terça-feira, 11 de julho de 2017

1972-07-11 - SOBRE OS FURAS EX-MILITARES - Movimento Estudantil

SOBRE OS FURAS EX-MILITARES

Decidiram os estudantes do Técnico eu R.G.A. de 29/6 a greve a todas as actividades escolares até à reabertura incondicional da Associação, até que o inquérito seja encerrado e as questões pedagógicas resolvidas. Isto teu sido levado à prática com firmeza pelos estudantes.
Em cumprimento desta decisão, foi interrompida a tentativa de fazer exame por parte de alguns ex-militares. Em face disto esses mesmos indivíduos resolveram fazer una reunião na qual compareceram 12 pessoas e da qual saiu um texto informativo a apresentar à R.G.A. seguinte.
Esse texto, em linhas gerais, afirmas a decisão de não fazer exames nas datas afixadas alegando, apesar disto, pretenderem não boicotar as decisões dos estudantes do I.S.T.; considerarem-se como alunos especiais e como tal não se sujeitarem às decisões de R.G.A.s nem discutirem nessas R.G.A.s. Afirmam ainda a determinação de fazerem exame fora das datas oficiais.

Assim, por estranho que pareça, ao mesmo tempo que afirmam, neste texto, não querer prejudicar o Movimento Associativo, decidem não se subordinar às decisões das R.G.A.s.
Na R.G.A. de 29/6, com mais de 1.000 estudantes, é decidida a greve a exames. A ser discutida a situação dos ex-militares e a carta referida, pronunciaram-se vários estudantes, entre eles alguns nas mesmas condições, que não concordaram com esse grupo. A R.G.A. decide que numa próxima reunião será discutido este caso e que até lá todos os estudantes estão vinculados às decisões ali tomadas.
Manifestava-se neste grupo, desde início, a disposição de não acatar as decisões da R.G.A., nem discutir o seu caso aí, alegando que a R.G.A. era "um grupo de putos”, "miúdas que não fazem tropa" e em geral "um grupo de carneiros".
No dia seguinte nova reunião "fechada", já que a alguns estudantes ex-militares foi difícil entrarem sendo inclusivamente insultados. Nessa reunião alguns estudantes desmascaram esse grupelho com pretensões a representar "um grupo com características específicas dentro do Técnico". Essas características seriam segundo eles: problemas familiares (mulher e filhos), não estarem em nenhum curso pois têm um plano de estudos diferente, já estão velhos para isto, etc.
Perante as críticas que lhe são movidas, prometem "fazer uma reunião bem convocada " e para isso é-lhes cedida pelo director do Técnico com todas as facilidades, a lista dos aproximadamente 200 alunos nessas condições. Apesar disso tal reunião acabou por ser bastante mal convocada, tendo sido a sua mesa formada pelo grupo inicial. Não tendo sido discutido nem explicitado em que consistia a especificidade do tal grupo, foi posto pela mesa à votação o seguinte; 1º - se o grupo tem problemas específicos? 2º - se neste caso se submete à R.G.A.s
Fazem nova informação a enviar a R.G.A. em que reafirmam o inicial; não se submetem às decisões de R.G.A. e propõem uma comissão para "dialogar" com uma comissão de alunos, com o fim de garantir que as decisões de fazer exame se cumpram.
Isto é o que em linhas gerais, tem acontecido com um conjunto de indivíduos e, objectivamente, se tem comportado como um grupo de furas organizado, promovendo a sabotagem das decisões colectivas dos estudantes do Técnico.
Por detrás dos "argumentos" destes indivíduos, qual a sua situação real? Encontram-se ao abrigo de uma Ordem de Serviço que lhes permite, durante um período superior a 2 anos após fazerem tropa, fazer exames sempre que o desejarem, bastando para tal contactarem com os professores. No caso de o prazo que lhes foi consentido terminar, passam à situação de alunos normais.
As posições demagógicas, oportunistas, e anti-democráticas destes indivíduos foram perfeitamente desmontadas pelas intervenções de alguns colegas na mesma situação e que declararam, submeter-se às decisões de R.G.A., não se considerando de modo nenhum em situação especial, como é bem evidente.
A posição correcta destas pessoas era a partir das suas reuniões expor as suas opiniões, em R.G.A. e submeterem-se às decisões aí tomadas democraticamente. Quanto às situações familiares alegadas (filhos, problemas económicos, etc.) elas são comuns a muitos estudantes do Técnico. Mas tais problemas não foram escamoteados. Antes, sim, consideraram os estudantes do Técnico, ao decidirem massivamente greve a exames, que os seus problemas particulares, que em muitos casos são semelhantes ou mais graves, se tornam perfeitamente secundários em face do objectivo comum e fundamental, de lutar pela reabertura da sua Associação, e da firmeza que devem revestir as formas do luta adoptadas.
Estão também conscientes os estudantes do Técnico que, a melhor garantia de, posteriormente à satisfação das suas justas reivindicações, resolverem em comum esses problemas, é garantir, neste momento, o cumprimento total da greve a exames.

A DIRECÇÃO
em colaboração com um grupo de estudantes matriculados ao abrigo Ordem de Serviço, e tendo em conta as suas opiniões e informações.

POSIÇÕES DO CORPO DOCENTE DE QUÍMICA
Considerando;
1 - Que são anormais as actuais condições de funcionamento do IST;
2 - Que a vida associativa não se deve processar em regime de coacção seja ele qual for;
3 - Que não é possível o funcionamento normal do IST seja abertura integral da AEIST;
4 - Que a realização de exames deve ser precedida de um período efectivo de aulas.
Elementos do Corpo Docente do Eng. Química do IST reunidos em 1/7/72
1 - Pedem ao C.E.
a) Que anule as datas do exame já marcadas e encerre as actividades escolares do IST enquanto não for restabelecida a normalidade escolar;
b) Que caso se restabeleça a normalidade da vida escolar e associativa na escola, marque um novo período de aulas o novo calendário de exames tendo em conta que o prolongamento do ano escolar não deve ir além de 15 do Novembro (aulas+exames);
c) Que suspenda o inquérito pedido no dia 4/5/72 o que a averiguação dos factos que obtiveram na sua origem seja feita pelos órgãos de participação da Escola;
d) Que solicite ao MEN que dissocie o problema da abertura integral da AEIST do resultado das averiguações acima referidas.
2 - Entendem que é urgente quer através dos órgãos já existentes ou de comissões "ad hoc" por eles nomeadas tentar resolver os problemas que se põem actualmente à escola.
Consideram importante para o funcionamento efectivo destas estruturas a participação do corpo discente da escola.
3 - Pede ao corpo docente e discente que colabore efectivamente nos órgãos existentes e a criar nomeando delegados e aceitando deliberações originadas em tais órgãos.

