sexta-feira, 7 de julho de 2017

1977-07-07 - Voz do Povo Nº 155 - UDP

EDITORIAL
QUEM GOVERNA?
TRÊS MINISTÉRIOS OU O GOVERNO?

Tem vindo a subir o tom das críticas dirigidas à actuação do Governo PS. O custo de vida aumenta incessantemente. O poder de compra baixa assustadoramente. Algumas indústrias ligadas à alimentação e ao vestuário tiveram de reduzir a sua produção nos últimos meses, como reconhece um departamento oficial.
É com crescente preocupação que os democratas e antifascistas vêem o avanço das forças reaccionárias e verificam como o Governo contemporiza com elas. E muitas vezes é o próprio Governo que se lança ao ataque a direitos conquistados após o 25 de Abril, tendo mesmo recorrido à "requisição civil", numa clara intenção repressiva e intimidatória.

Entretanto, a coberto da situação geral de descontentamento, os fascistas e reaccionários procuram aparecer como a única alternativa possível. Lançam mão da demagogia e prometem mundos e fundos. Disparam ferozes críticas sobre o governo, atingem-no em pontos particularmente sensíveis para o povo pobre, como o aumento do custo de vida. Fazem tudo isto com a maior desfaçatez, procurando fazer esquecer que o agravamento das condições económicas dos trabalhadores é precisamente devido, em boa parte, à aplicação pelo PS de pontos dos programas do PSD e CDS. Apelam à repressão à esquerda, sobre os trabalhadores. Graças à política do Governo, procuram fortalecer-se.
Mas enquanto isto acontece, um número cada vez maior de trabalhadores vê com clareza que a causa do mal está na política direitista empreendida pelo Governo. E rejeitam-na, assim como lançam no desprezo as "convergências democráticas".
Alastra particularmente a crítica àqueles ministros que de forma mais flagrante têm sido responsáveis por medidas anti-populares: Cardia, Barreto e Gonelha. É uma crítica justa e salutar que demonstra a vontade que as massas populares têm em ver terminada a carreira desses "mestres" do ataque ao movimento popular, desses "violinos" da direita.
Já agora virá a propósito referir as declarações do ministro Barreto, ameaçando demitir-se caso a sua lei não seja do agrado da Assembleia da República. Tal atitude deve, quanto a nós, ser considerada como uma grosseira chantagem. Essa posição contraria aliás aquilo que o PS sempre tem dito sobre o imenso respeito que lhe inspira a Assembleia da República. É claro que uma coisa são as palavras e outra são os actos. E os actos de António Barreto são coerentes. Ele revelou mais uma vez a baixeza dos métodos a que está disposto a lançar mão para impor os seus intentos. É por isso mesmo que ele é tão contestado.
Estas críticas, tão centralizadas em três pessoas, têm no entanto um perigo: fazer esquecer que elas são membros de um todo — que é o Governe — o qual as apoia e incentiva, o qual as defende das críticas que lhes são dirigidas.
É que não podemos esquecer a existência do Ministro da Administração Interna, Costa Brás, responsável por recentes e generalizadas cargas da PSP e GNR, e pela repressão sobre os cantoneiros de limpeza.
É que não podemos esquecer como o ministro Medina Carreira está disposto a tudo para justificara utilidade (e esconder as desvantagens) de mais um chorudo empréstimo imperialista.
É que não podemos esquecer o Ministro Medeiros Ferreira e o estabelecimento de relações com Israel.
É que não podemos esquecer Roque Lino e o seu plano de extermínio da imprensa.
Não vamos alongar mais exemplos. Estes já chegam para mostrar que a política do Governo não está só confinada a três ministérios. E julgá-lo é um erro de graves consequências.
Para nós, há uma questão central: qual o papel representado pelo Governo PS na evolução política em Portugal?
A realidade dos factos tem vindo a confirmar a justeza da análise feita pelos revolucionários há já algum tempo. Este é o Governo utilizado pelo grande capital para criar as condições ao desenrolar dos seus projectos e criar aqui um governo forte, um governo nitidamente de direita. Como qualquer Governo social-democrata, este Governo PS funciona como um autêntico Governo de transição para a direita. Esse é o seu caminho natural e irreversível, historicamente comprovado em todo o mundo, e na nossa época em especial na Europa.
Não há pois que criar ilusões quanto à capacidade de um Governo destes se opor firmemente às forças de direita. Por isso mesmo, pretensas alternativas baseadas na possibilidade de negociação de medidas governativas pontuais, de alcance bem limitado, não constituem de facto uma saída para a crise política existente. Essas pretensas alternativas, só servem afinal para continuar a alimentar ilusões quanto à possibilidade de um Governo destes servir de base a uma política de esquerda. Afirmamos que tal não é possível, e que essas ilusões constituem mesmo um sério perigo para o desenvolvimento da luta do nosso povo.
Não somos, ao contrário dos reformistas, adeptos de pequenas alterações secundárias que deixam intacta a estrutura principal. Um grande buraco, constantemente minado, não se enche com pazinhas de areia. Elas somente permitiriam aguentar, e por pouco tempo, o buraco nas mesmas dimensões. Depois seriam mesmo insuficientes. Esta é a alternativa reformista. A nossa alternativa é mais demorada, mas mais segura. Queremos que deixe de haver buraco. E para isso precisamos de muitas pás grandes e vigorosas.

Somente uma nítida mudança quantitativa e qualitativa no movimento de massas, através da sua ampliação e radicalização poderão criar uma base segura para profundas alterações (necessariamente no Governo, na sua composição e orientação), as quais abrirão de facto uma via de esquerda. É no movimento de massas, no seu desenvolvimento, que reside a alternativa para a actual situação.

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