terça-feira, 25 de julho de 2017

1977-07-25 - O Comunista Nº 44 - II Série - UCRP(ml)

EDITORIAL
MERCADORES DE CANHÕES

Vieram, recentemente, a público na imprensa diária notícias que impõem um esclarecimento claro e total.
Negócio de armas é o assunto.
A revista espanhola «Câmbio 16» denunciara que as Forças Armadas Portuguesas (FAP) pretenderiam vender 4 navios de guerra portugueses, por intermédio da Colômbia — uma ditadura fascista latino-americana —, ao regime racista sul-africano de Vorster. Regime que se vem armando até aos dentes, no vão intuito de impedir a libertação da Azânia e manter o baluarte imperialista encravado na África Austral. As declarações tinham sido prestadas pelo subdirector da Empresa Nacional Bazan (ENB), empresa naval espanhola, que construíra, por encomenda do governo marcelista, 4 corvetas para a Marinha portuguesa. As quatro corvetas foram entregues às FAP já depois do 25 de Abril, entre Dezembro de 1974 e Outubro de 1975.

As quatro corvetas possuem um sistema ultrassensível, lança foguetes de superfície e anti-submarinos, além de notáveis progressos no sistema de tiro, adaptados perfeitamente à guerra colonial africana. Assim seriam certamente úteis aos racistas sul-africanos, se estes os pudessem adquirir.
As quatro corvetas são vendidas, já que no entender das FAP não servem, agora, a Portugal para o patrulhamento das 200 milhas, bem como para a defesa incluída no plano da NATO: são demasiado grandes para o primeiro aspecto, e demasiado pequenas para o segundo.
Para que servirão, então, à Colômbia?!
A Venda dessas quatro corvetas está autorizada, legalmente, por despacho n.° 94/77, se bem que nele não se designa qual o país da América Latina comprador. E nada se diz, também, sobre a proibição de revenda desse país comprador a outrem, conforme é de uso nos contratos do género. Também no caso do contrato entre as FAP e a ENB espanhola essa proibição não constava...
Souto Cruz no Alfeite declarou que tal venda «é rodeada de todas as garantias quanto ao país que as irá Utilizar»; «em nenhum caso, houve ou há qualquer intenção de as vender à República da África do Sul» (Imprensa diária de 9/7/77).
Mas que garantias, sendo a Colômbia uma ditadura fascista sanguinária e um entre muitos países latino-americanos conhecidos como mercadores de canhões?
Mas, ainda, este assunto estava fresco e vinha a lume outro negócio de canhões.
Eram apreendidos na Ilha de Barbados, colónia inglesa, ao norte da costa atlântica da América do Sul, um avião da Companhia de «Transportes Aéreos Rioplatenses» (Argentina), com um carregamento de 26 toneladas de munições de calibre 5,56. O avião tinha saído do aeroporto inglês de Stansted e havia feito escala por Lisboa. O carregamento fora realizado em Lisboa e destinava-se à Guatemala, ou-
(…?)
mento em que um conluio entre a Inglaterra e a Guatemala estoirava acerca da colónia de Belize, encravada na América
Central.
A Guatemala pretende anexar Belize, para arranjar um corredor de acesso ao Mar das Caraíbas e arma-se para o efeito. Toda a burguesia guatemalteca «nesta hora de crise» clamava pela «unidade nacional» em torno do ditador de serviço para anexar a colónia inglesa, em que patriotas lutam para arrancarem a independência nacional, incondicional, à Grã-Bretanha e a Guatemala «entenderam-se», chegando a um «compromisso territorial», assegurando as ambições da ditadura guatemalteca. Acrescente-se que Belize é o único território do mundo que produz e exporta chicle, o ingrediente principal da goma de mascar, das pastilhas elásticas, exportadas para todo o lado pelo imperialismo.
Correu, então, na imprensa diária portuguesa a pergunta se o fornecedor não teria sido o nosso país. Tanto mais que o governo guatemalteco dissera que as tinha comprado a um país membro da NATO. As mais variadas versões correram, diante do silêncio das cúpulas militares.
Apurou-se, então, que uma firma portuguesa — «Explosivos da Trafaria» — mantém um acordo de exportação de munições com a ditadura guatemalteca, com autorização do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Face a todas as evidências, os militares reconheceram (Sousa Castro à imprensa, entre outros).
E quando parecia que o tema ia cair no esquecimento, a imprensa voltava ao assunto. O “Jornal» noticiava que mais um carregamento, desta vez de 29 toneladas de munições, dos EXPLOSIVOS DA TRAFA­RIA, seguirá em breve para a Guatemala. E acrescentava que mais carregamentos para o mesmo destino estão autorizados. Soube-se, também, agora e continuando a citar o mesmo semanário, que aquela empresa da margem Sul há um ano exportara, também mediante autorização oficial, uma encomenda de minas para a África do Sul. E sobre a África do Sul, uma outra noticia era adiantada, a qual
(…?)
Forças Armadas: a reuter informara que nos Estados Unidos é corrente dizer-se que o nosso país — bem como a Itália — fabricam armamento, sob licença americana, que depois é vendido à África do Sul... Decididamente, no que toca aos racistas da África do Sul é muito fumo para que não haja fogo.

Terá o nosso país se transformado novamente num mercador de canhões? Para fazer uns cobres, tudo indica que a burguesia não olha a meios. Os trabalhadores portugueses denunciam firmemente estas actividades do governo e das cúpulas militares. O imperialismo tem na massa do sangue o negócio das armas. Só a revolução proletária e a ditadura do proletariado acabarão, no nosso país, com isto.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo