sexta-feira, 4 de maio de 2018

1973-05-04 - aos estudantes de Lisboa - Movimento Estudantil


aos estudantes de Lisboa

Os estudantes do ISE reunidos em Assembleia Geral Extraordinária e atendendo à gravidade da actual situação escolar, depois da vaga de prisões dos últimos dias e das agressões perpetradas pelas forças policiais e vigilantes:
1 - Denunciam o carácter provocatório da nota da DGS de 1 de Maio que acusa os estudantes, e inclusive as AAEE, de estarem na origem das manifestações políticas dos últimos tempos; o governo procura assim, com tal manobra, encobrir, aos olhos dos estudantes, das camadas populares e da população em geral, a profunda crise política e social em que se encontra mergulhada a sociedade portuguesa, de que aquelas manifestações (propaganda por via de petardos, manifestações de rua, etc.) são reflexo significativo.
Ao acusar os estudantes em geral e as suas estruturas legais de estarem na origem de formas de luta e de propaganda como as que têm tido lugar nos últimos tempos, o governo, através da DGS, demonstra a sua incapacidade para conter o descontentamento de vastas camadas populares, que é directa consequência da sua política de conteúdo anti-democrático e anti-popular.
Consideram, pois, tal nota provocatória e ridícula e denunciam o seu verdadeiro carácter político de intimidação sem outro objectivo senão o de preparar uma vaga repressiva sem precedentes sobre os estudantes, as suas lutas e organizações democráticas.
2 - Denunciam o carácter criminoso e arbitrário da intervenção repressiva quer no que respeita às prisões de número incontável de estudantes e trabalhadores quer no que respeita às intervenções policiais sobre ajuntamentos e manifestações nas ruas ou nos locais de estudo.
Seria ingenuidade pensar que o governo acredita na acusação que formula e propagandeia em relação aos estudantes e às Associações de Estudantes. Nunca o movimento dos estudantes sonegou a quem quer que viva ou conheça o movimento estudantil as orientações fundamentais do seu trabalho - nunca o movimento estudantil teve necessidade de esconder que a sua luta, em particular desde 1969, tem sido informada por conteúdos progressistas e orientada no sentido da conquista de objectivos progressistas; pelo contrário, sempre o carácter político do movimento tem sido reivindicado por largas camadas estudantis que têm mais ou menos correctamente assumido radicalmente esse carácter (distribuição de comunicados à população, manifestações de rua). O governo ao acusar estudantes e Associações de servirem de base a actividades que intitula de "terroristas" procura de facto atingir de morte aquelas conquistas que permitiram fazer do movimento dos estudantes um baluarte das posições críticas progressistas face à realidade portuguesa. O governo procura assim cer­cear e aniquilar politicamente um dos poucos centros onde, no nosso país, a luta de ideias, a discussão democrática e a elaboração teórica acerca das questões sociais fundamentais se tem realizado; o governo procura impedir pela força o que não cabe no projecto de dominação do bloco de classes de que é o garante político.
Denunciamos esta sua política de cerco e aniquilamento face ao movimento dos estudantes que não tem outro objectivo senão o de garantir a passividade e docilidade do corpo estudantil face às questões fundamentais que se lhe deparam no fluir das contradições da sociedade onde vivem, das escolas onde desenvolvem a sua actividade.
OS ESTUDANTES DO INSTITUTO SUPERIOR DE ECONOMIA REUNIDOS EM ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DECLARAM:
1 - A sua repulsa pela nota da DGS e denunciam-na como provocatória e mentirosa;
2 - A sua solidariedade activa com todos os estudantes e trabalhadores presos independentemente das acusações que sobre eles a DGS vier a formalizar;
3 - A sua resolução firme e decidida de preservar na prática as conquistas fundamentais do movimento dos estudantes dos últimos anos: liberdade de reunião, informação e discussão política e para tal ocuparem os espaços escolares necessários.

Os Estudantes de Económicas
4 de Maio de 1973


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