quinta-feira, 3 de maio de 2018

1978-05-03 - Bandeira Vermelha Nº 120 - PCP(R)


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EDITORIAL
ESTÁ ABERTO UM CAMINHO

Em quase todo o mundo capitalista o 1 de Maio foi dia de protesto. Das mais diversas maneiras os trabalhadores manifestam-se contra um sistema social que agrava diariamente as condições de vida, que restringe as liberdades ou mesmo as suprimiu de todo. No próprio Chile, dezenas de prisões atestam a resistência do mundo do trabalho assalariado contra a opressão e a exploração capitalista.
Em Portugal, foi sem dúvida na defesa das conquistas populares de Abril e das condições de vida que se centraram os protestos e as palavras de ordem gritadas, os dísticos e bandeirolas empunhadas por muitas centenas de milhar de manifestantes. Festas, competições desportivas e manifestações sublinharam em todo o país o repúdio popular pelos ataques que a reacção desencadeia contra as liberdades e a democracia, e pela política antipopular do governo de direita.

Conseguiram as comemorações deste 1 de Maio, além de expressar o descontentamento popular, marcar pontos na resistência necessária à política de direita e às ameaças fascistas? Nas mais diversas povoações do país, fez-se sentir o peso dos trabalhadores e da sua festa.
Em Lisboa, no Porto e em muitas outras terras as manifestações deste ano foram das maiores a que se tem assistido.
Muitas das palavras de ordem e das bandeirolas referiam-se à subida do custo de vida, à ingerência do FMI, à necessidade de defesa da Reforma Agrária, etc. As forças burguesas que procuram dividir o movimento sindical não conseguiram marcar presença significativa face às manifestações convocadas pela CGTP. Tudo isto mostrou a capacidade que o movimento operário e popular tem de fazer frente e resistir às ofensivas do governo e da reacção. Mas devemos deixar bem vincado que é necessário levar mais longe esta resistência.
Não podem ficar apagados os problemas mais gritantes que hoje se colocam ao país e aos trabalhadores. E apesar de a generalidade das palavras de ordem girarem à volta desses problemas nem sempre estes foram apontados com a crueza e a gravidade que têm. Sobretudo os caminhos de luta que se abrem às massas trabalhadoras não podem ficar obscurecidos.
Era preciso deixar claro, para que todos os trabalhadores tomarem conhecimento, que a lei Barreto continuará a ser aplicada, apesar da mudança de ministro, se não for constantemente denunciada como lei antipopular. Se os assalariados rurais não forem efectivamente mobilizados para resistir à sua aplicação. Se não for dito que os acordos com o governo para moderar a lei, como pretendem os dirigentes revisio­nistas, não são a forma de impedir a destruição da Reforma Agrária.
Era preciso evidenciar não só que o povo "não consente que o custo de vida aumente", mas principalmente que deve adoptar formas de luta concretas para contrariar a alta dos preços. Que se deve organizar para combater os especuladores, para exigir quando possível que os novos preços não sejam aplicados. Que deve lutar por aumentos salariais que ultrapassem os 20 por cento de miséria e compensem realmente a subida dos preços.
Era preciso mostrar que a ingerência do FMI na vida política portuguesa é de extrema gravidade e que este facto está ligado à miséria crescente do povo. Que a defesa da independência nacional assume nestas circunstâncias formas bem concretas, nomeadamente a recusa das negociações levadas a cabo pelo governo com o FMI, traduzidas, cada semana que passa, em novos atentados aos direitos dos trabalhadores.
Era preciso, enfim, redobrar a combatividade dos trabalhadores e do povo com base em todos estes factos revoltantes e apontar que é preciso preparar formas de resistência mais amplas e simultaneamente mais profundas. Era preciso que a jornada de luta nacional, que os sindicalistas já aprovaram em plenário nacional, que sindicatos e muitas centenas de delegados sindicais têm exigido, que milhares de trabalhadores anseiam ver realizada, fosse apontada como via de oposição à política do governo e às ameaças fascistas.
Muitos trabalhadores e sindicalistas revolucionários lutaram para que estas orientações vingassem - nas assembleias de preparação do 1 de Maio, nas empresas, na própria manifestação. Na maioria dos casos elas ainda não vingaram por oposição dos dirigentes sindicais reformistas entregues à política praticada pelos revisionistas. Mas também ficou patente, nos grandes dísticos que propunham uma jornada de luta nacional, a presença duma corrente sindical com perspectivas revolucionárias disposta a lutar para as fazer prevalecer. De nada serve acusar estes trabalhadores e estes sindicalistas de "aventureiros" e "esquerdistas", como fazem os dirigentes sindicais reformistas. Os trabalhadores e sindicalistas revolucionários traduzem as ideias mais avançadas de luta contra a recuperação capitalista e têm a seu favor o crescente agravamento das condições de vida do povo, os crescentes ataques às liberdades.
É preciso, porém, muito mais trabalho na preparação e na participação nas acções de massas. A integração dos sindicalistas revolucionários nas representações das suas empresas em desfiles como aquele a que assistimos mostrou ser uma decisão acertada. Mas é um caminho que exige um trabalho de muito maior profundidade: na divulgação das posições que opõem os sindicalistas revolucionários aos dirigentes reformistas; na participação nas actividades sindicais; na acção nas empresas e nos plenários, todos os dias; nas iniciativas a desenvolver para preparar a intervenção nas grandes acções de massas como foi esta do 1 de Maio.
Está aberto um caminho, árduo sem dúvida, que é preciso percorrer.



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