sexta-feira, 18 de maio de 2018

1978-05-18 - O Povo de Guimarães Nº 012

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ENTRE PALAVRAS E OBRAS
- A Obra das Palavras
JOSÉ CRAVEIRO

Superabundam os falantes neste Portugal dos nossos dias; os anti-falantes superabundam também. O caso não é novo. Em épocas de ansiedade como a nossa, entre a inércia dos que se deixam ir ou se deixam estar e a impaciência dos apressados que se querem chegados (já), sem bem saber aonde nem por onde, repetidamente e em vários tons se ouvem objurgatórias contra as palavras que enredam a acção, repetidamente se entoam à acção muda e surda, no concreto aqui, no imediato agora.

Simplesmente, os hinos são ainda palavras, como de palavras são feitas as objurgatórias contra elas arremessadas. Desembaraçar a acção de palanfrório eventualmente enredador é ainda função das palavras, objectivo que só por obra e graça do palavreado se pode alcançar.
Dentre os nossos falantes mais falantes, parece-me a mim que leva a palma da quantidade, da frequência e da audiência o Dr. Mário Soares. E porque sim: é chefe do partido mais votado e chefe do órgão executivo da governação. Também ele, na sua comunicação ao País, produzida ante as câmaras da Televisão no serão de 10 de Maio - a qual me pareceu a mim uma das mais claras, serenas e sinceras charlas de quantas com alguma destas características lhe tenho ouvido - também ele, dizia eu, anatema­tizou a vis palrante como pecha da cultura lusíada, referindo-a concretamente ao caso exemplar dos grandes escritores da geração de 70 - aos Vencidos da Vida - cuja posição global, entendida como demissionária da acção e da luta pela vida, igualmente anatematizou.
Não é novo este entendimento da geração de 70, genericamente encaixilhada em considerações pessimistas. António Sérgio, por Antes de guindar e dispor, umas sobre as outras, as pedras da casa que se deseja, há que dar-lhe forma em função da casa que se projectou; e há que espatifar a pedreira que potencialmente as contém informes, à mercê do engenho e do esforço de quem na obra se empenhou.
Antes que a Revolução Francesa pudesse pôr em acto as finalidades ideológicas apontadas por Montesquieu (e fê-lo no período monárquico-constitucional) e, depois, as que foram defini­das por Rousseau (e fê-lo no período republicano da Convenção), foi necessário varrer do templo da cultura a feira das certezas costumeiras da monarquia absoluta, aristocrático-clerical; foi necessário espatifar, a golpes de sarcasmos, a pedreira das petrificadas inércias sociais, económicas, políticas e morais. Neste pelouro distinguiu-se Voltaire, cuja percuciente inteligência crítica penetrou fundo pelos juntoiros das contradições e as expôs à luz com o ferro de demonte do seu magnífico Verbo - do seu palanfrório - em verso ou prosa filosófica e, principalmente, em ácidos sarcasmos de ficção crítica, como no «Cândido ou o Optimismo» ou na «Princesa de Babilónia».
Em Portugal, é crível que a República de 1910 não tivesse sido possível sem os materiais cortados a um sorriso fino pelas ironias de Eça ou a golpes de martelão dos sarcasmos de Guerra Junqueiro. E os materiais com que agora estamos fazendo a acção possível vêm dessa Primeira República e do que se pôde produzir ao longo da longa ditadura. É aí que acharemos o valer da obra valente de António Sérgio - obra de palavras orientadas para a acção, mas de palavras, tão só. Importantíssimo foi o seu magistério, porque o seu palanfrório vinha da acção feita e criticada, para reverter à acção pensada, consequente e coerentes.
A nível individual e em situações concretas pontuais, bem pode a acção decorrer do pensamento pela vontade que decide e realiza, no silêncio mais absoluto, em total secretismo.
-  O segredo é a alma do negócio! - dizem.
Não assim nas tarefas conjugadas de âmbito colectivo. A este nível, segredo é paralisia, silêncio é inacção.
Não é boa nem sequer suficiente a definição que nos dá o homem como um ser racional. O bicho que se fez homem careceu e carece, para se fazer tal, além da mão que executa, da língua que comunica as experiências havidas e acumuladas, bem como os projectos e experiências em vias de execução. Sem a comunicação, de que a língua é o instrumento fundamental, nenhum progresso seria possível. Cada homem dentro da sua pele seria repetição, não mais, dos homens que, geração por geração, o precederam.
Não é, pois, das palavras o pecado que enreda a acção. É na acção, digo nas acções, ao nível dos seus contraditórios motivos e móbeis, que o pecado enraíza e ganha corpo. Quem «por isto» quer o que não quer «por aquilo» e se não coíbe de justificar o seu querer e de fundamentar o seu não querer, enrascado está à partida, sem discurso coerente que lhes preste. Quem, dizendo o que diz, não está em condições de o provar, não sabe o que diz; assim, não fala - vocifera.
-  É pelas palavras que a gente se entende - diz o Povo.
Talleyrand disse o contrário. Mas esta inteligentíssima criatura, diplomata pronto a servir quantos regimes e quantas diplomacias lhe rendessem rojões, era um oportunista, um pulha e um trafulha.
Pelas palavras é que a gente se entende, se quiser entender-se. Antes da acção, a palavra do projecto e a palavra da comunhão.




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