quarta-feira, 26 de julho de 2017

1977-07-26 - CONFERÊNCIA DE LISBOA SOBRE A AMEAÇA RUSSA

CONFERÊNCIA DE LISBOA SOBRE A AMEAÇA RUSSA

I REUNIÃO PREPARATÓRIA
DOCUMENTOS

LISBOA, 26 E 27 DE JULHO DE 1977

Correspondência: Apartado 21 029, Lisboa 2 — Portugal. Conta Bancária: Banco Fonsecas & Bumay, n.° 02/17872/1

ÍNDICE
Um grito de alerta - 5
A necessidade de um amplo debate - 6
Os participantes - 7
Os trabalhos da I Reunião Preparatória - 11
Alocução de boas-vindas - 14
Apelo aos patriotas e democratas da Europa - 17
Moção sobre a Checoslováquia - 21

Balanço da I Reunião Preparatória - 24
A Conferência de Lisboa, um contributo para a unidade da Europa - 26

UM GRITO DE ALERTA AOS EUROPEUS
Nada acontece sem significado. A Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa tem, sem dúvida, um sentido e um objectivo.
A I Reunião Preparatória, ao aprovar unanimemente o Apelo aos Patriotas e Democratas da Europa colocou, sem ambiguidades, a preparação da Conferência de Lisboa no rumo iniciado com a aprovação do Manifesto, em Abril de 1977.
Após o Movimento libertador do 25 de Abril, que visava irmanar todos os portugueses no ideal democrático, esteve a democracia prestes a ser perdida e a soberania nacional espezinhada por novos ditadores.
Após o Movimento libertador do 25 de Abril, que visava irmanar todos os portugueses no ideal democrático esteve a soberania nacional espezinhada por novos ditadores.
Tomando como ponto de partida essa turbulenta experiência, a Conferência de Lisboa terá o mérito de desmistificar os pseudo-conceitos de progressismo dos que pretendem toldar a mente dos Homens.
A Conferência de Lisboa apoiará com energia todos os esforços conducentes à unidade da Europa, uma Europa em que os povos dêem os braços, num grande movimento patriótico e democrático, que lhes permita resistir com sucesso à ameaça russa.
Será a Conferência de Lisboa um alerta, um alarme, um grito aos portugueses, aos europeus, para que não esqueçam que quem os seus inimigos poupa, às mãos lhe morre.
Nós sabemos que todos os povos, mesmo o povo russo, aspiram à liberdade e por ela se baterão.
Cap. Tomás Rosa

NECESSIDADE DE UM AMPLO DEBATE
A necessidade de um amplo debate entre as forças democráticas da Europa sobre a ameaça russa é a principal conclusão da I Reunião Preparatória, Debate que é condição para o reforço da unidade.
As forças democráticas europeias estão hoje divididas sobre o que representa a ameaça russa e a forma de a combater. A resposta a estas questões é fundamental para a Europa democrática e para os povos sob o jugo do imperialismo russo. Sabemos que sobre a forma como o Kremlin procura subjugar os povos existem os mais diversos pontos de vista. Da mesma maneira, proliferam propostas diferentes quanto às medidas que devem ser tomadas em defesa da democracia e da independência nacional das nações da Europa.
A I Reunião Preparatória indicou que a Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa deverá ser um forum de discussão entre as forças democráticas europeias, independentemente dos pontos de vista de cada um, sobre a forma de fazer face à ameaça russa.
É da maior importância que desde já preparemos cuidada e activamente a Conferência de Lisboa. O trabalho de preparação até agora realizado já contribuiu, e contribuirá ainda mais, para o conhecimento e criação de laços de unidade entre os patriotas e democratas da Europa que, separados ideologicamente, ainda não encontraram as formas necessárias de unidade contra os que, apregoando a paz e o progresso, preparam a guerra e praticam, já hoje, crimes ignóbeis contra o progresso da Humanidade.
A situação política europeia e mundial, a importância que nessa situação assume a Europa, e a urgência de construir a unidade exigem que a Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa seja um sucesso, seja uma grande vitória sobre o inimigo.
Álvaro Vasconcelos

