sexta-feira, 23 de junho de 2017

1977-06-23 - Democracia 76 Nº 18 - CDS

EDITORIAL
O centrismo aqui ao lado

A esmagadora vitória da União do Centro Democrático de Adolfo Suarez nas últimas eleições espanholas, foi acolhida com grande e compreensível satisfação no seio do nosso Partido, A Espanha não só está a ser um exemplo de como se pede construir a democracia em paz, realçando pelo centraste a função perturbadora de sabotagem permanente que os comunistas têm desempenhado entre nós, como é um exemplo também pela escolha efectuada pelo povo espanhol que dá grande realce às forças do centrismo e da moderação.

As relações políticas do CDS encontram-se estabelecidas quer com os vários partidos que representam a Espanha na União Europeia da Democracia Cristã, quer, desde a sua constituição, com os centristas da coligação de Adolfo Suarez, onde, aliás, os democratas-cristãos têm também um papel influente. Referimo-nos, aqui, a Alvarez de Miranda, presidente do Partido Popular Democrata-Cristão que integra esta coligação e onde militam também importantes colaboradores de Suarez, como sejam os ministros do último Governo antes das eleições Oreja e Osório. Alvarez de Miranda que foi eleito deputado (por Palência) é um nosso velho amigo e companheiro, com quem Amaro da Costa se encontrou ainda recentemente, e que, como é sabido, abandonara há tempos a Isquierda Democrática de Ruiz Gimenez para fundar o seu próprio Partido e se integrar na vasta coligação centrista vencedora.
Quanto aos nossos parceiros na UEDC, a sorte bafejou apenas, como se previa, os partidos regionais do País Basco e da Catalunha, tendo o Partido Nacionalista Basco vencido as eleições na sua região (9 deputados democratas-cristãos) e a União do Centro e Democracia Cristã da Catalunha de Anton Caríellas feito eleger mais dois deputados.
As circunstâncias parecem, por isso, vir a favorecer a reunião dos democratas-cristãos em torno do centro, juntando-se aos que já lá estão, e dando ao Governo de Adolfo Suarez um apoio maioritário absoluto no Congresso espanhol e um apoio importante nas duas principais regiões espanholas que vêm reclamando autonomia. Dessa forma, a Espanha terá a grata experiência de uma sólida, vasta e coesa unidade governamental, que lhe pouparia nomeadamente os sobressaltos que a divisão dos portugueses causou a todos nós, culminando, afinal, um processo que já fora iniciado há muito e que, por isso, não poderia surpreender.
Poderemos, pois, tomar como seguro que os centristas e democratas-cristãos, membros da mesma família ideológica e política do CDS, terão um papel decisivo e destacado na construção do futuro da Espanha, no quadro da democracia, da justiça e da liberdade, consolidando e desenvolvendo os valores mais profundos da cultura e da consciência europeias. E poderemos também, por isso, considerar como certo que, doravante, as relações entre portugueses e espanhóis se tornarão, nesse quadro, mais profundas e profícuas para o futuro de ambos os povos e progresso dos respectivos Estados, assentando na estreita amizade, na defesa e na valorização da pessoa humana, no respeito mútuo, na solidariedade democrática.
É curioso verificar que, se Portugal ofereceu à Espanha uma lição, a Espanha paga a Portugal com um exemplo.
A nossa lição é a dura lição do sofrimento de quem não foi capaz de aceder em paz à democracia e teve que defrontar, com denodo e coragem, os comunistas e outros extremistas que, infiltrados na revolução democrática, mais não fizeram do que procurar subvertê-la em seu proveito totalitário, destruí-la e submeter-nos.
O exemplo com que a Espanha nos paga é o da vitória significativa da moderação e do centrismo, que premeia, aliás, o indiscutível mérito político de, em condições bem apertadas e difíceis, terem sido capazes de conduzir a Espanha à liberdade democrática, sem grandes sobressaltos, apesar dos obstáculos com que se procurou dificultar a sua acção.
Quando, em Janeiro passado, Freitas do Amaral, Amaro da Costa e Azevedo Coutinho se avistaram demoradamente com Adolfo Suarez estavam seguros de que ia ser assim e mais seguros ficaram, quando a conversa terminou. Mas não se pedia prever que o exemplo dos espanhóis fosse tão elucidativo como é e a vitória do centrismo, em que sempre acreditámos, fosse tão clara e significativa como os resultados atestam.
Oxalá os portugueses compreendam o exemplo espanhol, assim como os espanhóis aprenderam com a lição portuguesa!
Oxalá que a convergência democrática prossiga em Espanha e a unidade vença em Portugal, derrotando definitivamente quantos procuram continuar a dividir aqueles que se pedem e devem entender e não reparam sequer que a sua cegueira isolacionista apenas serve para ajudar a entregar o destino nas mães opressivas de extremismo.
É evidente que, para o êxito do processo de democratização espanhol, teve grande importância e relevo e a intervenção positiva, que ninguém ignora, do Chefe de Estado espanhol, o Rei D. Juan Carlos. Talvez esteja aqui outra lição que os portugueses devam compreender, até porque o nosso Chefe de Estado, Ramalho Eanes, foi eleito por esmagadora maioria da vontade popular livremente expressa...
Todos sabemos, afinal, que apenas a moderação, a unidade e o equilíbrio podem servir para atravessar e vencer com êxito os momentos de crise que os povos por vezes defrontam. O centrismo aqui ao lado é lição de tranquilidade, de eficácia, de liberdade, de justiça.

A lição espanhola não pode ficar-nos indiferente. Confirma o que todos já sabíamos. A união faz a força! A unidade constrói o êxito!

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