quarta-feira, 5 de julho de 2017

1977-07-05 - A LISNAVE HOJE - PS

A LISNAVE HOJE

CADERNO - 3
Partido Socialista 
5 Julho de 1977

1 - A MANIPULAÇÃO E O CACIQUISMO
À falta de argumentos sérios, da parte de grupos vários do estaleiro, são os socialistas da Lisnave acusados de, pelo seu silêncio, estarem a dar cobertura a política do actual C.G.T.
Julgam os socialistas da Lisnave que o C.G.T. não precisa nem do apoio dos socialistas nem - é evidente - dos seus ataques. O que o C.G.T. precisa é de uma actuação coerente e consciente em prol de todos os trabalhadores, assim como todos os trabalhadores precisam de assumir, agora mais que nunca, um papel de intervenção consciente, democrática e livre.

Mas será livre a intervenção na Lisnave?
Pensam os trabalhadores socialistas que a manipulação e o caciquismo políticos não abandonaram ainda a prática extremamente dolorosa sentida na Lisnave desde o verão de 1974 e, sobretudo, no decurso de 1975.
Por outro lado, sentem os trabalhadores da Lisnave que o ambiente vivido no estaleiro é preocupante em vários domínios, nomeadamente, sobre INFORMAÇÃO - ACERTOS SALARIAIS - CONDIÇÕES DE TRABALHO - SEGURANÇA DOS POSTOS DE TRABALHO.

2 - A VERGONHA E A DESVERGONHA DA ”INFORMAÇÃO”
Os trabalhadores da Lisnave lá vão pagando - são sempre os trabalhadores que aguentam - a provocante (des)informação que lhes é "servida" através de uma publicação que se chama "o estaleiro", Ler esta publicação "apartidária", "independente" e "verdadeira" é como se lêssemos o "Diário" , o "Avante" ou o "Extra Apostado na luta sistemática contra o governo P.S., o actual C.G.T., em desespero de causa, não  é "outra bandeira para atacar nem tem outras notícias para transmitir nem outras informações para prestar aos trabalhadores da empresa senão a demagógica e para eles tradicional atitude antidemocrática de denegrir, provocar, dividir, e arruinar o prestigio de quem quer trabalhar por um país livre, independente, democrático e, sobretudo, com regras claras que sejam do conhecimento de todos, ao contrário do que foi a prática, muito especialmente em 1975 em todo o país e ainda é em muitos lados, como na Lisnave, especialmente no que respeita aos órgãos dos trabalhadores.
No número de Maio de "o estaleiro" o sr. director da revista, pessoa dos mais amplos números, tem a extrema desfaçatez, a vergonhosa ousadia e o mais descarado arrojo afirmar na página central que "seiscentos mil trabalhadores (e não 100 mil como afirmou a R.T.P.) encheram o estádio 1º. de Maio" nas comemorações do Dia dos Trabalhadores. Quem poderá acreditar em tal director e em tal C.G.T. que consente neste tipo de informação? Saberá o sr. director que num espaço de 250mx150m só caberiam 120.000 pessoas desde que estivessem 4 em cada metro quadrado?
Será então esta a verdade a que temos direito?
Mas então porque é que a revista não esclarece os trabalhadores da Lisnave sobre o que se passa na empresa?
- Porque não fala sobre as horas extras em 1976 que atingiram mais de 1.200.000; mais de metade foram trabalhadas em sábados e domingos e cujo valor foi de mais de 220 mil contos?
- Porque não se presta informações sobre o número médio diário de trabalhadores em "desemprego interno"?
- Porque não informar os trabalhadores de que a empresa está a pagar mensalmente dezenas de milhares de quilómetros em carros particulares?
- Porque não informam os trabalhadores das contas referentes ao C.G.T. em 1976 e das suas justificações?
- Porque não informam os trabalhadores dos milhares de quilómetros pagos ao C.G.T. pelos cofres da Lisnave, em 1976?
- Porque não informam os trabalhadores das contas de hotéis e de refeições pagas por todo o país em número superior às pessoas deslocadas?
- Porque não se mostra aos trabalhadores a realidade económica e financeira da empresa a que estamos ligados? Será com a intenção de não alarmar os restantes trabalhadores?
- Porque não se relata o trabalho da busca de novos clientes e de novos mercados?
- Porque não se informam os trabalhadores do que se passa nos estaleiros de outros países?
- Porque não se alargam os horizontes da informação para o progresso cultural, científico e social do trabalhador português em geral e do trabalhador dos estaleiros em particular?
- Porque se estupidifica o trabalhador com uma informação mentirosa, doentia, grosseira e abjecta?
- Porque não se diz que dinheiro da nossa Caixa de Previdência é utilizado para ir aos curandeiros das Filipinas contra a opinião dos especialistas?
Trabalhador que nos lês, todos temos direito a uma informação séria como o determina a Constituição da República.
O C.G.T., que se tem arrogado defensor constante da Constituição, não conhece, na sua prática permanente, outra atitude que não seja calcar com os pés e a cabeça essa mesma Constituição.
Os trabalhadores socialistas perguntam qual o papel do Delegado do Governo na Lisnave quando é certo que a ele lhe compete defender os interesses do Estado, em nome de todo o povo Trabalhador, e não os interesses inconfessáveis de alguns demagogos.
Temos direito a uma informação correcta e objectiva e o Delegado do Governo não pode consentir que com o dinheiro de todos nós se pague a desinformação a que não temos direito.
Basta sr. Delegado do Governo. Basta senhores do Conselho Geral de Trabalhadores.