OS PARTICIPANTES






OS TRABALHOS DA I REUNIÃO PREPARATÓRIA
A I Reunião Preparatória da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa realizou-se no Hotel Altis, em Lisboa nos dias 26 e 27 de Julho de 1977.
Os trabalhos foram precedidos de uma reunião preliminar, durante a manhã do dia 26, para discussão e aprovação da proposta de ordem de trabalhos. Ficou decidido que os trabalhos decorreriam na noite do dia 26 e durante o dia 27. Na primeira sessão seriam discutidos os documentos políticos, nomeadamente o Apelo aos Patriotas e Democratas da Europa, e na segunda sessão seriam estabelecidas as estruturas organizativas para a preparação da Conferência.
Após um almoço de boas-vindas, foi oferecido aos convidados estrangeiros um passeio pela cidade de Lisboa que incluiu visitas ao Castelo de S. Jorge, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos e Palácio de S. Bento. Às 19 horas, realizou-se um colóquio tendo como tema os mass-media em Portugal, do 25 de Abril até hoje. As intervenções de Pedro Themudo de Castro, do Gabinete de Imprensa e Relações Públicas do PSD, do poeta Dórdio Guimarães e de Nuno Torres, responsável pela Secção da Frente Política do PCP(m-l), tiveram como principal objectivo informar os delegados estrangeiros sobre o real panorama da imprensa portuguesa.
Os trabalhos da I Reunião Preparatória iniciaram-se pelas 21.30 horas, na sala Osaka, com a presença dos seguintes membros do Comité Nacional: Álvaro Vasconcelos, Francisco Ferreira, Heduino Gomes (Vilar), Capitão João Pedro Tomás Rosa, Jorge Guimarães, Natália Correia, Eng. Nuno Abecassis e Dr. Pedro Roseta. Os drs. Meneres Pimentel, do PSD, e Narana Coissoró, do CDS, não puderam estar presentes devido a afazeres profissionais.
Eram os seguintes os delegados estrangeiros: Jacques Benout, Osvaldo Pesce, Dr. Roland Berger, Rudolf Heinrichs, Dr. Ülrich Matthée e Yvette Jarrico. Participaram ainda nos trabalhos Caetano da Cunha Reis, do Gabinete de Relações Internacionais do CDS e Dórdio Guimarães.

Os trabalhos da reunião foram dirigidos pelo Capitão Tomás Rosa e por Álvaro Vasconcelos. Foi estabelecido que o francês seria a língua oficial da reunião tendo sido posto à disposição dos participantes um serviço de tradução simultânea assim como um staff composto de tradutores e dactilógrafos. A imprensa foi mantida ao corrente do desenrolar dos trabalhos através de dois briefings diários. Alguns jornalistas aproveitaram o ensejo para entrevistarem os participantes.
Na primeira sessão de trabalhos, que se prolongou pela noite, após um debate franco e aberto, foi aprovado o Apelo aos Patriotas e Democratas da Europa e a Moção sobre a Checoslováquia. A manhã e a tarde do dia seguinte foram ocupadas com a discussão e aprovação do calendário para a preparação da Conferência e do estabelecimento das estruturas organizativas nos diversos países europeus.
Pelas 18 horas do dia 27 realizou-se no 9° andar do Hotel Altis a sessão de encerramento da I Reunião Preparatória. Acorreram cerca de duas centenas de convidados dos meios políticos, militares, intelectuais e diplomáticos, assim como numerosos jornalistas nacionais e estrangeiros. A sessão foi aberta pelo capitão Tomás Rosa que fez o balanço da I Reunião Preparatória. Seguiram-se as intervenções sobre temas diversos relacionados com a ameaça russa por Natália Correia, Francisco Ferreira, Roland Berger, Osvaldo Pesce, Ülrich Matthée, Jacques Benout, Dr. Pedro Roseta e Eng. Nuno Abecassis.
Yvete Jarrico fez a leitura do Apelo aos Patriotas e Democratas da Europa.
À noite, os delegados estrangeiros e membros do Comité Nacional estiveram presentes num sarau artístico na Estalagem do Farol, em Cascais, para angariação de fundos para a Conferência. Vários conhecidos artistas animaram no sarau: Gonçalo Lucena, Verónica, Hermínia Tojal, Fernando Guerra, Mariette Passanha, Mila Melo e Rogério Jacques.

Da autoria de Mário Piçarra, Maria do Céu Ricardo leu o poema Helsínquia, Não Acredites;

Quando te disserem, companheiro,
que a paz nasceu em Helsínquia,
não acredites!
São cinco milhões de fardas
escondidas,
que têm para te oferecer!

Quando te disserem, companheiro,
que Helsínquia é a paz onde nasceste,
são pombas envenenadas que te oferecem
escorrendo, intermináveis,
de frotas inteiras de bombardeiros!

