força política: a construção da alternativa popular e revolucionária.
Porque penso deste modo e porque assumo a quota parte que me cabe na responsabilidade deste processo, entendo não dever permanecer por mais tempo como dirigente do MES. Porque penso ser indispensável tirar as lições do nosso empenhamento nestes 4 anos de dura e intensa luta, entendo meu dever apelar a todos os camaradas que queiram prosseguir sem ilusões nem ingenuidades, numa acção política séria, efectivamente voltada para a defesa dos interesses populares, para que procedam a profundo balanço crítico da acção por nós desenvolvida nestes 4 anos. Por que penso ser correcto lutar para que este balanço possa ser levado a cabo no quadro do MES, entendo correcto não fazer acompanhar a minha saída do Comité Central com a desvinculação do Partido. Sublinho, no entanto, e para evitar qualquer equívoco que a minha permanência nas fileiras do MES está condicionada à realização do balanço crítico referido e, caso o mesmo venha a ter lugar, ficará dependente como é óbvio, dos termos em que o mesmo se concretizar e das conclusões que produzir.
Saudações Comunistas Lisboa.

12 de Março de 1978
Afonso de Barros




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