quinta-feira, 3 de maio de 2018

1978-05-03 - Voz do Povo Nº 195 - UDP


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Editorial
Momento de definição

Em ondas sucessivas, os trabalhadores encheram as ruas até ao estádio 1º de Maio. Simultaneamente, de Norte a Sul do país, enormes desfiles martelaram as calçadas. Ergueram-se vozes de luta e de esperança. Um clamor de protesto e determinação perdeu-se nos céus.
Foi o 1º de Maio, o quinto que comemoramos em liberdade.
É, sem dúvida, reconfortante, assistir e participar nesse espectáculo contagiante que são os desfiles populares do Portu­gal de Abril. E, sem dúvida, positivo que as forças democráticas e, em particular, a imprensa democrática conjugue (pelo menos) nesta data as suas forças para apoiar o 1º de Maio.
Mas isso não basta. Não basta que nos reconfortemos anualmente perante as grandes manifestações de massas. Para as forças democráticas e, em particular, para a imprensa democrática o 1° de Maio deve tornar-se motivo de reflexão, deve constituir momento de definição.
* * *
E o que urge definir é, afinal, se a realidade portuguesa, se o rumo da vida do país estará ou não em consonância com a vontade popular tantas vezes expressa (e agora de novo) nas ruas e nas massivas votações eleitorais contra a direita reaccionária.
O que urge definir é a legitimidade de um governo que volta costas aos trabalhadores, que governa contra a maioria, que insiste em empobrecer os pobres e enriquecer os ricos, que persiste em hipotecar a dignidade nacional. Que autoridade tem esse governo? Que razão lhe assiste para impor a sua vontade se ela está em contradição com a da maioria?
O que urge definir é ainda a integridade de um poder judicial que se pretende independente (e intocável), mas que condena escandalosamente inocentes como Andrade da Silva, ao mesmo tempo que liberta reconhecidos bandoleiros separatistas implicados na agressão a Almeida Santos. Que independência é a desses tribunais, de que espécie de infantilidade terão sido investidos? Que autoridade possuem, no novo Portugal de Abril?
O que urge também definir é a legalidade de umas Forças Armadas donde foram banidas as liberdades democráticas, onde foi instaurado um regime de excepção em que os preceitos constitucionais são letra morta. Que papel irão desempenhar essas Forças Armadas quando for caso de defender o 25 de Abril? Que legitimidade possuem os actuais comandos militares que preencheram os lugares donde arredaram os capitães de Abril?
O que urge definir, finalmente, é o lugar de um Presidente da República, mandatado a cumprir a Constituição, que critica publicamente essa Constituição e também publicamente contradiz um comunicado do Conselho da Revolução (a que ele próprio preside). Que papel pretende desempenhar o General Eanes no Portugal de Abril, quando usa a sua autoridade de Chefe de Estado, não para condenar a intolerável arrogância conspiradora da direita reaccionária, mas para a minimizar e, quase, a justificar?
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Afinal, o que urge definir é se as forças democráticas e a imprensa democrática se limitarão a aplaudir anualmente as grandes manifestações do 1º de Maio e a acreditar, piamente, que as coisas vão indo pelo rumo traçado na Constituição, ou se - pelo contrário - as forças democráticas vão aproveitar o impulso do 1° de Maio de 78 para erguerem em uníssono a voz da verdade e exigirem justiça.
Afinal, o que está em causa é prolongar o 1º de Maio a todos os dias. É definir uma conduta de coerência e dignidade democráticas. É não temer chamar as coisas pelos seus nomes, é ter coragem de afirmar que o Portugal que eles querem construir não é o Portugal de Abril, não é o Portugal do 1º de Maio, não é o Portu­gal da Constituição.
Voz do Povo, que agora retoma o seu posto ao lado da restante imprensa democrática, não hesita na definição a adoptar. Com os trabalhadores, com a democracia, com o 25 de Abril, Voz do Povo reinicia o combate da imprensa livre para que o grito dos manifestantes se torne uma certeza, para que possamos dizer com segurança que ninguém nos há-de tirar o que soubemos conquistar.


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