Helsínquia é a memória intacta
de um verão negro de Portugal!
É Angola: a ponte mercenária
que vai de Havana a Luanda!
Helsínquia são mares que nos envolvem
entrançados de fogo
e pólvora lançada do Leste
sobre os países!

A História é longa!
E Munique está apenas a quatro décadas!
E não nos venham dizer
que é preciso acreditar
nas antigas promessas,
urdidas nas horas vacilantes
e em páginas inteiras de capitulação.
Não nos venham prometer gerações de paz
quando a memória é feita de cicatrizes
desenhadas no fogo dos campos de concentração!

Por isso se disserem
que a paz nasceu em Helsínquia,
no papel desbaratado
e na tinta das palavras por secar,
É urgente, companheiro, desmente-os!
Diz-lhes que a paz
- a única que lhes oferecemos -
é a força dos povos
contra o social-imperialismo!

ALOCUÇÃO DE BOAS-VINDAS
Caros amigos,
No início desta reunião preparatória da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa, pela Paz e a Segurança na Europa, queria, antes de mais, endereçar uma saudação especial aos amigos estrangeiros presentes.
A participação nesta reunião preparatória de várias personalidades europeias com provas dadas na luta contra a ameaça russa é para nós motivo da congratulação e uma fonte de encorajamento. Além disso, essa participação é indispensável pois os amigos estrangeiros trazem até nós o sentir e a experiência dos outros povos europeus. E é certo e sabido que a resistência à ameaça russa, sendo uma necessidade vital para os povos da Europa, só pode resultar da conjugação de esforços entre os patriotas e democratas da generalidade das nações europeias.
A Conferência de Lisboa irá debruçar-se sobre os problemas reais que se colocam à defesa da paz e da segurança na Europa. Ela será um fórum onde todas as correntes democráticas anti-hegemonistas europeias debaterão abertamente tais problemas e terá como objectivo central alertar os povos da Europa para a ameaça de agressão que sobre eles pesa.
A Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa parte da necessidade de reforçar a unidade das forças democráticas da Europa. Ela inscreve-se na corrente dos que preconizam a unidade da Europa Ocidental, a criação de uma Europa unida e forte.
A unidade é a grande base em que pode assentar a força da Europa Ocidental perante as ambições do Kremlin. Ela é indispensável não só no plano económico, mas também nos planos político, militar e cultural. É essencial não só entre os países ricos da CEE, mas também entre todos os países da Europa Ocidental. É, por último, também necessário que a unidade europeia se alargue às forças patrióticas e democráticas dos países da Europa de Leste, apoiando-os activamente na sua luta de libertação nacional contra os novos opressores.
A actuação dos dirigentes de Moscovo, nos últimos anos mostra claramente que eles procuram a todo o custo impedir esta unidade, fomentando a divisão e o desarmamento dos países da Europa. As suas tentativas de divisão e adormecimento dos povos europeus foram bem notórias na Conferência de Helsínquia. E, no follow-up de Belgrado, elas irão continuar e, se possível aumentar ainda mais.
Porque escolhemos Lisboa para organizar esta conferência?
Escolhemos Lisboa porque Portugal constitui, nos últimos anos, um importante alerta para a Europa e para o mundo. O povo português ganhou uma experiência riquíssima na luta pela independência nacional e a democracia. A 25 de Abril de 1974 vimos, com alegria, derrubado o regime fascista e restauradas as liberdades. Nos anos que se seguiram, o povo português teve de novo que defender a sua soberania e liberdades, fazendo frente à escalada golpista desencadeada pelos novos fascistas.
Tal facto despertou a consciência dos sectores patrióticos e democráticos do nosso País e tornou possível que eles se unissem na luta contra o inimigo comum. Esta experiência tornou-nos extraordinariamente claro não só o perigo que pesa sobre toda a Europa mas também a necessidade de contribuirmos para promover a unidade entre todas as forças patrióticas e democráticas europeias, contra a ameaça russa.
Mas a luta contra os novos expansionistas e agressores não se circunscreve à Europa, como bem demonstram as experiências recentes de Angola, do Zaire, da Etiópia, etc. O objectivo da estratégia global do expansionismo russo é a conquista da hegemonia mundial e, por isso, traduz-se em actividades de agressão, ingerência e tentativas de controle em várias partes do mundo, convergindo, no entanto, para o cerco e a conquista da Europa. Conquista esta, aliás, que em certo sentido já começou pois, diariamente, os países da Europa são invadidos por um exército não uniformizado - as quintas-colunas de Moscovo —, que assalta empresas, manipula órgãos de informação, captura sindicatos, etc., etc.
Nestas condições, a nossa Conferência não pode ser simplesmente europeia. Embora o seu carácter europeu se mantenha como dominante, será importante a participação, enquanto observadores, daqueles que, noutros continentes, já despertaram também para o espírito de unidade, independência e resistência à ameaça russa.
Caros amigos,
A nossa reunião de hoje e de amanhã dedicar-se-á, sobretudo, à preparação da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa, a realizar logo após a Conferência de Belgrado. Nela iremos fazer o balanço do trabalho já efectuado e definir as bases em que assentará a realização da Conferência, bem como as tarefas que teremos de cumprir até lá.
Faço votos para que os nossos trabalhos sejam verdadeiramente eficazes e, além disso, sirvam para reforçar os laços de amizade e de entendimento político entre todos. Faço votos para que os amigos estrangeiros tenham uma óptima estadia entre nós.

