sábado, 8 de julho de 2017

1972-07-00 - Insurreição Nº 01 - CDD

INSURREIÇÃO
Nº 1 JULHO 1972

BURGUESIA TU TENS MEDO, TU ASSASSINAS O POVO.
Da prisão, um camarada dos movimentos de libertação das colónias portuguesas enviou-nos o seguinte documento:

Situação, dos presos políticos das colónias portuguesas em cadeias e campos de concentração:
Se alguns presos políticos das colónias portuguesas estão detidos nas cadeias de Peniche e Caxias, a sua maioria encontram-se nas cadeias centrais existentes em quase todos os distritos das colónias - antigas cadeias comuns, que a partir de 1961 se transformaram de prisões politicas, e sobretudo nos chamados "Campos de Recuperação" na realidade campos de concentração de modelo Nazi. Estes campos, em angola, encontram-se localizados em diversos distritos. Principalmente no Bié, em Moçâmedes, na Baia dos Tigres e Baia Farta, no planalto de Nova-Lisboa-Huambo o um Benguela, e eram antigos redutos de degredo que acolhiam os angolanos que por qualquer motivo caíam presos em rusgas dos colonialistas, e aí se tornavam mão-de-obra escrava utilizada como "regenerados" - trabalho prisional forçado. Também em Moçambique, na Guiné e em Cabo Verde, além das cadeias contrais utilizadas para presos políticos, existem campos de concentração, nomeadamente na ilha dos Porcos (Guiné), na ilha de S. Tiago - campo do Tarrafal - e na ilha do Sal (Cabo Verde Nestas cadeias e campos de concentração estão detidos, dezenas de mulheres e crianças africanas, vivendo em péssimas condições sanitárias, sofrendo de fome e doenças, sem qualquer assistência módica, sujeitos à feroz repressão dos carcereiros colonialistas e a barbaras torturas que causam a morte de muitos e a inutilização física de outros. Alguns são pura e simplesmente chacinados ou fuzilados.

E tudo se passa perante a ignorância ou indiferença das potências do Ocidental "mundo livre" que patrocinam o colonialismo português, e cujas organizações ditas humanitárias fecham os olhos e ouvidos aos apoios dos órgãos e comissões de apoio dos Movimentos de Libertação das Colónias Portuguesas que lhes denunciam os crimes cometidos contra os povos africanos. A cruz vermelha e outras organizações humanitárias internacionais tem frequentemente sido chamadas a observar e a denunciar o que se passa nas cadeias e campos de concentração colonialistas ou não o tem conseguido ou se recusam a faze-lo, ou então ricamente obsequiadas e pagas pelo governo capitalista português, falseiam descaradamente o que observaram e fazem relatórios elogiando as condições dos campos onde os patriotas vão sendo exterminados. Esta atitude das organizações ditas humanitárias não se explica apenas pelas valiosas remunerações com que o governo colonialista português as recompensa mas sobretudo porque sob o domínio Imperialista todos os meios de informação – rádio, T.V., imprensa - como todas as organizações beneméritas e humanitárias, foram criadas para servir os grandes Trusts capitalistas e fazer a "apologia do mundo livre".
O governo português (como também o de Espanha e do Brasil), repetidamente afirma não ter presos políticos, mas apenas malfeitores condenados pelos tribunais por actividades subversivas ou terroristas contra a segurança do Estado. Porém, o absurdo da afirmação é patente: se alguém se insurge contra a Constituição vigente num determinado país, é porque não está de acordo com o sistema politico por ela estabelecido defendendo a sua substituição por um sistema politico diferente, actuando portanto politicamente e sendo assim, uma vez detido, preso politico. E se mesmo nos mais democráticos dos países capitalistas que não subjugara directamente povos coloniais insurgidos, existem presos políticos, como pode Portugal, que oprime ferozmente e faz a guerra aos povos das colónias, que lutam de armas na mão pela independência, pretender não ter presos políticos.
Como chamar então as muitas dezenas de homens e mulheres, que nas cadeias do Forte de Peniche e de Caxias cumprem pesadas penas de prisão ou perpétuas "medidas de segurança" ou aguardar julgamento em tribunal político? E o que são a centena e meia de angolanos guineenses e cabo-verdeanos internados, muitos de há longos anos no Campo de extermínio do Tarrafal, na Ilha da S. Tiago, arquipélago de Cabo Verde? E não serão também presos políticos ou prisioneiros de Guerra as dezenas de milhares de africanos encerrados nas cadeias e campos de concentração de Angola, da Guiné e Moçambique? O cristão do “mundo ocidental" e as organizações internacionais, a Cruz Vermelha, a O.M.S., nunca terão ouvido falar destes presos, destas cadeias e destes campos de concentração? Nunca terão recebido quaisquer relatórios sobre o morticínios, as torturas, as privações, os vexames, as humilhações a que esses milhares de homens, mulheres e crianças estão sujeitas? Talvez prefiram "cristãmente" passar um véu sobre tais barbaridades.
O jogo das chamadas organizações humanitárias internacionais com o colonialismo português e os seus crimes e atrocidades patenteia-se bem nas declarações fornecidas, segundo a imprensa portuguesa, por um delegado da Cruz Vermelha Internacional, sobre as condições existentes no campo de concentração do Tarrafal-Cabo Verde, que seriam boas e de tal ordem que alguns dos presos se encontravam mesmo “em condições físicas de participar nos jogos olímpicos".
Talvez, este ilustre membro da C.V.I. que teria visitado o Tarrafal, nos pudesse esclarecer sobre o número exacto dos presos que aí se encontram, as suas idades, as penas a que foram condenados, quantos não foram submetidos a qualquer julgamento. E seria, bom então que nos descrevesse também as condições em que os presos vivem, as privações a que estão sujeitos, o rigor da opressão e repressão a que estão sujeitos. Neste caso, teria com certeza de devolver ao governo português os milhares de dólares que em troca recebeu.
E já não se fala nos métodos utilizados para extorquir declarações aos presos tais como, chicotadas, golpes com instrumentos cortantes, escorregamento de membros, de orelhas e de olhos, introdução de paus aguçados e cigarros no anus e no sexo, enforcamentos forçados dos presos uns aos outros, por vezes membros da mesma família, para o ultimo preso vivo acabar por ser barbaramente morto pelos torturadores.

DENUNCIEMOS OS CRIMES DO COLONIALISMO PORTUGUÊS.

Intensifiquemos a luta contra a burguesia:

Essa é a melhor solidariedade que podemos dar aos Povos das colónias.

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