quarta-feira, 2 de maio de 2018

1973-05-02 - C.P.R. A.A.C. Comunicado nº 2 - Movimento Estudantil


C.P.R. A.A.C. 
Comunicado nº 2

INFORMAÇÃO
AINDA SOBRE O FESTIVAL DA DEMAGOGIA

No quadro geral de uma política do asfixiamento das AAEE, e da consequente substituição das suas actividades autónomas por realizações do carácter anti-estudantil, situa-se pela maneira fiel como serve essa política o chamado “I Festival Internacional do Coros Universitários".
Ao Orfeon Académico de Coimbra, organismo sobejamente conhecido pela maioria dos estudantes pelas posições anti-estudantis que tem assumido, coube a tarefa de organizar o dito "Festival". E não há duvida que os fascistas do Orfeon, devidamente aconselhados por aqueles a quem interessam realizações desta natureza, procuraram cumprir o melhor possível essa tarefa. Mas nem tudo foram rosas para os cantores de Coimbra. A prová-lo estão não só os inúmeros convites recusados por grupos corais portugueses e estrangeira mas também uma certa desafinação vocal provocada pelo receio de uma ineficaz protecção policial. Efectivamente apesar de em plenas férias, os nossos cantores não dispensaram o auxílio dos seus naturais aliados, aqueles que prendem, espancam torturam e assassinam estudantes.

Realizou-se o dito "Festival" em Coimbra de 10 a 14 de Abril. Não só porque temeram uma oposição firme dos estudantes à realização de tal fantochada mas também para melhor seleccionarem o seu público, decorreram os espectáculos em plenas férias, altura portanto em que a maioria dos estudantes não se encontrava em Coimbra. Apesar disso não foi dispensada a protecção policial, quer no Gil Vicente que foi totalmente cercado pela polícia, quer na cantina onde o grupo de racistas e fascistas comeram.
A propósito cabo aqui salientar que a cantina sempre tem sido fechada em férias em detrimento de muitas centenas de estudantes que aqui as passam.
Não obstante os espectáculos serem "organizados por forma a que todas as pessoas possam assistir aos mesmos" e o referido organismo que se intitula estudantil pretender uma "divulgação cultural descentralizada", verificou-se que o balcão e metade da plateia não estavam à venda e que os referidos espectáculos acabaram por ser oferecidos a Comandantes da Polícia, a Comandantes de Regiões Militares, Presidentes do Câmara, etc., além do MEN o do Presidente do Conselho.
Mais uma vez ficou demonstrado que as pretensas “realizações do convívio" e "jornadas de boa vontade" promovidas pelo Orfeon e afins, são afinal convívio de elites e jornadas policiais.
Nem o anunciado "momento de paz e trégua" entre os estudantes universitários" conseguiu romper com o total isolamento a que o Orfeon já há muito foi votado pela esmagadora maioria dos estudantes. Como se tal organismo e seus apaniguados não estivessem já totalmente desmascarados, o "Festival" só veio novamente apresentá-lo como órgão recreativo de uma grande burguesia à qual vão faltando cada vez mais uns momentos de folgada recreação.
Mas se a realização do referido "Festival" redundou por um lado num verdadeiro fracasso para organizadores e patrocinadores e portanto mais uma afirmação categórica da autêntica vontade dos estudantes, não se poderá negar por outro lado que os orfeonistas conseguiram levar acabo uma provocação que pelo que contem de ignomínia e ultraje à Academia não será esquecida: trata-se dos Coros da África do Sul e Rodésia. Com efeito o Orfeon sabia que em tempo de aulas os estudantes não permitiriam que esses racistas utilizassem e passeassem ostensivamente pelas nossas instalações académicas. Por isso numa atitude tão cobarde como abjecta esperaram que os estudantes saíssem de Coimbra para assim poderem pavonear à vontade. Mas os estudantes não esquecerão quem são os verdadeiros responsáveis.  

COIMBRA
— Para o dia 5 de Abril à tarde é convocada pelos Núcleos Sindicais de Coimbra, no átrio da Faculdade de Letras um meeting com a finalidade de discutir e tomar posição em relação ao "Festival do Coros”. A polícia interveio prendendo vários estudantes que na sua maioria acabavam de sair das aulas, enquanto vários estudantes se dirigiam em manifestação  para a baixa onde apedrejaram um estabelecimento bancário. Os estudantes presos, permaneceram na esquadra da P.S.P. até cerca das 3 horas da manhã sem que lhes tivesse sido dado qualquer alimento e donde vieram a sair com a aplicação de multas que vão desde 1.500$00 até 6.000$00,
No mesmo dia à noite após a realização na Sé Velha de um espectáculo da C.E.L.U.C. a polícia mais uma vez interveio e dispersou os estudantes que lá se encontravam (cerca de 5 centenas), os quais se dirigiam para a baixa aos gritos de: "ASSASSINOS", “FORA A PIDE" e "ABAIXO A GUERRA COLONIAL”.
— A política selectiva e repressiva das autoridades académicas e governamentais, uma vez se manifestou, desta vez na Faculdade de Direito onde foi expulso o professor de aulas práticas de Teoria Geral, da 1ª turma, Dr. Jorge Leite, devido a informações desfavoráveis da PIDE-DGS.
Tal acto causou viva repulsa nas turmas de que o referido assistente era professor não só por lhe ser reconhecido elevado grau de competência, como também por ficarem essas turmas sem professor a um mês do fim das aulas; e caso venha a ser nomeado outro professor já será o terceiro que essas turmas terão este ano.
Mais uma vez cabe perguntar se os critérios utilizados para a escolha e nomeação de professores, atendem ao seu valer científico ou às suas convicções ideológicas? Ao serviço de quem está a nossa Universidade?