APELO AOS PATRIOTAS E DEMOCRATAS DA EUROPA
A I Reunião Preparatória da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa realizou-se numa altura em que chefes de Estado, partidos políticos democráticos, personalidades representativas dos meios culturais e forças sociais diversas das nações europeias começam a tomar consciência da verdadeira dimensão da ameaça russa, intensificando esforços para lhe fazer frente.
A I Reunião Preparatória beneficiou da atmosfera política que se vive em Portugal — país que soube unir-se e enfrentar vitoriosamente, a primeira tentativa em forma das forças pró-russas para conquistarem o poder político e instaurarem um regime antidemocrático ao serviço de Moscovo. O sinal de alerta para toda a Europa que constituiu a experiência portuguesa dos anos 1974 e 1975 foi uma importante fonte de inspiração para os trabalhos de preparação da Conferência.
Três décadas passaram sobre os dias gloriosos da aliança anti-hitleriana e dos movimentos de resistência à agressão nazi. Nesta altura, tudo o que havia de honesto, de democrático, de patriótico nos países antifascistas se uniu para salvaguardar a soberania e a liberdade das nações europeias. Não houve contradições ideológicas, interesses específicos de classe ou particularismos nacionais que resistissem ao impulso unitário que varreu toda a Europa, todas as nações democráticas, e as chamou à defesa da liberdade.
A I Reunião Preparatória da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa considera que, hoje, um desafio idêntico se coloca aos patriotas e democratas dos países europeus. A I Reunião Preparatória considera que todos os esforços devem ser feitos para debater o problema da ameaça russa, com vista a promover a mais vasta unidade entre as forças interessadas em lhe fazer frente.
A existência e a verdadeira dimensão da ameaça russa é uma questão que, muito justamente, preocupa os responsáveis políticos e militares da Europa. Esta preocupação é acentuada pelo facto de os dirigentes do Kremlin intensificarem os seus preparativos de guerra ao mesmo ritmo que acentuam as suas promessas de paz, de segurança e de cooperação.
Para mais, a propaganda «pacifista» e «desarmamentista» de Moscovo é potenciada pela acção desagregadora levada a cabo pelo KGB e por partidos que, utilizando embora diferentes tácticas e mesmo falando de democracia e liberdade, servem a política expansionista da Rússia. Esta acção desagregadora processa-se nos mais variados domínios, nomeadamente nos político, económico, militar, da informação e da cultura e inclui acções terroristas perpetradas pelo KGB.
A I Reunião Preparatória da Conferência de Lisboa denuncia as arbitrariedades e prepotências de que são vítimas o povo soviético, as nacionalidades soviéticas e os povos sob a dominação neocolonial russa. Na Rússia e nas suas colónias não há liberdades fundamentais e os tentáculos do Kremlin fazem pesar este perigo sobre os países da Europa Ocidental. Apesar de os dirigentes do Kremlin se autoproclamarem grandes defensores das liberdades dos operários, a realidade desmente-os: onde quer que estendam o seu domínio, sujeitam os operários e todo o povo à mais feroz opressão.
A expansão do Kremlin não se limita à Europa. Como demonstraram bem as recentes experiências de Angola, do Zaire, etc., o objectivo da estratégia global do expansionismo russo é a hegemonia mundial. Isto traduz-se por actividades de agressão e ingerência e por tentativas de controle em diversas partes do mundo, que, no entanto, convergem para o cerco e a conquista da Europa.
O espírito de unidade, independência e resistência perante a ameaça russa começa a vingar entre os povos, entre as forças patrióticas e democráticas das nações europeias.
São de bom augúrio os passos que a CEE ultimamente tem dado no sentido de se alargar aos países mais pobres da Europa e de aprofundar, no plano político, o processo de integração europeia. A abertura que se esboça relativamente a países como Portugal, Espanha e Grécia é uma medida positiva contra a acção desagregadora do Kremlin sob a capa da «cooperação» Leste-Oeste. São igualmente positivas as medidas recentemente tomadas no âmbito da NATO para reforçar o potencial defensivo da Europa.
Paralelamente, as ambições hegemonistas e os preparativos belicistas dos dirigentes russos tornam-se cada vez mais evidentes aos olhos da opinião pública internacional. Entretanto, ganha força entre os países europeus do Leste uma tendência para se oporem à opressão de que são alvo.
A I Reunião Preparatória da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa verifica com agrado que a tendência para a unidade, a independência e a resistência face à ameaça russa vai dando os primeiros passos, na Europa Ocidental como na Europa de Leste. No entanto, muito ainda há para fazer com vista a cristalizar esta tendência e torná-la irreversível.
Apesar do caminho já percorrido, muitos são os problemas relativos à ameaça russa para os quais existem as mais diferentes respostas. Muitos são ainda os obstáculos que se erguem no caminho da unidade entre as forças patrióticas e democráticas da Europa. Muitos são ainda os patriotas que não compreendem que a luta contra as ambições hegemonistas do Kremlin é uma luta pelo progresso, é a luta por um futuro mais justo para a Humanidade. A Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa não é, pois, uma conferência anticomunista, mas uma conferência contra o expansionismo russo, em prol da paz e da segurança da Europa e do mundo.
A resposta da Europa à ameaça russa é ainda francamente insuficiente. É preciso que a Conferência de Lisboa sejam um fórum de discussão não só das ideias e das análises sobre a ameaça russa mas também de propostas concretas para a acção patriótica e democrática contra ela.
A Conferência de Lisboa insere-se na corrente dos que preconizam a unidade da Europa Ocidental, a criação de' uma Europa unida, forte e independente. A unidade, cimentada na defesa da independência nacional e a democracia, é a grande base em que pode assentar a força da Europa Ocidental.
As nações da Europa, preservando a sua independência em relação ao hegemonismo, devem estabelecer laços com todas as nações, povos e países do mundo que se opõem ao expansionismo do Kremlin, nomeadamente com os do Terceiro Mundo. Essas relações devem assentar numa base de igualdade de vantagens recíprocas e de não ingerência, tendo sido já dados passos positivos nesse sentido.
É por tudo isto que a I Reunião Preparatória da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa confere a primeira prioridade às acções concretas tendentes a reforçar a unidade europeia e a apoiar a luta de libertação nacional dos povos europeus do Leste.
É urgente, ainda, prestar apoio a todos os países e povos que sejam vítimas das agressões, das prepotências, dos vexames e das ingerências perpetradas pela URSS. Não podem passar em silêncio os consecutivos atentados à soberania nacional de países africanos, tais como Angola, o Zaire, o Sudão, etc.
As lutas que, em qualquer parte do mundo, salvaguardem a independência das nações e enfraqueçam o expansionismo russo são favoráveis à causa patriótica e democrática na Europa. Elas encorajam os povos europeus e reforçam a sua determinação em prosseguir a resistência contra a ameaça russa.
A todos os povos, a todos os patriotas e democratas das nações europeias lançamos um apelo para que se unam entre si e juntem a sua luta às lutas inumeráveis dos povos do mundo inteiro pela salvaguarda da sua liberdade e soberania nacional.
A todos os povos, a todos os patriotas e democratas das nações europeias lançamos um apelo para que dêem o seu apoio à Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa, pela Paz e Segurança na Europa!