OS ESTUDANTES DO TÉCNICO ESTÃO EM GREVE A EXAMES!
Esta é a acção que neste momento possibilita continuarem de forma consequente a luta pelos seus objectivos, obterem a nível imediato a satisfação das reivindicações que tem vindo a formular: a reabertura incondicional da Associação e a revogação do inquérito instaurado pelo CE. Ela foi tomada após discussões aprofundadas havidas nos cursas sobre" todos os problemas que se levantavam à volta da greve a exames. Ela foi portanto uma decisão CONSCIENTE E FIRME.
Não devemos esperar que as nossas decisões sejam por si sés postas em prática, pelo simples facto de afirmarmos que não vamos aos exames. Os furas, os anti-associativos, estão sempre dispostos a boicotarem a luta dos estudantes, para salvaguardarem os seus interesses pessoais - interesses que se identificam com os ias autoridades em obrigarem os estudantes à passividade perante este ensino e esta sociedade e em reprimirem por todas as formas as tentativas de os estudantes se organizarem para a luta contra este estado de coisas. E não podemos esperar que estes senhores sejam ingénuos nas suas actuações: eles fazem-no de concerto com as autoridades e gozam da sua protecção e coadunam a sua táctica com elas, em todas as alturas.
E períodos de ”calmaria" os furas afastam-se sistematicamente das reuniões de estudantes (a discussão objectiva dos problemas não é o seu forte), tentando incentivar o desinteresse por essas reuniões. E a posição de quem ignora à priori os problemas dos estudantes. Quando a luta se desenvolve, quando os estudantes discutem as medidas mais correctas a tomar face aos problemas existentes surgem? então já organizados, tentando evitar que se tomem decisões esclarecidas: lançam provocações às reuniões (l), tentando gerar a confusão, ou então perguntam com "falas mansas” - "Têm a certeza de que vale a pena empreender essa luta? Não será melhor medir primeiro as consequências?" (2). Pretendem assim evitar, pelo medo, que os estudantes procedam à análise objectiva das medidas a empreender e, inclusivamente, das tais "consequências". Mas em vão. Os estudantes tem em conta as consequências das acções que empreendem, e tiveram-na neste caso ao discutir aprofundadamente nos cursos todos os problemas que se põem em torno de uma greve a exames. E essas discussões sé serviram afinal para reforçar a consciência e a firmeza das suas posições.
Uma vez tomadas as decisões, apregoam aos quatro ventos: "a democracia consiste em cada um fazer o que quer conforme a sua opinião". Ou seja: a "justificação" a priori das suas atitudes, negando agora explicitamente a validade das reuniões e das tomadas de posição colectivas - "cada um sabe de si" com base em argumentos "democráticos" e nas "liberdades individuais"…
De tal "democracia" e de tais "liberdades" são as autoridades e os professores a grandes (3) apreciadores, recebendo de braços abertos estes indivíduos, dedicando-lhes uma atenção muito especial. Procuram-nos nos locais mais recônditos para os seus exames nos gabinetes, nas caves, nas oficinas, por vezes mesmo nos cafés e em casa. Não admira: quer uns, quer outros, estão empenhados numa mesma "luta" contra as movimentações dos estudantes, face à aplicação da reforma e contra o encerramento da Associação. Outro ponto de apoio dos furas é a organização fascista "Frente Universitária", que sistematicamente calunia a lutas dos estudantes, enviando para casa panfletos anónimos como a famosa série "Caro Colega (l, 2, 3, 4, 5…)" e inclusivamente distribuindo papéis provocatórios na RGA em que se decretou greve a exames, onde a par de se afirmarem que estão fartos da "demagogia" associativa (?) apelidaram de carneirada (!) as massas estudantis, por ousarem prosseguir com firmeza a sua luta.
Perante as forças hostis ao nosso movimento - as autoridades, os furas - só podemos tomar uma atitude garantirmos por uma vigilância colectiva a passagem à prática das nossas decisões. É essa a missão dos piquetes, eles são a tradução organizada da nossa força no cumprimento das decisões colectivas. Eles deveu contribuir ainda para reforçar a compreensão da importância da luta que empreendemos, informando os menos esclarecidos, discutindo, organizando mais e mais estudantes para impedir os furas de levarem avante os seus propósitos anti-estudantis.
Temos que contar sobretudo com as nossas próprias forças, SÃO OS ESTUDANTES QUE LEVAM A PRÁTICA AS SUAS DECISÕES.

(1) Exemplo típico disto são as actuações de um grupo de furas do lº ano, com destaque para o Melo Ribeiro, já expulso das actividades associativas em RGA do 1º ano.
(2) também pudemos observar actuações deste tipo na RGA em que se decidiu por esmagadora maioria greve a exames.
(3) não estamos a incluir sectores, do corpo docente que tem apoiado a nossa  luta.

PRISÃO DE UM ESTUDANTE DO INDUSTRIAL
Manuel Rufino de 18 anos, estudante do lº ano do Instituto Industrial de Lisboa, quando acompanhado pela sua família se dirigia à PIDE exigir uma visita ao seu irmão Horácio Rufino, ex-estudante do ICL que se encontra preso desde o dia 4/6 ficou, sem motivo algum que o justificasse, preso. Esta prisão foi feita na sequência de ameaças e insultos à família pelos agentes da PIDE.

REALIZAÇÕES CULTURAIS

Orfeon Académico de Lisboa – 3ª feira, dia 11/7, em Económicas, à noite.

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