sexta-feira, 14 de julho de 2017

1977-07-14 - Luta Popular Nº 552 - PCTP/MRPP

EDITORIAL
DE FARSA EM FARSA

Lisboa, a capital — no fundo, o país — dispõe de dois centros privilegiados da farsa: o Parque Mayer e a Boa-Hora. No primeiro, vende-se e propaga-se a ideologia do sistema, sob uma forma particular e com pouca roupa. No segundo, defende-se e conserva-se o sistema e a ideologia, sob uma forma especial e com muita toga. Com palavras diferentes, a farsa é a mesma: com mais ou menos roupa, os farsantes são os mesmos e têm a mesma função. De resto, assim como não acredita na comédia nem no ritual do Parque Mayer, o povo muito menos crê no ritual e na comédia da Boa-Hora.
Outro dia, o nosso jornal e o seu director foram submetidos a uma farsa de julgamento no Parque da Boa-Hora, acusados do «crime inqualificável» de qualificar de novo Tinoco um badameco de um capitão que resolveu ganhar mais galões à custa da provocação torpe e soez a alguns membros do nosso Comité Central e respectivas famílias.

Por aquela ocasião, a fantochada judicial terminou com um obscuro juiz fascista condenando o director de «Luta Popular» a oitenta dias de cadeia e a cento e sessenta contos de multa.
Passados dias, subiam à cena no mesmo antro de diversões da capital duas novas peças: a comédia do Antunes e da Lagoa e a opereta Nuno Rocha — Costa Gomes. Dois jornalistas ultra-reaccionários, acusados de injuriarem o antigo Presidente da República e o actual Presidente da Comissão Constitucional, com uma linguagem que daria ao camarada Fernando Rosas mais três anos de Peniche, foram absolvidos e mandados em paz, porque nada mais fizeram do que usar das «amplas liberdades» de imprensa. Dir-se-ia que o erro do nosso jornal foi o de ter-se atirado a um capitão, em vez de escavacado um general.
De farsa em farsa, o Parque Mayer da Boa-Hora, juntamente com o da Feira da Ladra, onde um outro Vasco Morgado destas coisas e destas cenas monta um espectáculo mais colorido que mete faixas vermelhas, cruzes de guerra e espadas de Toledo, vão libertando os bombistas do P«C»P, do CDS, do PPD e do PS, aos quais vão também mandando em paz, para em paz poderem continuar a semear a provocação e a bomba. No caso da cena da Feira da Ladra, o juiz Barata, que é uma espécie de Vítor Espadinha dos lados de Santa Clara, vai absolvendo e libertando os pides, na base da atenuante extraordinária dos serviços «relevantes e distintos» que prestaram à Pátria, encarcerando os trabalhadores de vanguarda, torturando os marxistas-leninistas ou assassinando Ribeiro Santos ou Delgado.
Para os operários não será, portanto, coisa de estranhar — eles que sabem, na carne e no sangue que, até hoje, os tribunais e os juízes nunca serviram senão para condenar o povo e encarcerar os trabalhadores — que o polícia de toga, senhor Joaquim Carita Grave, se tenha voltado, solene e ridículo no seu ritual de bonifrates, para os bandidos que assassinaram Alexandrino de Sousa e lhes tenha dito: «Pelo que vos absolvo, e vos mando era paz»...
Um acto do mais puro banditismo, como foi aquele que perpetraram os filiados do grupelho provocador U«DP»/P«C»P(R) ficou, assim, impune. Só faltou ao 2.º Juízo Correccional do juiz Carita Grave pedir desculpa aos assassinos pelo incómodo que lhes terá causado o tempo que perderam na pantomina do julgamento,
É claro que os assassinos do camarada Alexandrino de Sousa, como todos os assassinos dos filhos do povo, acabarão às mãos do povo, demore o tempo que demorar. Essa é, aliás, uma exigência imposta pelo sentido de justiça das massas trabalhadoras e uma imposição da enorme onda de indignação popular que originou a sentença provocatória do juiz Carita Grave.
Faz dois anos no próximo dia 9 de Outubro que um bando de sessenta energúmenos da U«DP»/P«C»P(R) atacou, pelas quatro horas da madrugada, uma pequena brigada de quatro jovens camaradas da nossa Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas, agredindo-os com barras de ferro e exibição de armas de fogo, assassinando por afogamento o camarada Alexandrino de Sousa e tentando assassinar também os seus companheiros de luta.