MOÇÃO SOBRE A CHECOSLOVÁQUIA
Há nove anos, na noite de 21 de Agosto de 1968, o exército soviético ocupava o território da Checoslováquia, um Estado soberano. Violando os acordos assinados algumas semanas antes na Conferência de Cernia, Leonid Brejnev, actual Presidente do Soviete Supremo da URSS, ordenava às tropas russas que tomassem de assalto o aeroporto de Praga, enquanto no Sudeste 450 000 homens atravessavam a fronteira eslavo-ucraniana. Na capital, o edifício do comité central encontrava-se cercado, Dubcek e a sua equipa eram conduzidos à força para paradeiro desconhecido. Foi realmente a primeira vez que os responsáveis de uma das duas superpotências no nosso tempo organizaram o sequestro dos representantes de um Estado soberano. Meio milhão de soldados estrangeiros encarregados de «normalizar» um povo de 14 milhões de almas! Os canhões estão apontados às janelas do palácio presidencial. Doravante, o velho general Svoboda só pode comunicar com os seus cidadãos por intermédio do Estado-Maior soviético instalado na Embaixada. Todos os meios de informação estão paralisados e, em poucos instantes, a artilharia sitia os postos de rádio e televisão. Em nome do internacionalismo proletário de que se reclama todas as vezes que lhe espezinha os princípios, Moscovo, temendo uma sublevação operária, aquartela unidades militares fora e dentro dos muros de todos os centros industriais. O desespero e a indignação atingem proporções tais que Brejnev recua momentaneamente — é demasiado tarde para impor um governo-fantoche. Urge arrancar Dubcek e os seus colaboradores dos calabouços, arrastam-nos para o grande salão do Kremlin a fim de assinarem o protocolo de Moscovo antes de regressarem ao seu país. Dubcek cedeu. Irá alterar a sua linha político-económica em troca da retirada das tropas de ocupação. Bem entendido, estas ainda hoje lá estão... Por ocasião de um congresso clandestino, efectuado na maior fabrica siderúrgica checoslovaca, Dubcek é reeleito por unanimidade. Símbolo do desespero de uma juventude que anseia pela liberdade, Jan Palach, um estudante de vinte anos, imola-se pelo fogo. Centenas de milhares de cidadãos escolhem o exílio. A Dubcek, que lhe dissera «a História não vos perdoará», Brejnev responde: «É perante a força que a História se inclina, bastarão duas gerações para que os jovens esqueçam o que os mais velhos viveram».
E assim foi anexado este povo da Europa central, célebre até então pelas suas tradições democráticas, pela sua cultura e pelo seu elevado nível industrial. Por intermédio do COMECON, a sua infraestrutura é modificada de modo a ficar totalmente dependente do bloco de Leste; desde 1968, nem um só romance de valor foi publicado; o humor desapareceu, e com ele todos os tesouros da cinematografia tantas vezes laureados em competições internacionais; esse povo de leitores deixou de ler, os seus escritores encontram-se no estrangeiro, sob prisão ou com residência vigiada. A «normalização» da Checoslováquia pelo social-imperialismo russo caracteriza-se por uma inflação galopante, pela paralisia das instituições, pela corrupção e intoxicação da juventude através de todas as formas de discriminação social e racial, do anti-semitismo mais primário à prevenção contra o «perigo amarelo», passando pelas práticas mais grosseiras em relação aos estudantes oriundos do Terceiro Mundo e do continente africano em particular.
E todavia, contra tudo e contra todos a luta continua. Mau grado as consequências trágicas para eles e para as suas famílias, os signatários da Carta 77 exigem o respeito dos acordos de Helsínquia. Perdem automaticamente o emprego, caem sob a alçada da lei «contra o parasitismo» (trabalho compulsivo) e os seus filhos ficam para sempre impedidos de entrar para as universidades, sejam quais forem as suas qualificações. A sua residência ser-lhes-á confiscada, abandonarão a cidade e nunca mais terão sequer o direito de fazer um telefonema ou guiar um automóvel.
A todos estes resistentes e patriotas, manifestamos o nosso apoio. Dizemos-lhes que nada do que se passa entre eles nos é alheio, que nos preocupa o destino do seu país, posto avançado do imperialismo russo na Europa. Comprometemo-nos a alertar a consciência dos povos europeus avivando-lhes a lembrança dessa invasão brutal e a recusa da Checoslováquia em jamais se converter numa colónia do império soviético.

BALANÇO DA I REUNIÃO PREPARATÓRIA
Desejo em primeiro lugar saudar os convidados presentes nesta sessão de encerramento dos trabalhos da l.a Reunião Preparatória da Conferência de Lisboa sobre a Ameaça Russa, assim como os representantes dos órgãos de comunicação social.
Os trabalhos da l.a Reunião Preparatória decorreram num ambiente de grande cordialidade, debate e espírito de entendimento.
A presença entre nós de patriotas e democratas de vários países europeus, —   Bélgica, França, Itália, Reino Unido, República Federal da Alemanha —, com provas dadas na luta contra o expansionismo russo, foi para nós, portugueses, um grande estímulo.
Como frisaram todos os nossos amigos estrangeiros, a importância da experiência portuguesa dos últimos três anos de luta contra o hegemonismo russo é de um incalculável valor para os restantes povos europeus. Foi sublinhada a necessidade de divulgar a experiência portuguesa e, deste modo, contribuir para o reforço defensivo dos povos e países europeus contra o hegemonismo russo.
Foram tomadas algumas importantes decisões para a organização da Conferência de Lisboa, que passo a referir.
Os participantes na Reunião aprovaram por unanimidade dois documentos: o    Apelo aos Patriotas e Democratas Europeus e a Moção sobre a Checoslováquia.
Foi igualmente aprovada uma proposta de calendário de preparação e organização da Conferência, que marcou a data da realização da Conferência de Lisboa para Janeiro de 1978, após o fecho da Conferência de Belgrado.
Foi marcada para uma cidade europeia fora de Portugal a 2.a Reunião Preparatória, a realizar em Novembro de 1977.
As estruturas de apoio nos diversos países europeus para a organização da Conferência foram estabelecidas. Deste modo, serão abertos gabinetes de apoio em diversas cidades europeias — Bruxelas, Estocolmo, Londres, Paris, Roma e na Alemanha — com a missão de informar a opinião pública sobre a ameaça russa e organizar a participação dos patriotas dos respectivos países na Conferência de Lisboa.
Será lançado um abaixo-assinado e uma subscrição a nível europeu. Foi ainda decidido organizar entre 15 de Outubro e 25 de Novembro - data que marca a derrota da tentativa de domínio de Portugal pelo Kremlin — festas e conferências tendo como um dos temas a experiência portuguesa e com a participação de membros do Comité Nacional.
Os objectivos da Reunião foram integralmente cumpridos. O balanço desta 1.a Reunião Preparatória é, pois, altamente positivo.

A CONFERÊNCIA DE LISBOA UM CONTRIBUTO PARA A UNIDADE DA EUROPA
A realização da Conferência de Lisboa é uma iniciativa de personalidades representativas dos partidos democráticos e de democratas independentes, que subscrevem o Manifesto e constituem o Comité Nacional da Conferência de Lisboa. O Comité Nacional é formado pelos seguintes membros: Álvaro Vasconcelos, membro do Secretariado do Comité Central do Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista), membro do Secretariado da Associação Democrática de Amizade Portugal-China; Francisco Ferreira, escritor e jornalista, autor de livros sobre a URSS, membro do Gabinete de Imprensa do Partido Socialista; Heduíno Gomes (Vilar), Secretário-Geral do Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista); Cap. João Pedro Tomás Rosa, oficial da Força Aérea na reserva, Ministro do Trabalho no VI Governo Provisório; Jorge Guimarães, escritor e jornalista, membro do Partido Socialista; Dr. Meneres Pimentel, advogado, membro do Conselho de Jurisdição do Partido Social-Democrata, membro da Comissão Permanente do Grupo Parlamentar do Partido Social-Democrata; Dr. Narana Coissoró, advogado, Professor Catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, deputado na Assembleia da República pelo Centro Democrático Social, membro do Conselho Executivo da Comissão Portuguesa do Atlântico; Natália Correia, poeta e escritor; Eng. Nuno Abecassis, Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do Centro Democrático Social; Dr. Pedro Roseta, consultor jurídico, membro da Comissão Permanente do Grupo Parlamentar do Partido Social-Democrata.
Os assuntos dos debates e as personalidades presentes conferem à Conferência um carácter eminentemente europeu. O facto de a Conferência ter lugar em Lisboa deve-se, como sublinha o Manifesto, à importância da experiência portuguesa nos últimos três anos em que os esforços feitos pela salvaguarda da independência nacional e a democracia se tornaram notados. A Conferência de Lisboa, será, pois, um excelente ponto de encontro para a troca de experiências entre as várias forças democráticas da Europa.


A Conferência de Lisboa tem como objectivo contribuir para a unidade da Europa e constitui, portanto, um apoio aos esforços nesse sentido feitos pelas diversas forças democráticas europeias.

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