terça-feira, 15 de maio de 2018

1973-05-15 - DOS ESTUDANTES DE LISBOA À POPULAÇÃO - Movimento Estudantil


DOS ESTUDANTES DE LISBOA À POPULAÇÃO

1. MAIS UMA VEZ O GOVERNO MOSTROU A SUA VERDADEIRA FACE: ao mesmo tempo que, em Tomar, Marcelo Caetano troça do povo português, ao afirmar que "vivemos numa verdadeira democracia", por todo o país a Pide prende e tortura centenas de trabalhadores e estudantes; no 1º de Maio a polícia de choque espanca brutalmente os milhares de trabalhadores que em Lisboa e no Porto se manifestavam contra a exploração e opressão; no dia 3 de Maio em Lisboa a polícia dispara a matar sobre 3000 estudantes, ferindo muitos, entre os quais cinco atingidos por balas. Um destes estudantes encontra-se à beira da morte.

Estavam acaso os estudantes a praticar algum crime quando a policia disparou? Não. Manifestavam a sua vontade de expulsar das Faculdades os "vigilantes" cá metidos pelo governo. Estes vigilantes escolhidos entre os que, no exército, mais se destacaram no assassinato das populações das colónias, têm como único trabalho policiar e agredir os estudantes, impedir as suas reuniões.
Já não é a primeira vez que o governo manda assassinar estudantes. Em Outubro passado, um agente da Pide assassinou a tiro o estudante José António Ribeiro Santos. A este crime, respondemos informando a população das razões da nossa luta e da nossa oposição à política do governo, distribuindo comunicados e manifestando-nos na rua. Também desta vez queremos informar o povo português das razões da nossa luta.
2. O GOVERNO MENTE DESCARADAMENTE: todos os dias, com discursos, notícias no jornal e televisão, pretende fazer acreditar que os estudantes não querem estudar e aprender para desenvolver o país e assim beneficiar todo o povo português. Nós sabemos que esta ideia está muito espalhada, mas é falsa.
Nós gostaríamos de ser bons engenheiros para desenvolver a indústria e assim acabar com a miséria e aumentar o nível de vida dos trabalhadores. Mas como é isto possível, se nesta ordem social o desenvolvimento da indústria só beneficia os patrões e os banqueiros, que cada vez enchem mais a bolsa e a barriga, só tendo para oferecer aos trabalhadores salários de fome, o aumento das cadências e do número de acidentes, os despedimentos que os lançam em massa na miséria?
Nós gostaríamos de ser bons médicos, para acabar com as doenças que todos os anos vitimam milhares de trabalhadores da cidade e do campo. Mas como é isto possível, se nesta ordem social os bons médicos, as casas de saúde e os remédios, estão apenas destinados aos ricos, enquanto que nos campos quase não há médicos, a mortalidade infantil é elevadíssima, e na cidade os trabalhadores são miseravelmente assistidos pelas Caixas de Previdência, que, com o dinheiro roubado dos ordenados, tiveram em 1972 três milhões de contos de lucros (mais do que qualquer banco)?
Nós gostaríamos de ser bons arquitectos, que contribuíssem para dar uma habitação decente a todos os portugueses. Mas como é isso possível, se nesta ordem social aos ricos estão destinados apartamentos de luxo, hotéis e piscinas, enquanto que os trabalhadores são obrigados a viver em barracas ou habitações miseráveis pelas quais pagam rendas que quase não lhes deixam dinheiro para comerem? Como é isto possível, se em Portugal a resolução deste problema está entregue às esmolas dadas hipocritamente pelos patrões e damas de sociedade?
Nós gostaríamos de ser bons advogados. Mas para quê, se as leis são feitas e aplicadas para defender os patrões, se a justiça é só para quem a pode pagar? Para quê, se a única justiça que os trabalhadores conhecem é a prisão e a tortura pela PIDE, as ameaças e espancamentos pela GNR?
Nós gostávamos de ser professores. Nós vemos que o que se ensina, apesar de todas as reformas, nada contribui para a resolução dos problemas dos trabalhadores, e apenas vem dar-lhes conhecimentos suficientes para com o seu trabalho aumentarem os lucros dos patrões.
E isto que o governo esconde. Ao mentir sobre as nossas lutas o governo pretende esconder à população que se cada vez mais estudantes se opõem à sua política, é porque compreendem que ela defende uma ordem social corrupta, em que os donos das fábricas, dos bancos, das terras e todos aqueles que vivem à custa do suor dos trabalhadores se tornarão cada vez mais ricos, e em que aos trabalhadores, produtores de toda a riqueza, nada mais está destinado do que o agravamento da miséria. O governo pretende calar e esconder o protesto dos estudantes contra a guerra colonial e contra a exploração e opressão mantida a ferro e fogo sobre os povos africanos, em benefício dos mesmos senhores que exploram os trabalhadores em Portugal.
3. O GOVERNO TROÇA DO POVO: ao publicar uma nota em que afirma que são os estudantes que conduzem toda a agitação política, quererá o governo afirmar que a população não tem suficientes razões para se revoltar e aceita passivamente a exploração?
A quem pretende o governo enganar. Aos operários que, como na SOREFAME, GIALCO, COMETNA, COVINA, MAGUE, FIRESTONE e têxteis da COVILHÃ, desencadeiam lutas contra a exploração. Aos pescadores que, em MATOSINHOS, FIGUEIRA DA FOZ e PORTIMÃO, estiveram em greve contra os salários de fome? Aos camponeses de ALPIARÇA, aos empregados da CARRIS, e a tantos outros trabalhadores que em Portugal protestam contra o agravamento das suas condições de vida? As centenas de operários que no dia 30 de Abril se manifestaram na Venda Nova e em Moscavide? Aos milhares de populares que no 1º de Maio se reuniram no Rossio para se manifestarem contra a exploração e opressão, contra a política do governo?
A nós, estudantes, não engana o governo. Nós sabemos que o povo não se deixa explorar passivamente, e estamos dispostos a colocar a nossa luta ao serviço da luta do povo português pela sua emancipação, numa sociedade controlada e dirigida pelos trabalhadores.

Os estudantes do Técnico



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