quinta-feira, 13 de julho de 2017

1977-07-13 - Bandeira Vermelha Nº 078 - PCP(R)

EDITORIAL
INTENSIFICAR A ACÇÃO POLÍTICA ENTRE AS MASSAS

1. A última semana foi fértil em manifestações de reaccionarismo e em atentados públicos às liberdades democráticas. Num momento em que se multiplica a demagogia das classes dominantes a favor da tão famosa "democracia pluralista", parece oportuno recordar que neste Portugal de 77 se sucedem os ataques preocupantes às liberdades e à democracia.
Com efeito, a 5 de Julho, o brigadeiro fascista Pires Veloso discursava em Bragança prevendo a defesa armada do país contra inimigos infiltrados do estrangeiro, numa grosseira utilização das tradicionais patranhas anticomu­nistas. Dois dias depois, no Alentejo, os comandos do igualmente fascista Jaime Neves iniciaram interessantes exercícios armados nos quais mobilizaram a totalidade das suas forças, numa clara demonstração bélica com fins políticos.

Mais recentemente, na Madeira, o Congresso regional do PPD concluía ser necessário prosseguir a luta pela autonomia regional até conseguir ó estatuto de um Estado federado, ao mesmo tempo que espumava de raiva contra o Conselho da Revolução.
E enquanto assistem, despreocupados, ao crescer das actividades fascistas e separatistas, nas Forças Armadas e fora delas, o governo e as cúpulas militares preferem sair a público para ameaçar as forças democráticas e retirar-lhes liberdades a que têm direito. É assim que, ontem, o governo civil de Lisboa resolveu proibir uma convocação de massas para o julgamento de Rui Gomes, descobrindo imaginárias manifestações de rua onde não se encontra mais que um tribunal público — e, para o qual, por maioria de razão, todos têm a liberdade de convocar quem muito bem entenderem... e sem qualquer pedido de legalização.
Mas também o Estado Maior das Forças Armadas entendeu que devia dar um "arzinho da sua graça". E saiu a público com uma nota vergonhosa e fascizante condenando um programa teatral passado na RTP e que, ao que parece, teria "maculado e desprestigiado as Forças Armadas Portuguesas". O que, aliás, não é possível pois as Forças Armadas estão "maculadas e desprestigiadas" desde que, em 25 de Novembro 75, passaram a ser regidas por leis que hoje são de excepção à Constituição e que negam em absoluto as liberdades democráticas...
2. Mas o que importa realçar é que estas atitudes não surgem por acaso. Acompanham a enxurrada de medidas anti-operárias que têm sido aprovadas ou aguardam aprovação, nessa Assembleia da República onde os deputados, eleitos pelo povo, não respeitam a vontade popular nem lhe prestam contas. Os ataques públicos às liberdades democráticas acompanham a aprovação duma lei anti-greve, dum estatuto que abole o controlo operário e se intromete nos regulamentos das Comissões de Trabalhadores e antecedem a apresentação dum projecto criminoso contra a Reforma Agrária e os trabalhadores rurais.
O objectivo é o mesmo. O aniquilamento das conquistas dos trabalhadores e da liberdade política é o alvo que os monopólios e a burguesia reaccionária pretendem atingir. Eles já não respeitam, nem podem respeitar, as próprias liberdades que dizem defender. A farsa da democracia burguesa já se torna difícil de alimentar quando essa minoria de parasitas opressores defronta um movimento operário e popular cada vez mais consciente e combativo.
Foi esta, aliás, a previsão do nosso Partido. Foi este o motivo do aviso solene que lançámos aos trabalhadores e às forças democráticas. No nosso país, não é possível assegurar as liberdades, preservar a democracia, sem atacar com decisão e esmagar o grande capital, os agrários e o imperialismo. Ou se opta pela democracia, ou se opta pela reacção. Ou se preferem os trabalhadores, ou se preferem os capitalistas e agrários. Ou se defende uma pátria livre e independente, ou se defende a sujeição ao imperialismo. Eis a opção que é preciso tomar e que não é mais possível distorcer.
3. Não é portanto difícil compreender que a luta pelas liberdades se encontra na ordem do dia. Os factos enumerados — e que se referem apenas a aspectos de um passado muito recente — bem como a farsa judicial montada contra Rui Gomes, são argumentos irrefutáveis a favor da actualidade da luta pelas liberdades.
E, neste campo, é preciso dizer que são positivas as recentes movimentações levadas a cabo com amplos sectores antifascistas. E justo o movimento a favor de Rui Gomes. É justo o esforço para levantar um tribunal de opinião que julgue a pide e o fascismo. Mas é preciso que sejam muito mais incrementados. Para aumentar o isolamento e as dificuldades da reacção, para dar maior consistência ao movimento popular antifascista.
Para alargar a luta antifascista, para ganhar largas massas para este combate, é preciso encabeçar com mais energia a luta política de massas. A luta política não surge espontaneamente do desenvolvimento da luta económica. Não é o simples prolongamento desta.
A tendência para limitar a intervenção do Partido Comunista à condução da luta económica nas empresas é uma tendência negativa que afasta o movimento operário das primeiras linhas do combate antifascista e entrega este último às mãos exclusivas da burguesia liberal e da intelectualidade.
A tendência para encarar as iniciativas unitárias antifascistas como algo que se promove fora das empresas e que nada tem a ver com estas, é uma tendência negativa. Concorre igualmente para afastar a classe operária do movimento democrático, dificulta a conquista da hegemonia do proletariado e faz perigar o rumo, a consequência e o êxito da luta antifascista.
Por último, a tendência para fechar a intervenção dos comunistas nos muros das empresas e afastá-la dos outros sectores populares, é também uma tendência negativa. Corresponde à ideia errónea de que o Partido se pode afirmar na classe operária sem possuir uma intervenção aberta e sistemática na cena política nacional.
  4. Incrementar a luta política de massas, e intervenção operária no movimento antifascista, incrementar as iniciativas de frente única no próprio seio do movimento operário e levar as palavras do Partido a todos os sectores do campo popular, são exigências do momento actual. Não podem ser esquecidas nem tão pouco adiadas.
Nas empresas, o nosso Partido não pode limitar-se à condução da luta económica. Exige-se a generalização da denúncia política, mais cuidado com a difusão da imprensa central. É preciso mais audácia e mais habilidade para conquistar mais largos sectores para as opiniões políticas do nosso Partido.
Também nas empresas devem ser incentivadas as iniciativas de unidade antifascista. O movimento a favor de Rui Gomes e do Tribunal Humberto Delgado tem de fortalecer as suas raízes no movimento operário. A voz dos revolucionários na Assembleia da República tem de ser divulgada e acarinhada entre a classe operária. A acção aberta do Partido Comunista não impede, antes estimula, a captação de largas massas para a acção revolucionária e antifascista e a utilização dos mais variados instrumentos nessa acção.
E, finalmente, há que alargar a intervenção dos comunistas para além das próprias empresas. É necessária maior atenção à propaganda de massas. São necessárias mais acções para quebrar o cerco da informação burguesa e levar as consignas revolucionárias a grandes massas de trabalhadores, às ruas e aos locais públicos. É preciso disputar a própria legalidade da burguesia e fazer ouvira voz partidária mesmo na informação burguesa.


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