LISBOA
Cerca de uma semana antes das férias e na sequência de uma confrontação entre "vigilantes" e estudantes que se reuniram na Faculdade de Direito, para discutir o problema da eliminação da época de Outubro, as forças repressivas invadiram a Faculdade, espancando e prendendo vários estudantes. Durante os dias que se seguiram, registaram-se várias manifestações em que predominantemente se gritava "ABAIXO A GUERRA COLONIAL" e apedrejaram estabelecimentos bancários.

PORTO
Na sequência de decisões tomadas em R.I.A. no dia 29/3/73, acerca do Festival fascista do Orfeon, realizou-se no dia 4/4/73 no átrio da Faculdade do Ciências um meeting com a presença de cerca de 700 estudantes.
Apesar de todo o aparato policial que se começou a notar a partir das 14h30m revelador das intenções das autoridades e da carga policial que se seguiu dentro da Faculdade que teve como consequência a prisão de cerca de 300 estudantes, alguns deles feridos, foi aprovado nesse meeting a saída de um comunicado à população desmistificando o "festival” fascista e uma concentração na Igreja de S. Francisco, local do dito festival.
É de salientar a repulsa manifestada por parte de 2.000 pessoas que se aglomeraram à porta da Faculdade de Ciências aquando das prisões, gritando do "FORA A PIDE" e “ASSASSINOS".
No dia 5/4/73 de manha realizaram-se reuniões informativas em todas as escolas tendo sido encerrada a Faculdade de Letras. Ainda na tarde do mesmo dia realizou-se a concentração na Igreja de S. Francisco. Os estudantes presentes impossibilitados de se dirigirem ao local da "cantoria" ficaram sem saber se de facto aquilo ora um festival de Coros ou de polícia.
No dia 15/3/73 foi preso por um agente da Polícia judiciária um membro da Direcção da Associação de Ciências, Chico, depois de uma distribuição de comunicados no Liceu António Nobre, tendo sido no fim da tarde desse dia transferido para a PIDE-DGS. Nesse mesmo Liceu houve a expulsão de uma aluna e a suspensão de mais três estudantes.
Na semana passada, foram instaurados a alunos das diversas faculdades 19 processos disciplinares, 16 dos quais com suspensão preventiva por 90 dias.
Desde meetings, sessões informativas, nas escolas e na cantina, Reuniões Gerais de Alunos, pelas formas mais adequadas às situações, têm os estudantes do Porto sabido responder à repressão.
Em Medicina para impedir a realização primeiro de uma sessão informativa e posteriormente de uma Reunião Geral de Alunos, a polícia cerca a Faculdade com 8 carrinhas, há alguns dias, obrigando os estudantes a dispersarem e impedindo a realização.

INFORMAÇÃO SECCÕES DESPORTIVAS DA A.A.C.
As secções Desportivas foram convocadas, na última semana de aulas do 2º período, telefonicamente, para uma audiência com o Senhor Vice-Reitor, não sendo indicado o assunto a abordar. As Secções presentes na dita reunião, designadamente Andebol, Basquetebol, Esgrima, Hipismo, Judo, Natação, Patinagem, Ténis, Voleibol e Xadrez, foi-lhes comunicado que:
- A audiência seria mero aviso informativo e informal;
- Não era reconhecida a existência do Conselho Desportivo;
- As Secções Desportivas andam a extravasar o seu campo, o desportivo (referenda ao comunicado sobre os Coros?);
- As instalações académicas estão dependentes do Conselho Nacional de Segurança. As Secções têm acesso ao edifício excepcionalmente, podendo esse acesso ser cortado se essa entidade o achar justo;
- Não se devam admirar as Secções se porventura houver alguma consequência.
Foi realçada a espontaneidade da informação, não se considerando o Senhor Vice-Reitor mandatário de ninguém, embora, achasse ser seu dever pôr as Secções ao corrente.

NOTA:
Quando no último comunicado se dizia "Até à "pesca submarina" de aderentes e simpatias de estudantes menos esclarecidos”, não se pretendia dizer que a pesca submarina é patrocinada ou subsidiada pelo Secretariado para a Juventude.
A título de esclarecimento, pode-se dizer que o curso de pesca submarina é organizado pela Federação Portuguesa de Actividades Submarinas. Tendo o Secretariado para a Juventude organizado um curso de mergulhador amador nos dias 8, 9, 10 e 13 de Dezembro.

COIMBRA 2/5/73





Sem comentários:

Enviar um comentário