sexta-feira, 7 de julho de 2017

1977-07-07 - O Proletário Vermelho Nº 84

Editorial,
A EUROPA DOS FRANGALHOS E O COMPROMISSO HISTÓRICO

Estamos dizem geograficamente no continente europeu. O continente europeu está no Mundo de hoje. Terá a velha Europa de hoje algo a ver com a Mãe capitalista que foi — vista daqui — a revolução francesa? Terá este país de colonialistas e agrários broncos algo a ver com esta Europa? Tempos houve em que a oposição reformadora social-democrata chorava “que não”. Hoje não será desavisada desejar alegremente que não.
Nada de confusões: E preciso uni-la a esta Europa birrenta e traquinas! E urgente “fazer força nesse Mercado Comum a toda a brida"! Mas é mais urgente ainda acabar com os "estrangei­rados” e pôr fim à mania, que ainda é moda, de afinar por Paris os gostos sociais e as grandes soluções económico-políticas. E preciso uni-la, de resto, porque esfrangalhada.

Esta Europa é pois um frangalho, reduzida como está ao pedacito de queijo que funciona de isco às centenas de ratos do seu decadente capital sob o olhar vigilante do velho e chagado cãozarrão americano e do assanhado gato soviético.
A França e a Alemanha procuram desalmadamente exilar a crise como a um perigoso terrorista, tentando ao mesmo tempo manter o poder estatal nas mãos de mesma relativa minoria, dentre toda a cáfila capitalista. A Espanha e a Itália, por seu turno, percorrem ao contrário, a mesma estrada da História: enquanto Berlinguer caminha para o “governo de salvação nacional” tentando reeditar à nova medida dos tempos, o governo democrata cristão do post-guerra com Togliatti; Suarez bate-se desesperadamente para resistir à pressão fatal e conjunta da oposição de Gonzalez, com o ameaçador mas “desinteressado” apoio dos votos de Carrillo.
A ribalta do capitalismo europeu mantém-se assim vazia após a saída dos “ianques” pela “esquerda baixa”, enquanto no fundo do palco, em tumulto, os vários candidatos se vão desferindo os golpes mais soezes e traiçoeiros à compi­ta para lhe ocupar o posto, não hesitando a sua maioria em estender — para isso — a mão esmolar ao huno Brejnev.
Dificultado o secular abastecimento gratuito de matérias-primas dos “bons velhos tempos” do colonialismo, perante o galope incessante do Terceiro Mundo para a independência e o controle dos seus próprios recursos; de mãos nuas face à pressão dupla da sua própria classe operaria — na fábrica e nas eleições - os velhos capitalistas desta Europa em camisa apoiam os ossos ameaçados no ninho confortável do “eurocomunismo”, esperando que as hordas de Brejnev lhes poupem assim um apodrecer “decente”.
Aqui e ali, reaccionários e desajeitados, erguem-se por vezes os “Velhos do Restelo” pregando as “antigas virtudes”, o governo forte e a "ordem, disciplina e trabalho”. Fazem contagens de árbitro ao boxeur derrubado como se ele pudesse erguer-se perante o sortilégio do número 10 que assinala o knock-out. Em vão.
E a classe operaria? A classe operária desta Europa que já ajudou a apear Maria Antonieta, ajoelhou Hitler, Mussolini e o fascismo? Os trabalhadores que defenderam a liberdade, a igualdade e a fraternidade ao lado do “libertador americano” até à euforia do post-guerra? Os construtores do “desenvolvimento”?
A classe operária COMEÇA A PERCEBER AGORA DONDE SAI O PERIGO E A BARBÁRIE! Começa, lentamente, a reconhecer nos “serviços de ordem” dos “eurocomunistas”, que enquadrados pelas polícias de choque combatem e atacam as manifestações não PC, o inimigo principal. Começa AGORA a perceber. E — mas com que ganas - ainda que fraca para agir independente, confusa para se unir o bastante. Mas lá vai.
Os dogmas, os velhos dogmas da “revolução barata” afundam-se lentamente com os torreões abalados da velha ordem mundial. Deles nasce a consciência determinada e decidida tal como a manhã brilhante sai do ventre da noite borrascosa.
Os povos colonizados na sua marcha para a liberdade trouxeram aos seus irmãos da Europa o sinal dos novos tempos, acordaram-lhe as energias embotadas. Assim seja agora rápida a sua fermentação. Assim o aço se tempere de novo no cadinho da luta contra o novo Hitler. A situação avizinha-se excelente.
O “eurocomunismo” é, já hoje, bem mais um sintoma da traição das burgue­sias nacionais perante a defesa da bandeira da independência, que propria­mente a pílula dourada de Moscovo para fazer passar a sua linha de opressão.
E isto, é este aspecto da desunidade da Europa que reforça os produtores em torno da liberdade, que lhes mostra confundidos na mesma amálgama o ameaçador invasor e a apavorada donzela que é a sua velha burguesia. O “compromisso histórico” que se apresta a ganhar formas de governo traz no seu seio o gérmen da destruição final dos velhos e novos senhores.
Até lá, é preciso trabalhar pela unidade contra a divisão. É preciso enfraquecer o lúgubre matrimónio da traição e jamais reforçá-lo. É preciso retardar habilmente a última manobra da traição e fazer perecer nela, depois do exército invasor, o estado maior do colaboracionismo. Pois que se cada povo deste continente irá ter, a breve trecho, o seu Pétain, importa que se não volte a permitir que o seu De Gaulle se refugie fora da pátria. Pode depender disso o chegar o Mundo mais cedo ao fim da pré-história capitalista em que vivemos todos.
A esta mesma luz, devemos fazer mover o sentido das coisas no país em que nascemos, hoje mais perto da Europa, amanhã seu filho entre os melhores. Para isso importa que não nos atasquemos no seu esfrangalhamento, de modo a não sofrer como mais fracos os piores efeitos dos abalos que se avizinham.

Facto que não passa pelo isolamento mas pela definição de uma identidade nacional contra as importações de modas e maneirismos alheios. E isso o que nos deve separar dela. É esse o melhor serviço a prestar-lhe no futuro pouco distante que se aproxima.

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