sexta-feira, 28 de julho de 2017

1977-07-28 - O Proletário Vermelho Nº 85

Editorial
GOVERNO PS-PSD?
A REFORMA AGRÁRIA OU A TORMENTA DESTE VERÃO

Passou a lei Barreto com as bases para a Reforma Agrária. Agora só falta tudo.
Falta aplicar a lei contra as manobras de Cunhal e perante a resistência ou o apoio, no mais das vezes ingenuamente manobrados, dos trabalhadores que trabalham a terra.
Falta dar à lei um conteúdo prático e extrair dela resultados palpáveis para os interessados.
Falta dotar a lei com uma política agrícola, coisa em que, Finalmente, esta lei se pode distinguir da outra lei não só «pela quantidade», como confirmou o prof. Henrique de Barros, mas também pela qualidade como o exige o interesse do país todo. DO PAÍS TODO e não só do partido do governo. Interesse de facto, na base de uma sensível melhoria das actuais condições de vida, e não interesse apenas na base das negociatas e da “pastorícia eleitoral" dos votos a favor ou contra o partido de governo.

A negociação da lei foi um autêntico braço de ferro. Quer queiram ou não os partidos da oposição, quer o queira ou não a Convergência Democrática, nas condições presentes resta-lhes o direito de protestar mas não a força para substituir este governo dentro das regras do jogo democrático.
Aquilo que atrai cada um dos parceiros para o poder acaba sempre por ganhar terreno àquilo que os une na oposição ao governo. A própria natureza do programa da Convergência longe de propugnar a nítida exclusão do PS integra em si os germes das derrotas sucessivas. E o Partido Socialista, sabedor disso mesmo, explora até ao infinito essa circunstância, exerce a sua chantagem silenciosa sobre os parceiros em oposição e metendo à bulha os rivais com o PC é mesmo entre si, vai passando alegremente em meio ao vendaval das críticas.
Esta situação (de maior tendência para ser poder com o PS do que oposição frontal contra ele) acarreta fatalmente profundas divisões no seio dos próprios partidos, à falta de objectivo comum em torno do qual se unirem. E assim que, no caso vertente da lei Barreto, a aprovação da lei, não foi mais do que abrir ao PS as portas para o controle partidário do Alentejo (colmatando assim as brechas no seu terreno eleitoral) dividiu gravemente a outra ala da social-democracia portuguesa — o PSD colocando uma vez mais o partido contra o secretário-geral.
A lei passou; a Convergência viu-se a braços com uma pública demonstração de mal-disfarçada divergência - um terreno base de implantação do CDS como é a terra, o PSD a braços com uma grave ruptura ao nível dirigente; que mais pode pedir à fortuna o felizardo Soares?
Não obstante... Nem tudo são flores.
A divisão no seio do PSD não contrasta mas “encaixa" na divisão crónica do próprio PS. Um PSD que substitua Sá Carneiro por Barbosa de Melo é, para os soaristas, um perigo. Um perigo de muitos e complicados alçapões.
Sempre definimos o bloco PS-PSD como duas alas de um só — e grande, aí sim partido nacional democrático burguês. Com espinhos de uma e outra parte, é claro. Com Lopes Cardoso e Marcelo Rebelo de Sousa, é claro. Claro e normal em partidos desta natureza.
Sá Carneiro é de todos os dirigentes PSD, o mais exposto, o mais acutilante e logo o mais detestado dos PSD para a opinião dos militantes PS mais activos e de todas as tendências. Ora, se o PS eliminou os espinhos à sua “esquerda” defenestrando Carmelindas, Aires Rodrigues e já — de certo modo — Lopes Cardoso; se o PSD cria as condições para uma certa “defenestração” de Sá Carneiro, então os espinhos podem dar rosas na mão empunhada da social-democracia lusíada.
Os dados estão lançados. Contra eles apenas conta o verão e os — perigosíssimos — "acordos de férias”, a grande reconciliação das praias e do sol, nos Algarves ou na estranja. Talvez que isso retarde a marcha dos acontecimentos. Não cremos que os impeça em definitivo.
O PSD por seu turno não está somente dividido de Sá Carneiro. Está-o também da sua ala CAPista, está-o também dos elementos mais afectados pela pouca diferença “quantitativa” que a lei Barreto tem da anterior lei gonçalvista, que esperavam fazer o governo morder o pó numa derrota parlamentar à volta do problema da propriedade da terra.
Elementos que — diz-se — já passam com armas e bagagens à falange CDS. Elementos cuja saída abranda as cores de “direita” no partido de Carneiro (ou de Barbosa de Melo?) e por conseguinte o torna mais fraco e mais disponível à aproximação com Soares. E à ruptura da Convergência. E ao reforço da “direita” democrática CDS. O que mais aperta ainda o laço em tomo da lógica governativa do PS. E catapulta as bases de nova Convergência por ora apenas de bastidores — entre as duas alas — PS e PSD — da social-democracia lusa.

E CUNHAL?
Cunhal apostou forte e ficou-se de farronca numa mão e um punhado de amarga derrota na outra. Amarga e — o que é ainda pior — explosiva. Agora, (unhai tem de açucarar a amargura praticando a farronca e pondo em pé as ameaças. E em má situação deve fazê-lo.
O PCP dispõe de uma segunda linha militar, fantasma na retaguarda das Forças Armadas. Queimados os Coutinhos (Rosa) e Martins (Costa) restam-lhe ainda trunfos ocultos para lá da cortina de fumo do Conselho da Revolução. É certo que poderá - talvez - fazê-lo subir à ribalta, mas a que preço? Tais forças existem mas não dispõem nem de poder de manobra nem de capacidade de mobilização. São forças de defesa e não de ataque. E são forças de defesa que só encontram energia e voz em tomo da Constituição.
Ora isto vai forçar o PCP a “cumprir o jogo democrático” e a ter de fingir “cumprir a lei”.
Pode sabotá-la nos gabinetes onde manobra à vontade se mais não for e neste caso, de mãos dadas com os saudosistas burocratas “da outra senhora".
Pode impulsionar à socapa os trabalhadores mais os “trabalhadores” que por lá vegetam - à obstrução, à sabotagem e até à resistência.
Mas não pode romper as regras do jogo. O que o força a ter de abandonar os seus prosélitos à intervenção das forças de ordem estabelecida na Assembleia. O que cria, precisamente nos seus prosélitos mais prejudicados — os parasitas e oportunistas que lhe habitam no dorso com as pulgas de que necessita para parecer mais gordo - uma tendência a passar-se de armas e bagagens para a outra parte. De facto, o PS tem de "ocupar” também o Alentejo. Foi essa a sua “estratégia Barreto”. Só a intervenção de Brejnev pode ser bóia de salvação para o secretário Barreirinhas.

Se o PS "ocupar” o Alentejo e “recuperados Açores na aliança com o PSD, passa a ser o grande — e obrigatório! petisco para a presença social-imperialista no país. E esse o maior “perigo” que Soares pode trazer. Dos submarinos que lhe habitam as águas do Partido, só alguns poucos — puseram ainda o periscópio de fora!

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