terça-feira, 4 de julho de 2017

1977-07-04 - O Comunista Nº 42 - II Série - UCRP(ml)

EDITORIAL
NO RESCALDO DE 22
UM BALANÇO POSITIVO PARA O SOCIAL-FASCISMO

A semana foi marcada pelo retomar dos trabalhos da Assembleia da República. A «maratona» de documentos a aprovar começou. O hemiciclo de S. Bento voltou a chamar as atenções políticas nacionais. Os primeiros diplomas começaram a passar com a concretização da unidade antifascista» das bancadas do PS e do «PCP», como seria de esperar nos assuntos agora debatidos. Os principais documentos — o Plano 77-80 e a «Lei Bar­reto» — não estão ainda em liça, e as principais provas de força, consequentemente, ainda estão para vir.

Entretanto a situação política veio ser apanhada subitamente pelo estoirar, em público, da crise interna no seio do partido do governo, após a reacção desencadeada pela F.A.U.L. ao 1º Encontro da «Fraternidade Operária», crise cuja conclusão terá importantes repercussões no seio das classes dominantes. Em maior ou menor grau, estes e outros acontecimentos prendem-se com o rescaldo dos acontecimentos do dia 22 e é necessário realizar o seu balanço provisório.

Um repto frustrado
Não houve ainda da parte do Governo um comentário público, claro, acerca das repercussões das manifestações do dia 22. Tudo indica que, tal como em relação às conclusões da Conferência Nacional do P«C»P, o maior silêncio dos deuses se faça.
É nos bastidores políticos, nos encontros a dois, que os chefes políticos da burguesia fazem contas à semana e medem as forças. Apenas no jornal oficioso do governo, um repto haveria de ser lançado por João Gomes. O «D.N.» propunha-se apelar a uma manifestação da «maioria presidencial» em Belém, no dia 14, por alturas do aniversário da tomada de posse do presidente Ramalho Eanes. Mas Eanes foi claro. Eanes não se sujeita, nas circunstâncias políticas actuais, a medir as filas, verificar os cálculos a ver se a Av. da Liberdade e o Terreiro do Paço cabem na Rua da Betesga, ou quantos por cento do eleitorado enche Belém, coisas do agrado de certa imprensa burguesa tentando minimizar a escalada do social-fascismo.
Eanes não se arrisca a confrontar as provas de força de que, não se dispõe a lançar mais achas para a fogueira, preservando na sua missão de «medianeiro» na cena política nacional.
Também no que toca às relações entre o governo e a «convergência» não se verificaram alterações importantes por agora. Carneiro e Amaral repetiram, recentemente, os seus pontos de vista e continuam a insistir num presidencialismo como tábua de salvação para a sua táctica defensiva. No entanto, o PS procurará explorar contradições no seio da «convergência». Em particular a declaração de Sá Carneiro produzida à saída do encontro com Soares, de que não teria sido estabelecido um acordo sobre a próxima votação do projecto do Plano 77-80 entre o PPD e o CDS, poderá favorecer as negociações do PS em separado com cada um desses partidos. Em particular a abstenção na votação de um deles sobre tão importante documento, o que interessaria ao PS.

Uma exigência cada vez maior
Os cálculos do «Jornal Novo» esforçaram-se por reduzir à insignificância a realidade das manifestações convocadas pela CGTP/Intersindical. Simplesmente, em política, muitas coisas não se entendem contando só filas e fazendo cálculos matemáticos. Um significativo sector de trabalhadores portugueses, largas massas de activistas sindicais dos centros industriais e rurais, dezenas e dezenas de elementos hesitantes partidários do PS foram manipulados pelos social-fascistas. Também se a conversa de Gonelha teve algum resultado efectivo, ele saldou-se pelo empurrar de muitos partidários do PS e elementos sem partido para os braços das bandeiras demagógicas da Intersindical.
Gonelha falou aos écrans sobre a manipulação da Contratação Colectiva de trabalho pelos sindicatos afectos ao Secretariado da Inter, e denunciou que fins políticos estavam por detrás dos slogans «contra a crise» agitados nas manifestações de 22. É um facto que o partido social-fascista e a CGTP não defendem os interesses dos trabalhadores, não lutam pelas suas reivindicações de classe, como já aqui o denunciámos com dados concretos. Mas, que poderia oferecer em troco Gonelha na sua conversa, senão aquilo que ofereceu? Os «imperativos da economia nacional» que o povo já bem sente na pele: limitação dos aumentos salariais a 15%, enquanto o custo de vida já vai em 30%, congelamento da contratação colectiva por ano e meio. E a concluir rematou Gonelha que as «medidas de austeridade não têm sido excessivamente gravosas para o povo»!
Sectores das massas que em 75 e 76 fizeram frente à escalada social-fascista, pondo esperanças no governo PS, acumularam nestes últimos meses uma amarga experiência, compreendendo que as promessas sociais do PS não passaram de eleitoralismo barato.
Repudiando a política governamental esses sectores procuram uma saída para a satisfação das suas reivindicações de classe. O social-fascismo espreita, e agitando bandeiras demagógicas, usando o aparelho sindical, procura manipular esses sectores das massas, cuja experiência política ainda não foi suficiente para repudiarem as armadilhas do social-fascismo. Mas o caminho da luta de classes, a saída popular para a crise não brota do chão espontaneamente. A ausência de um Partido marxista-leninista, ligado às massas e aos seus activistas, é uma das fraquezas do nosso movimento. Toda a enormidade do crime, da traição, sabotagem e divisão do movimento marxista-leninista perpetrada pelos neo-revisionistas de esquerda e de «direita» fica bem a claro nas actuais circunstanciais. O seu papel têm sido fazer a cama para empurrar as massas, em época de crise, para os braços do fascismo ascendente, do social-fascismo.
As nossas responsabilidades são pois enormes. É uma exigência cada vez maior da situação, edificar no seio das massas o Partido Comunista, apontando a saída popular para a crise, mobilizando o povo em torno das suas reivindicações de classe.