3 - O "LEQUE SALARIAL" E "PORTARIA VERTICAL"
A prática do actual C.G.T. não consegue mais do que "fabricar" MOÇÕES de repúdio às acções governativas de António Bar­reto, Mário Cardia, Maldonado Gonelha, só porque eles procuram legislar para todos e não para alguns, e MOÇÕES de apoio a sua própria sobrevivência e à da Comissão do Leque.
Os trabalhadores da LISNAVE já se aperceberam de que aquela Comissão se encontra num "beco sem saída" face às negociações com a administração. E PORQUÊ?
1º - porque a incompetência, o fascínio do poder e o sectarismo não lhes permitem maior flexibilidade (o seu recente comunicado de 30/6 é disso prova).
2º - porque julgando-se donos do pensamento dos trabalhadores estão a utilizar o mais condenável processo: O SILENCIO.
3º - porque seguindo a tradicional política aprendida junto de partidos totalitários resolvem utilizar a mentira e o confucionismo.
TRABALHADORES DA LISNAVE!
Em nome da verdade, os camaradas socialistas da LISNAVE tem de desmascarar toda a situação. Resumidamente o que se passa e se passou e o seguinte:
1 - O Grupo do "Leque Salarial" pressionado pelos trabalhadores e muito especialmente pelo abaixo assinado que corria nos Estaleiros, e devido ao silêncio do grupo, viu-se na obrigação de encontrar uma saída lançando assim um comunicado NADA ESCLARECEDOR e convocando uma Assembleia de Delegados.
2 – O Grupo do "Leque" esta de posse da contraproposta da Administração desde meados de Junho e em vez de a transmitir com clareza aos Delegados, preferiu fazer uma manobra de diversão ocultando aos trabalhadores o seu conteúdo.
3 - Enquanto no comunicado se depreende que está garantido a passagem automática de categoria para os oficiais de 3a., 2a. 1a. e Especiais, o grupo do "Leque" afirmou que os outros trabalhadores também "certamente" subirão de categoria para valores equivalentes. Por outro lado foi afirmado que os valores para onde subirão não serão os que vem no comunicado mas sim para limites superiores dado que eram os exigidos ao patronato por altura das negociações do Contrato Colectivo Vertical e que ainda são hoje a exigência do Movimento Sindical a partir da manifestação de Junho. Mas alguém estará convencido que os movimentos de rua fazem lei? Mas Portugal tem instituições democráticas ou vivemos numa constante anarquia?
4 - O grupo afirma no comunicado, e repetiu-o na Ass. de Delegados, que as negociações estão dependentes da aprovação do horário proposto pela Administração. Porque razão o C.G.T. e o grupo do "Leque" ocultaram tal horário?
5 - Segundo o grupo informou, a Portaria Vertical acarreta à LISNAVE um encargo de cerca de 160 mil contos por força do novo regime de turno, o que significa para os trabalhadores da produção um acréscimo de perto de 15%. O grupo do "leque” afirmou que se os trabalhadores não quiserem trabalhar em turno a Administração não teria outra alternativa se não criar novos subsídios ou prémios para o trabalho nocturno. Será esta a política de harmónio defendida pelo C.G.T. e pelo grupo do "Leque"?
6 - Apresentada por um delegado uma proposta para a realização de uma A.G.T. (assinada por mais de 1.100 camaradas de trabalho) foi aquela rejeitada para discussão por força dos votos obedientes dos "defensores" da Constituição, da Democracia e das Liberdades. Como se um documento assinado por número tão significativo não devesse ser discutido.
7 - O grupo do "Leque" lançou uma proposta - que foi aprovada por maioria - para se realizarem Assembleias de Sector com a única finalidade de esclarecer os trabalhadores sobre as negociações.
Perante o comunicado de 30/6 que nada clarifica e perante as dúvidas que naquela A.G.D. ficarem por esclarecer, é muito provável que continuemos a viver com incertezas se não houver a coragem de publicar na íntegra a contra-proposta.
8 - Sentimo-nos na obrigação de afirmar que o grupo está a usar de má-fé, esta a provocar o descontentamento, está a seguir uma política de sectarização que em nada se ajusta com as aspirações democráticas do povo; está a pretender tirar partido de tudo isto para endossar para outros o problema. Aguardemos.
9 - Qualquer que seja a solução que vier a ser encontrada, desde já deixamos bem claro que um acordo entre as partes terá de obter a adesão democrática de todos os trabalhadores da empresa, e tal só será possível desde que se proceda a votação secreta livremente assumida por todos os trabalhadores.
10 - FINALMENTE, os trabalhadores socialistas dizem NÃO AO FIM DAS DIUTURNIDADES
Queremos ainda afirmar o direito irrenunciável as DIUTURNIDADES por força de um regulamento que foi apresentado a todos os trabalhadores no acto da admissão na empresa e que por isso mesmo, constitui um direito que não pode ser retirado.
As diuturnidades não são um estímulo demagógico mas o reconhecimento da permanência em serviço e da competência e especialização que assenta no trabalho ao longo de anos.

