quinta-feira, 10 de maio de 2018

1978-05-10 - Bandeira Vermelha Nº 121 - PCP(R)


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EDITORIAL
NÃO PODE INVOCAR LENINE QUEM O TRAIU

O dirigente revisionista português Álvaro Cunhal prestou, no sábado passado, em comício realizado em Lisboa, um hipócrita juramento de fidelidade ao marxismo-leninismo. Porque surge e que significado tem, na boca de Cunhal, tal profissão de fé?
As afirmações de Cunhal, a presença em Portugal de uma delegação do partido revisionista russo e a sua participação no referido comício, pretendem ser uma resposta à renúncia oficial dos revi­sionistas espanhóis ao leninismo. O pano de fundo de toda esta movimentação, deste súbito despertar de Cunhal e dos revisionistas russos para os problemas do leninismo é, na realidade, a confusão gerada nas fileiras dos partidos revisionistas pelo avançado descaramento de Carrillo e seus apaniguados do partido revisionista espanhol.

A "visita" dos dirigentes russos tem, assim, um significado bastante claro: obter a garantia, da parte dos revisionis­tas portugueses, da fidelidade às suas teses, à sua estratégia mundial; isto é, a garantia de que o partido de Álvaro Cunhal não sairá da sua órbita.
A passagem de vários partidos revi­sionistas da Europa ocidental para o lado da burguesia dos respectivos países e a oposição crescente que mostram face às exigências dos dirigentes russos, causa ao social-imperialismo compreensíveis preocupações. O seu esforço para manter unido aquilo que insistem em chamar "movimento comunista internacional" - na realidade a corrente revisionista mundial - não tem conseguido grandes êxitos dada a tendência constante para a desagregação manifestada por tais partidos, sempre solicitados a prestarem os serviços mais desprezíveis à burguesia dos países capitalistas em que actuam.
É neste quadro de divisão ideológica no seio do próprio revisionismo e de desagregação da sua unidade política a nível mundial que a vinda a Portugal dos dirigentes russos e o comício realizado pelos revisionistas portugueses devem ser entendidos. Uma e outro são uma tentativa para mostrar unidade onde a divisão campeia, procurando afirmar comunhão de ideias em torno de princípios que todos, sem excepção, desde há muito renegaram. O leninismo não é património, desde há mais de 20 anos, nem do PCUS, nem do PCP, nem do PCE, nem de qualquer outro partido revisionista. O facto de só alguns, como Carrillo, terem a desfaçatez de o vir gritar a público é, neste caso, uma questão secundária que apenas ganha relevo em função da confusão que espalha entre as massas iludidas pelos revisionistas e pela actual URSS, factos a que Cunhal e os dirigentes russos não podem ficar alheios.
A verdadeira "declaração de princípios" que Cunhal fez no seu comício tem dois objectivos principais: não deixar que se levantem dúvidas entre as massas dos seus aderentes sobre o que é hoje a União Soviética - nesse sentido jurou fidelidade à “pátria do socialismo" encobrindo evidentemente a oposição radical entre a URSS de hoje e aquilo que foi a URSS de Lénine e Stáline; e fazer crer, pela demarcação implícita em relação a Carrillo que a sua política de apoio à burguesia capitalista não será seguida em Portugal - omitindo, claro está, que não só o carrillismo, mas todo o revisionismo, trai os interesses de classe do proletariado.
Cunhal, especialista em forjar atitudes aparentemente de esquerda para encobrir a natureza direitista e oportunista da sua política, actuou mais uma vez no sentido de fazer engolir aos seus adeptos uma aparência que não tem a de revolucionário.
Os exemplos históricos não faltam para mostrar como Cunhal, criticando a ultradireita, fez passar de contrabando as suas posições de direita, revisionistas. Foi deste modo que a partir de 1960 Cunhal iniciou, a coberto da crítica ao desvio de direita verificado no PCP de 1956 a 1959, a sua transformação efectiva em partido revisionista. Em nome da classe operária, do marxismo-leninis­mo, da revolução, o velho PCP foi neste período reorganizado pelos dirigentes revisionistas formados na nova escola de Kruchov.
Hoje, a "demarcação" que Cunhal pretende estabelecer face a Carrillo serve-lhe de novo para fazer-se passar, junto dos seus aderentes, como revolucionário que não é; para fazer passar por "marxista-leninista" a sua política revisionista.
"Importante análise ideológica" - assim se referia "o diário" ao discurso de Cunhal. Mas onde estão as provas de fidelidade ideológica e política ao leninismo de parte de Cunhal? Lembremos apenas os seguintes factos:
O partido revisionista português, mesmo antes do francês, renunciou pública e formalmente à ditadura do proletariado como objectivo da sua luta política. Que diria Lénine desta "fidelidade" se ele próprio afirmou, contra os revisionistas da sua época, que só é marxista quem estende a concepção da luta de classes até à ditadura do proletariado?
O partido revisionista português alinhou com Kruchov a partir de 1956 nas teses que defendiam, em vez da concepção leninista e stalinista de partido do proletariado e de Estado de ditadura do proletariado, as concepções revisionistas de partido de todo o povo e Estado de todo o povo, hoje consignadas na nova Constituição russa.
Como concilia Cunhal esta fidelida­de ao revisionista Kruchov com a "fide­lidade" a Lénine?
O partido revisionista português defende, tal como o fez Kruchov, a passagem pacífica do capitalismo ao socialismo. Como justifica Cunhal a sua fidelidade a Lénine neste capítulo, sabendo nós que o grande dirigente da revolução soviética definiu a nossa época como a época das revoluções proletárias e sempre insistiu na necessidade de educar as massas para a revolução violenta?
Não valia a pena, perante isto. Cunhal ter-se mais uma vez defendido no seu discurso da acusação que a burguesia lhe faz de querer copiar a revolução russa. Bastaria desfazer o equívoco em que incorre a burguesia esclarecendo que, da Rússia, apenas copia aquilo que se passou depois de Kruchov. Copiar a revolução russa de 1917, copiar Lénine, está longe das intenções de Cunhal.
Todavia, a sua missão de revisionista, impõe-lhe que esta realidade não seja perceptível para os revolucionários que crêem nos ensinamentos universais da revolução russa e em Lénine impõe-lhe esconder a profunda oposição entre as suas acções e aquilo que fez Lénine, para manter iludidas as massas populares que acreditam no socialismo.
Nenhum Cunhal, nenhum dirigente actual do partido revisionista russo, tem autoridade para invocar o nome de Lénine.




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