quinta-feira, 24 de maio de 2018

1978-05-24 - Bandeira Vermelha Nº 123 - PCP(R)


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EDITORIAL
SÓ A OPOSIÇÃO POPULAR IMPEDIRÁ O REGRESSO DE TOMÁS

Os mais destacados dirigentes políticos dos partidos burgueses estão empenhados em fazer esquecer a decisão do general Eanes de convidar o fascista Tomás a regressar a Portugal. De formas diversas, fazem crer que o facto não terá afinal a importância que as páginas dos jornais e a opinião popular lhes deram, mal foi conhecida a escandalosa notícia.
Como era visível na altura e como então denunciou o nosso Partido, o discurso de Eanes do dia 25 de Abril foi o prenúncio de nova guinada à direita e respondeu às exigências feitas por todos os sectores reaccionários. A autorização para o regresso de Tomás é a confirmação do caminho pelo qual o general Eanes pretende conduzir o país.

Negar que o convite dirigido a To­más seja uma tentativa de absolvição e de reabilitação do fascismo é esconder do povo os perigos que o ameaçam, encobrir de quem partem esses perigos e quebrar-lhe a capacidade de resistir.
Que representa de facto o insultuoso convite a Tomás?
A visita de Eanes ao Brasil foi precedida da deslocação àquele país dominado por uma ditadura fascista de uma delegação encarregada de preparar acordos políticos e económicos. O grande capital brasileiro não esconde o seu interesse em adquirir posições privilegiadas em Portugal que lhe facilitem o acesso aos mercados das antigas colónias portuguesas. Por outro lado os grandes capitalistas portugueses - grande parte deles refugiados no Brasil, não esqueçamos - procuram recuperar posições perdidas ou fortemente abaladas pelas nacionalizações e outras conquistas populares. Apoiando-se mutuamente, estas forças reaccionárias de ambos os países lançam uma ofensiva de que a visita de Eanes está a ser um dos veículos. Como que a confirmar estas intenções a imprensa brasileira chegou a afirmar, de forma despudora­da, que a visita de Eanes visava "recomeçar o diálogo interrompido com o 25 de Abril". A propaganda oficial que procura dar à visita o ar desinteressado de restabelecimento de laços de amizade, não pode iludir o facto de se tratar, na realidade, da aproximação e do entendimento de representantes do grande capital português com os porta-vozes da ditadura e do grande capital brasileiro. Mais do que isto, não pode iludir a tentativa para fazer regressar a Portugal os tubarões capitalistas que daqui fugiram durante a crise revolucionária.
A reabilitação de Tomás surgiu, pois, como o sinal de que as autoridades portuguesas estavam dispostas a aceitar as exigências feitas pelos capitalistas instalados no Brasil. De resto, é sabido que Eanes recebeu, desses sectores reaccionários, insistentes mensagens a exigir autorização para o regresso de Tomás.
As razões humanitárias com as quais hipocritamente se pretendeu encobrir esta realidade não passam de um pretexto para fazer passar sem protesto esta nova cartada contra as liberdades. Era por humanitarismo que certos capitalistas portugueses no Brasil mantinham Tomás instalado num hotel com uma "pensão" de 100 contos por mês? Não, o velho presidente do fascismo não é apenas um pobre pateta, nem é um mero "símbolo" da ditadura. Ele é, tal como os oficiais da brigada do reumático, uma reserva do fascismo e como tal está a ser usado para atacar as conquistas de Abril.
A reabilitação que o general Eanes pretende fazer de Tomás tem de ser relacionada também com toda a movimentação reaccionária que tem agitado os sectores militares, no claro propósito de colocar as forças armadas sob completo controle de oficiais da confiança do capital e do imperialismo. A ilibação dos implicados no 11 de Março e a reintegração de Spínola, que Eanes quis publicamente sublinhar com um aperto de mão no Colégio Militar; a demissão de Vasco Lourenço; o afastamento de Rosa Coutinho com a aprovação pessoal de Eanes, e a eternização da situação de Otelo agora com novo processo; às pressões da direita no sentido da reintegração dos 700 oficiais fascistas saneados após o 25 de Abril - são estes os antecedentes que permitem compreender o verdadeiro significado da autorização dada agora ao fascista Tomás. E se dúvidas houvesse, bastaria ver a imprensa fascista a exigir a reintegração de Tomás na Armada para dar conta do alcance da manobra.
