sexta-feira, 7 de julho de 2017

1977-07-07 - Luta Popular Nº 551 - PCTP/MRPP

«LIBERDADE DE INFORMAÇÃO»
ILUSÃO A DESMASCARAR

«Os capitalistas (e, atrás deles, por inconsciência ou por hábito, muitos socialistas revolucionários e mencheviques) chamam 'liberdade de imprensa' a uma situação em que, a censura foi suprimida e todos os partidos, sem quaisquer entraves, editam os seus jornais.
Na realidade, isto não é liberdade de imprensa, mas a liberdade para os ricos e a burguesia enganarem as massas oprimidas e exploradas do Povo.»
Lenine escreveu estas palavras em 1917 — mas, se substituíssemos «socialistas revolucionários» por «socialistas» e «mencheviques» por «revisionistas», estas duas frases poderiam ser o correcto comentário após leitura do projecto Roque Lino, que o nosso jornal publicou integralmente a semana passada.

Nesse projecto fala-se muito em «imprensa livre». E, em nome dessa «liberdade de imprensa», o Secretário de Estado, que preconiza o despedimento de dois milhares de trabalhadores para não gastar dinheiro com os jornais nacionalizados, defende a atribuição de subsídios à imprensa privada, para que «os jornais não sejam desde já todos inviáveis».
Baseia-se para isto o sr. Secretário de Estado — freneticamente aplaudido pela direcção do Sindicato dos Jornalistas, «o diário» da manhã e o «simplesmente democrata» Raul Rego, além de pelo Grémio da Imprensa não diária, como é evidente — no facto de que a Constituição consigna «o direito a informar e a ser informado».
O que nem ele, nem ninguém dessa corja de falsos «socialistas» e falsos «comunistas» quer saber, como não o quiseram quando elaboraram essa Constituição, a quem serve, quem detém, esse «direito a informar».
É que, como disse Lenine, «não se trata de liberdade de imprensa, mas da sagrada propriedade que os exploradores têm sobre as máquinas e as reservas de papel que estão em seu poder».
O leitor, que conhece a luta sem tréguas que temos tido que manter para publicar o nosso jornal, os problemas que enfrentamos, que tantas vezes foi chamado a subsidiar o jornal da verdade, compreendeu já que, na prática, esse artigo constitucional do «direito a informar» só é bom para quem tem dinheiro e, com o dinheiro, consegue máquinas e papel. Como o compreendeu já qualquer operário, qualquer trabalhador que, na sua empresa, em períodos de acesa luta, editou ou quis editar um jornal de luta.
Quem tem, portanto, o «direito a informar» no nosso país? O grande capital, os grupos económicos privados, os social-fascistas subsidiados pelo KGB. Aqueles, precisamente, que pretendem enganar a classe operária e o Povo por todos os meios, e que ao Povo não interessa ler. A classe operária, os trabalhadores em geral, se querem editar um jornal tem de fazer mil sacrifícios para conseguir o dinheiro necessário e ficam sujeitos às disposições das tipografias que a burguesia detém.
Levando aos últimos extremos a sua posição burguesa sobre «liberdade de imprensa», o dr. Roque Lino apresenta até tiragens mínimas necessárias à concessão dos subsídios que, segundo ele mesmo, são indispensáveis à existência de uma «imprensa livre». Não vá algum trabalhador mal intencionado exigir subsídios para editar em tipografia um jornal de luta.
O dr. Roque Lino — e, antes dele, o sr. Manuel Alegre, e, com eles, toda a burguesia — afirma pois, muito claramente, que «o direito a informar», a «liberdade de imprensa» são para os ricos. Os que já têm dinheiro para o papel, passarão a tê-lo mais barato. Os que já têm dinheiro para editar um jornal, poderão difundi-lo com menos custo. Quanto aos outros, aos que não o têm, o melhor é calá-los, não vão ser «subversivos». O nosso jornal não só não beneficia de qualquer medida de apoio como «beneficia» largamente de multas.
A nossa posição sobre liberdade de imprensa é, evidentemente, o oposto desta. Nós defendemos a verdadeira nacionalização das tipografias e dos «stocks» de papel, para que a eles tenham acesso todos os partidos políticos e grupos de 100 trabalhadores ou cidadãos, além de subsídios estatais para a distribuição. Só assim «o direito a informar» será um direito de todo o Povo, só assim «o direito a ser informado, não consistirá apenas no direito a ser enganado em vários tons pelos vários sectores da burguesia. Uma determinada povoação enfrenta um problema para o qual é necessária a mobilização de todos os moradores? Pois bem, a Comissão de Moradores poderá editar um jornal, terá o seu papel e uma tipografia para o compor. Os trabalhadores de uma empresa em luta querem editar um jornal? Pois bem, podem fazê-lo! Podem fazê-lo em igualdade de circunstâncias com o patronato, que tem os jornais burgueses à disposição. Os trabalhadores da Imprensa precisam de se defender dos ataques que lhe são desferidos pela Secretaria de Estado? Pois bem, têm papel e máquinas para o fazerem!
Esta é a solução proletária para a «liberdade de imprensa» — e, como é óbvio, não convém nem um pouco à burguesia. E é por esta solução que temos de lutar, porque o «projecto Roque Lino» não é apenas contra os trabalhadores da Informação mas contra todo o Povo, e só unindo-se a todo o Povo na luta por uma Informação verdadeiramente livre, os trabalhadores do sector podem ver resolvidos os seus problemas de desemprego, de tome e de miséria, contra os quais se erguem desde já, ultrapassando as estruturas que os querem trair — direcções sindicais e Comissões de Trabalhadores vendidas — pela criação de Comissões de Luta.

E que é urgente ultrapassar todas essas estruturas infiltradas por social-fascistas torna-se perfeitamente evidente ao ler o tristemente célebre «diário» da manhã que, aplaudindo a mãos ambas as «medidas de apoio à imprensa» do Secretário de Estado, clama sim... contra o nosso jornal, apelando para uma verdadeira «caça às bruxas» a fim de saber como obtivemos o projecto Roque Lino. Tal é a «liberdade de imprensa» que defendem...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo