quinta-feira, 12 de abril de 2018

1978-04-12 - Europeu Nº 14

Editorial
ENTRE O MAU E O PIOR

E continua a ambiguidade.
Vamos agora comemorar o 4.° Ano da Liberdade. Vamos igualmente comemorar o 2.° da Constitucionalidade do governo democrático. Não vamos ainda ficar a saber com que linhas se pensa cozer o rasgão da crise económica, nem sequer por que porta pensa a instância governativa sair do impasse.
De há excessivo tempo se fazem orações e promessas a São FMI, santo padroeiro para os nossos males de estômago mais graves. Porteiro da grande abastança que está para lá da porta da CEE.
Afinal o “santão” é defeituoso; ou tem cisco nos dois olhos, ou é mais amigo de outras paróquias mais bem querentes ou mais bem pagantes. Diz-se por aí, à volta do santuário onde o governo discute com os núncios da Santidade, que está difícil o chegar-se a um acordo. Parece ter-se voltado ao diálogo de Afonso Henriques com o Cardeal Guido de Vico. Só que sem a “espada de Afonso”...

Anunciou o ministro Constâncio, homem cuja capacidade técnica e competência no sector foi superexaltada por todos os partidos na apresentação deste governo, pois anunciou ele que com o FMI iria ser mau, mas sem ele, seria desesperado! Estamos portanto emparedados entre o mau e o pior.
Quase em simultâneo, comentando o Projecto de Plano e Orçamento Geral do Estado para 1978, em discussão na Assembleia da República, a CIP, representada por Vasco de Mello, pré-anunciou desgraça; "... receia-se que a recuperação da economia portuguesa venha a tomar-se um projecto de duvidoso futuro
Com efeito, e partindo do princípio hoje aceite de que a nossa "via original para o socialismo" passa pela gaveta onde o PS congela o seu Programa teórico, este país é, definitivamente, um país que optou pelo capitalismo para... sair da crise.
Assim sendo, não se vislumbra bem como irá conseguir fazê-lo se a própria Confederação do Capitalismo Industrial português não vê grande chance nas recentes medidas do governo, medidas essas que - subentende-se - os delegados do FMI impuseram como obrigatórias para o empréstimo.
A este propósito ainda, e a título de curiosidade da nossa presente história política, convém referir que o PCP abrandou, se não desistiu, inteiramente da sua campanha de oposição ao empréstimo.
Das recentes medidas de governo, aplicadas em jeito de “uma no cravo, outra na ferradura”, o principal pagador — nós, que produzimos a riqueza que ainda sobra não descortina também o objectivo a atingir.
Restrição às importações de bens de equipamento e aumento da taxa de desconto bancário — quando as restrições já existentes chegam a paralisar unidades produtivas e o actual desconto desaconselha todos os projectos não subsidiados de recurso à banca — são medidas que não só dificilmente farão crescer o Produto Interno Bruto, como se não consegue perceber como podem safar o barco do baixio económico.
Bem ao contrário, o conjunto da paisagem das medidas económicas do I e II governos constitucionais deixam entrever a intenção estatal de reforçar o seu entesouramento monetário, reabastecer os cofres e distribuir, com a já conhecida e desigual parcimónia, as facilidades pelo sector público e nacionalizado e os problemas pelo sector privado. Isto sem abandonar o "porto seguro”, que Salazar construiu, de manter as finanças fortes e a indústria em anemia.
Do “proteccionismo às classes mais desfavorecidas” falam por si, e em todos os terrenos — económico, escolar, cultural, social — os três pacotes no seu conjunto, em termos de enfraquecimento do poder de compra da moeda, de redução do salário real mau grado os "aumentos” virtuais, de total abandono da tarefa de acrescer a consciência cultural de cidadania. Veja-se, por exemplo, conforme noutro local relatamos, o desprezo votado até aqui à informação e à cultura regionalmente entendida.
A própria macrocefalia, típica de todos os ex-grandes impérios coloniais, em vez de se combater com planos — ao menos “planos”! — de desenvolvimento regional e local e descentralização das decisões para as autarquias, prossegue inexoravelmente o seu curso com o apelo da grande cidade aos deserdados da província.
Dir-se-á que tudo tem o seu tempo. É certo. Não é porém razoável que se veja voar para norte quem apregoou intenções de ir para o sul. E por este andar, dir-se-á de nós um dia que tentámos atacar a crise pelas costas atascando-nos ainda mais nela.




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