Mas eis que agora os principais dirigentes burgueses nos querem fazer esquecer tudo isto e abafar os protestos das forças populares e antifascistas. Apenas a UDP teve a coragem de condenar imediata e claramente na Assembleia da República o regresso de Tomás. As reacções dos restantes partidos mostraram quer a hipocrisia das suas declarações antifascistas, a falta de coragem para assumir posições contra as pressões da direita e a sua cumplicidade com Eanes, quer o seu claro alinhamento com as forças do fascismo. Passado o primeiro rompante de indignação, os deputados do PS deixaram-se amordaçar pelos seus dirigentes que lhes haviam ocultado o entendimento já feito com Eanes para o regresso do presidente do fascismo. Os revisionistas, por seu lado, fortemente empenhados em não desagradar ao general, e sempre prontos a opor-se a tudo o que a UDP diga, limitam-se a declarar-se "chocados" com o regresso do sinistro Tomás, mas não estão dispostos a mexer uma palha para impedir a sua entrada em Portugal.
O real sentido da campanha "anti-esquerdista" torna-se ainda mais claro como tentativa para encobrir a sua des­carada política de namoro a Eanes e cedência diante da direita. Quanto ao CDS e ao PPD limitaram-se a confirmar o seu agrado por medidas de recupera­ção de velhos fascistas, num claro des­mentido a todos os que querem apre­sentá-los como partidos respeitadores da democracia e das liberdades.
Só uma atitude é hoje legítima e demonstrativa da decisão antifascista: não aceitar a autorização de Eanes e não consentir no regresso de Tomás. A atitude de meias tintas que consiste em tolerar o regresso do ex-almirante fascista apelando ao seu julgamento em Portugal é, na realidade, uma cedência disfarçada. Os tribunais têm mostrado estar nas mãos de juízes que favorecem as forças de direita.
Como podem os antifascistas, como podem o povo e os trabalhadores portugueses opor-se ao regresso de Tomás?
Os dirigentes social-democratas do PS e os chefes revisionistas já mostraram não estarem dispostos a chamar os trabalhadores a oporem-se à decisão de Eanes. Mas sabemos que a maioria dos trabalhadores e dos antifascistas que militam nesses partidos se indignam e não aceitam passivamente tamanha afronta ao 25 de Abril. Sabemos que são eles a força decisiva para impedir que Tomás volte a pôr o pé em Portugal.
Por isso o nosso Partido e a UDP têm apelado e continuam a apelar a todos os trabalhadores, a todos os anti­fascistas de qualquer filiação partidária para se oporem à decisão do general Eanes e dizerem não ao regresso de Tomás. A aprovação nos locais de trabalho de moções, a enviar à imprensa, repudiando a decisão do presidente da República é uma das formas de protesto que já está a ser seguida e que se deve intensificar. Nos locais de trabalho devem, além disto, ser propostas e levadas a cabo curtas paralisações que manifestem a oposição popular. As organizações sindicais devem tomar posições claras de reprovação e declararem a sua decisão em opor-se ao regresso do velho fascista. Do Secretariado da CGTP deve ser exigido por todos os sindicalistas e trabalhadores não só votos de protesto mas acções concretas.
Mas nesta altura em que os dirigentes dos principais partidos burgueses se mostraram objectivamente cúmplices da decisão de Eanes é preciso ter em conta que estes não só nada farão para estimular e apoiar a mobilização popular como ainda, por força dos seus compromissos como Presidente da República, tentarão entravar e desmobilizar todas as realizações de protesto. É preciso, pois, mais do que nunca, não esperar por tomadas de posição e apoios de onde não podem vir. A iniciativa, contra todas as dificuldades, tem de pertencer às organizações políticas e forças antifascistas que não hesitaram em opor-se desde a primeira hora à reabilitação de Tomás.
Apelamos, pois, aos democratas e antifascistas para que reúnam esforços, levem a cabo esta tarefa patriótica e não se deixem cair na armadilha das meias promessas dos dirigentes burgueses comprometidos com a direita. Criar expectativa e falsas esperanças no povo tem sido a sua técnica para facilitar a consumação das ofensivas reaccionárias contra o 25 de Abril.
Os militantes do nosso Partido e os companheiros da UDP devem prosseguir o trabalho que já iniciaram, reforçar a ligação com outras forças antifascistas, com os trabalhadores de quaisquer filiações partidárias, com os sindicalistas revolucionários. Devem mostrar aos militantes do PS e do partido revisionista que os seus dirigentes estão uma vez mais a enganá-los com desculpas torpes. Devem dizer-lhes que diminuir aos olhos da opinião popular, como pretendem os seus dirigentes, o profundo significado reaccionário de convidar o último presidente do fascismo a regressar, e o perigo que isso representa para as conquistas de Abril, é um acto da mais completa traição que nenhum argumento pode disfarçar.



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