NÃO AO FIM DAS DIUTURNIDADES
Por outro lado é uma escandalosa mistificação o argumento do grupo do "Leque" propor ou aceitar o fim às diuturnidades invocando a Portaria Vertical. O nº 2 da cláusula 117 afirma que "por efeito da aplicação das disposições deste contrato não poderá resultar qualquer prejuízo para os trabalhadores, designadamente baixa de escalão, diminuição de retribuição ou regalias de carácter permanente anteriormente estabelecidas pelas entidades patronais".

4 - PANORAMA ACTUAL NOS ESTALEIROS DA LISNAVE
E característica dos demagogos profissionais lançar a confissão e criar permanentes situações de tensão para, a distância, poderem obter certos "triunfos". Para esses que têm uma noção de democracia diferente da nossa, tudo e legitimo para alcançar os seus objectivos. Só que, quando alcançam o poder dos povos, abatem-se todos os que não perfilham a sua ideologia, sofre-se a tirania mais implacável, arranjam-se argumentos absurdos para destruir e aniquilar pessoas, forjara-se "heróis” de urgência... tudo em nome do povo, da liberdade e da democracia. E como a memória dos povos e por vezes curta, convém relembrar o que foi no nosso estaleiro a onda destruidora, anarquizante e golpista de uns tantos que conseguiram pouco ai pouco silenciar milhares de camaradas de trabalho.

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- São lançadas acusações à política comercial da administração no que toca à prospecção de mercados. Os trabalhadores têm o direito de saber o resultado das constantes visitas dos nossos técnicos ao estrangeiro. Temos o direito de saber os resultados dos orçamentos propostos pela empresa. Temos o direito de saber em que posição estamos face aos outros estaleiros internacionais nossos concorrentes.
- Corre o boato de que nos 4 ou 5 primeiros meses deste ano, a LISNAVE apresentou largas dezenas de milhares de contos de prejuízo. Entretanto são milhares os trabalhadores que vêm em sábados, feriados e domingos. Há centenas de trabalhadores que prolongam da 1H às 8H, sendo o horário de saída à 1 H. Ora, se assim é, qual a justificação moral, social e económico; para não se criar um turno da 1H às 8H?
Só na semana do feriado municipal fizeram-se cerca de 80 000 horas extras quando a media de semanas anteriores não ultrapassava as 40 000 H.E.
- Perante a existência de centenas de milhares de desempregados em todo o país parece-nos que os casos que a seguir indicamos constituem uma autêntica afronta:
* mais de 25% dos trabalhadores da empresa tiveram rendimentos em 1976 correspondentes a valor igual ou superior a 20 meses de ordenado base.
* dezenas de chefes, a todos os níveis, receberam em 1976 mais do que os 14 meses de vencimento. Diversos de entre eles chegaram ou ultrapassaram o valor de 20 ordenados base.
* sendo certo que o ordenado de 9 200$00 é aquele que contempla cerca de metade dos trabalhadores da LISNAVE, e igualmente certo que aproximadamente 25% destes recebeu em 1976 o equivalente a 20 ou mais meses de vencimento, proveniente de horas extras, prémios diversos, retroactivos etc.

CONCLUSÃO
É evidente que o custo de vida tem aumentado acima de valores ACEITES mas não podemos também ignorar que muito do desarmamento económico verificado desde o 25 de Abril de 1974 se ficou a dever a acções cujo objectivo final visava destruição social e económica, primeiro passo para a conquista do poder por meios não democráticos. Assim, ainda hoje os dinheiros públicos pagam em muitas empresas as consequências de políticas menos correctas.
CAMARADAS,
Quisemos pôr à consideração de todos, circunstâncias e números que nos preocupam. Todos os trabalhadores deverão reflectir e discutir sobre os pontos aqui abordados.

NÃO AO GOLPISMO
NÃO À ALIENAÇÃO
SIM A UMA INFORMAÇÃO CORRECTA
SIM À PRÁTICA DEMOCRÁTICA
SIM À LIBERDADE
EM FRENTE PELO SOCIALISMO


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