domingo, 30 de julho de 2017

1977-07-00 - A Ideia Nº 07 - Anarquistas

carta à ex-ORA

Foi com considerável atraso que tomámos conhecimento da decisão tomada num vosso Encontro Nacional de mudar o nome da vossa organização de O.R.A.- Organização Revolucionária Anarquista, para O.C.L. - Organização Comunista Libertária. Não nos surpreendeu muito tal mudança, pois sabíamos que, ao longo dos anos, essa proposta era regularmente apresentada mas, e até então, nunca obtivera o consenso dos militantes.
Certamente que a mudança de nome em si pouco significaria se não simbolizasse qualquer coisa de mais profundo: o afastamento progressivo mas claramente perceptível da vossa organização da esfera tradicional do anarquismo, que vos levou a não mais vos sentirdes correctamente identificados com tal designação.

A designação "anarquista" está evidentemente carregada de sentido e de um significado ideológico - que nem vós nem outros podem modificar a seu belo prazer - com o qual vós concretizais agora o rompimento.
Vós reclamai-vos da herança do movimento histórico, recusando a sua ideologia, saltando alegremente sobre o facto - fundamental - de que se o movimento real foi o que foi, fez o que fez, isso foi devido a que ele veiculou, assimilou (e ao mesmo tempo foi produzindo, na sua prática) tal ideologia.
Vós quereis ser herdeiros (por que vos convém) dos insurrectos ucranianos, mas negar a bandeira negra com a divisa "Liberdade ou Morte", certamente muito carregada de idealismo...
Na vossa pública justificação vós acusais o anarquismo de hoje de estar afastado das lutas reais e banhar unicamente na esfera da ideologia, o que vós recusais. Assim, pois, nas pegadas de outros incautos, vós retomais a ideologia do "fim das ideologias", o "fétiche" do "concreto", a ilusão do "proletariado em carne e osso", o qual, evidentemente, se está nas tintas para o anarquismo, para o comunismo libertário ou mesmo para uma qualquer revolução!!
Vós haveis entrado no plano inclinado das "posições realistas". Antes de vós, muitos outros o fizeram também tendo acabado invariavelmente a reboque da mais venal política dos "partidos de esquerda".
O vosso engodo pelo marxismo, como explicação teórica do mundo, não é certamente estranho a tal evolução. Malatesta, Berneri, Fabbri, fizeram entre outros, a crítica - de um ponto de vista anarquista e revolucionário - de tais posições.
Não vos felicitamos pois pela decisão que haveis tomado. Mas, ela não é de facto senão o revelador de uma opção, de uma prática quotidiana, de uma lógica. Possa, no entanto, ela ainda arrepiar caminho!
Os verdadeiros anarquistas, os que querem sem conciliações a revolução social, o comunismo libertário, esses irão certamente afastando-se, a pouco e pouco, do vosso "marxismo libertário", mesmo à custa de serem acusados de idealistas, de utópicos.
Como Malatesta, nós também "queremos lutar e vencer. Mas como anarquistas, e pela Anarquia!"

Amigavelmente vossos,

O Grupo Editor de A IDEIA

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