Alguns populares, que entretanto apareceram, detiveram cinco dos assassinos que a polícia prendeu no local do crime, ainda armados com os instrumentos da agressão. O grupelho provocatório social-fascista da U«DP»/P«C»P(R) não pôde escamotear a sua responsabilidade política e criminal nos acontecimentos; homens do povo, que presenciaram os factos, apresentaram-se voluntariamente a testemunhar sobre a agressão cobarde e repugnante a que haviam assistido; o relatório da autópsia provou que o camarada Alexandrino de Sousa tinha sido brutalmente agredido com instrumentos contundentes, designadamente barras de ferro, antes ainda de ser assassinado por afogamento; o despacho de pronúncia provisória inculpava os criminosos que puderam ser detidos de homicídio voluntário; o próprio tribunal militar, onde foi julgado um dos assassinos que era tropa, apesar da sua manifesta vontade em contrário, não pôde deixar de condenar (com uma pena ridícula e simbólica, é certo) um dos comparsas do crime.
E, todavia, o Parque Mayer da Boa-Hora e o agente Carita Grave absolveram os assassinos e mandaram-nos «em paz». O raciocínio do Carita é este: na verdade, os militantes da FEM-L foram agredidos, designadamente com barras de ferro, por um grupo de que faziam parte os réus que ele fingia julgar; por outro lado, os réus foram presos na posse de barras de ferro; ainda por outro lado, testemunhas e polícias são unânimes em confirmar que os réus se encontravam no local do crime a faziam parte do bando agressor. Não obstante, absolve-se.
Quanto ao processo referente ao assassinato do camarada Alexandrino de Sousa, fica a aguardar melhor provai É uma maneira hipócrita e cobarde de dizer que o processo é arquivado sem qualquer julgamento. Porque o juiz Carita Grave desmascara-se a si mesmo: por que razão o processo de Alexandrino de Sousa precisa de aguardar melhor prova e o processo dos seus companheiros não precisa disso? Claro está que esta manobra fascista dos tribunais burgueses visa apenas mistificar a opinião pública, procurando fazer-lhe crer no escrupuloso sentido de «justiça» que preside a estas farsas judiciárias.
A absolvição dos assassinos do camarada Alexandrino de Sousa encheu de indignação todo o povo trabalhador, toda a classe operária e todas as forças democráticas. A impunidade desse crime e dos assassinos que o perpetraram, impunidade legitimada pelos tribunais da ditadura existente, mostra ao povo e à classe operária que nada de essencial mudou neste país depois do 25 de Abril.
Os marxistas-leninistas, os proletários de vanguarda, os trabalhadores conscientes podem ser assassinados à vontade, porque os tribunais do capital e os juízes fascistas aí estão para proteger os assassinos.
Esta fantochada judicial, com a impunidade em que deixou os assassinos dum militante comunista, mostra, a quem tiver olhos para ver e ouvidos para escutar, a agudização a que chegou, sob a democracia parlamentar burguesa, a luta de classes, a luta entre a revolução e a contra-revolução. Mostra, em suma, que o povo deve desfazer-se rapidamente de todas as ilusões nesta democracia podre e corrupta, que não é senão uma folha de parreira para esconder a nudez da mais desenfreada exploração e da mais odiosa das opressões. Dentro em breve, saltará a folha de parreira, saltará a máscara das «amplas liberdades», e ficará a nu aquilo que este sistema sempre foi e é: o sistema da exploração do trabalho pelo capital, da riqueza e do luxo para os capitalistas, incluindo os seus agentes do tipo Carita Grave, e a opressão, a fome e a miséria para os trabalhadores.
É isso o que prova este julgamento-farsa. E é toda essa farsa e todo esse sistema que o povo terá de destruir, para ser verdadeiramente livre.
Alexandrino de Sousa caiu combatendo esse sistema. Melhor do que ninguém, sabia ele que não se deve alimentar nenhuma espécie de ilusões na «justiça» e nos tribunais do inimigo. A sua morte e a absolvição dos seus assassinos constituem dois altos exemplos educativos para todos os proletários, acerca do caminho que terão de percorrer até à sua emancipação do jugo do capital.

É por isso que o povo vingará o camarada Alexandrino de Sousa.

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