«Conversas positivas»
Os argumentos de peso joga-os o social-fascismo nos bastidores.
Muito sobre a hora, Cunhal encontrou-se com Eanes e mais tarde com Soares. Na imprensa burguesa transpirou o que já é habitual: Cunhal acenou o cha­mariz da «batalha de produção», decretada pela Inter e expôs a moeda de troca actual: «deixar estar as formações económicas como estão». No quadro dessas «conversas positivas», como as considerou Cunhal, tem particular importância ressaltar um aspecto das conclusões da Conferência Nacional do partido social-fascista, que ainda aqui não abordámos. Após alguns meses de silêncio o «Avante» volta a tocar a tecla dos «militares patriotas». As conclusões da Conferência dizem, a esse propósito, expressamente: o «PC» «continua a considerar a aliança do Povo  (leia-se, deles) com as Forças Armadas como um dos esteios fundamentais do regime», e como uma das condições da Plataforma de «alternativa democrática».
Depois de ter, após o 25 de Novembro colocado a ala meloantonista na sua órbita, o social-fascismo procura dividir os sectores hesitantes das cúpulas militares em relação à direita militar tradicional, e em particular fazer o cerco ao grupo de Eanes, interessando-o no projecto da burguesia burocrática. Esta táctica envolvente é bem manifesta quando o próprio partido social-fascista aprova a moção apresentada pelo PS na A.R. de saudação a Eanes pelo 1.° aniversário do seu mandato. As informações são poucas para saber até onde germina a crise nas cúpulas militares burguesas. Mas assumiram projecção politica os alertas do coronel Trindade em Mafra, logo ampliados pela  imprensa afecta à «convergência».

Que fim para a crise no seio do PS?
O 1.° Encontro da «Fraternidade» veio deixar cair a máscara de Cardoso e Kalidás, A sua táctica ficou clara: deixar cair o PS de maduro nos braços de Cunhal. Em resposta no dia 28, a Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) do PS abre a crise em público, exigindo que e direcção do partido tome uma posição enérgica. Jaime Gama, membro do Secretariado do PS, repetiu à RDP o essencial das posições do comunicado da FAUL. Resta, pois, saber se a direcção do PS, em particular a ala de «vocação medianeira» à Soares, arrisca expulsar Lopes Cardoso e o seu grupo. Até que ponto estão tais dirigentes do PS dispostos a cortar com os lacaios do social-fascismo, eis uma questão que os próximos dias esclarecerão. Até onde irão essas repercussões no seio da sua base sindical de apoio, e inclusive no seio do grupo parlamentar? Só dois caminhos se abrem à direcção do PS: ou cortar ou continuar a conciliar, permitindo que Cardoso conclua o seu trabalho.
Insuflados de ar pelas manifestações de 22, os trabalhos do 1.º Encontro da «Fraternidade» começaram a dar os seus frutos: colocar o dilema no seio da própria retaguarda do PS. Os resultados dessa prova de força no seio do partido do governo terão importantes repercussões na cena política nacional.

Uma alteração significativa
«A Luta», jornal oficioso do PS denunciou, há pouco tempo, as manobras urdidas pelo partido de Cunhal, no sentido de inverter no calendário de discussão dos diplomas as datas para o Plano 77-80 a para a «Lei Bar­reto». O debate público da «Lei Barreto», pelo prazo que tem, poderá a isso conduzir. Desse modo o social-fascismo ficaria em melhores condições para, negociar o Plano 77-80 e deixando passar o governo, exigir depois a contrapartida quando for a vez da «Lei Barreto».
Dando tempo ao tempo, o social-fascismo poderá explorar as tais «certas hesitações» no seio do PS de que falou a «A Luta» a propósito da «Lei Barreto» e das discussões havidas no seio da Comissão de Agricultura do grupo parlamentar do PS.
O balanço destas duas semanas é positivo para o partido social-fascista. Continua a ter a faca e o queijo na mão em relação à sobrevivência do PS e do Governo.

As massas populares têm de redobrar de vigilância e os comunistas marxistas-leninistas vêem maiores responsabilidades cair sobre os seus ombros na mobilização do povo em torno das suas reivindicações políticas e económicas.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo