quarta-feira, 21 de junho de 2017

1977-06-21 - Bandeira Vermelha Nº 075 - PCP(R)

EDITORIAL
Pelo Pão, pela Terra e a Liberdade

  1. Não seria exagerado afirmar que o panorama político nacional sofreu substanciais alterações desde que o Presidente da República discursou, a 25 de Abril, na Assembleia da República.
Nessa altura, e nas semanas que se lhe seguiram, um espectro pairava, ameaçador, no futuro imediato da vida nacional. Depois da enorme escalada da direita e dos monopólios, os partidos fascistas PPD e CDS ameaçavam sob a tutela do Presidente, assenhorear-se completamente das rédeas governamentais.
Como na altura referimos, muitos eram os que recuavam, atemorizados e vacilantes. Sucediam-se as mais diversas e ridículas interpretações da situação política. Os intelectualoides da nossa praça, inchados pela ignorância e a cobardia que os caracterizam, esforçavam-se por descobrir nos discursos dos governantes uma saída de esquerda para o impasse que os atormentava. Os revisionistas, esses saltitavam de posição em posição, redobrando as juras de fidelidade ao Presidente da República e à ordem instituída. A melhor forma de combater a ameaça da convergência fascista, encontraram-na eles no redobrar dos ataques ao nosso Partido e aos "esquerdistas" imaginários. A luta de massas, diziam, poderia ser inoportuna e fazer perigar as instituições democráticas.

Hoje, porém, a situação alterou-se. Não na essência, evidentemente, pois os grandes parâmetros da política governamental e do poder mantém-se inalteráveis. Mas a correlação de forças conheceu importantes modificações que apenas a cegueira impediria de constatar.
Os heróis dos partidos fascistas já não vieram a público com ameaças para o imediato. Constatam, com preocupação, que a situação se "agravou". Alertam para o crescer do movimento de massas. Pasmam, surpreendidos, com a enorme pujança do movimento popular e democrático, que, contra-atacando em todas as frentes, lhes retirou a arma da iniciativa.
O próprio governo se encontra desorientado. Diz e contradiz, avança e recua. Promete rever alguma legislação antioperária. Para todos é compreensível que o dr. Mário Soares é fustigado diariamente pelo fogo cerrado do movimento popular.
E também a casta militar, essa odiosa hierarquia reaccionária que espuma de raiva contra o 25 de Abril, se encontra em dificuldades e isolada. As desavenças agravam-se entre os homens que dirigem o país.
2. Três grandes movimentos concertados estão na origem das alterações verificadas. As lutas dos trabalhadores pelo Pão, a Terra e a Liberdade.
Em todo o país se agudizou a luta pelo Pão. De norte a sul sucederam-se as greves, as paralisações, as manifestações de rua. Os protestos contra as desintervenções e o custo de vida, as exigências de publicação dos contratos colectivos, ganharam largas massas de trabalhadores. Nos metalúrgicos, nos têxteis, nos transportes, reavivou-se a chama revolucionária. As mulheres intervieram mais decididamente na vida nacional. A classe operária fez compreender, pela luta, a justeza das suas exigências a vastos sectores da população. De tal forma se elevou a luta pelo Pão que os dirigentes traidores da CGTP-IN foram obrigados a ceder à pressão de baixo e a convocar, contrafeitos, manifestações de rua.
Nos campos do Sul reavivou-se a luta revolucionária dos proletários rurais. Os choques violentos ocorridos em Mora, amedrontaram as autoridades reaccionárias. A voz revolucionária ecoou, ameaçadora, nos plenários do Sul. Na Assembleia da República, o projecto de lei do nosso Partido, apresentado pela UDP, surpreende os partidos burgueses. O partido revisionista debate-se em enormes dificuldades para explicar a ausência de projecto próprio.
Mas foi a luta pela Liberdade que mais sensibilizou a população trabalhadora. O movimento estudantil pôs em causa a política de Cardia, enfrentou a polícia e chamou para a esquerda vastos sectores oscilantes. O lançamento do Tribunal Cívico Humberto Delgado, destinado a desempenhar um papel decisivo na disposição das forças políticas, mostrou que era possível a unidade para combater o fascismo. Finalmente, a luta heróica desse jovem antifascista que há 26 dias se mantém em greve da fome, foi a grande mola impulsionadora da enorme pujança que hoje adquire o movimento de massas.
  3. A luta de Rui Gomes está a isolar e a comprometer irremediavelmente a cúpula militar reaccionária que, no fundo, dirige este país. Esse punhado de fascistas que dirige a justiça militar em Portugal — sem para tal ter pedido o veredicto popular, note-se — põe cada dia mais a claro a sua catadura de vendidos à alta finança, ao imperialismo, e ao 24 de Abril.
A luta de Rui Gomes põe em causa as estruturas reaccionárias militares, denuncia a própria essência anti- popular de todo o poder burguês. É um grito de alerta contra o real significado da democracia burguesa estável, um autêntico repto a favor de um novo poder que emane do povo. No imediato, a luta de Rui Gomes é e está a ser um pólo aglutinador do combate antifascista, da luta pelas liberdades e por um governo que reconheça e alargue essas liberdades.
E, paralelamente à enorme amplitude da base de apoio a essa luta, a firmeza revolucionária de que ela se reveste, começa a constituir um aviso significativo para o poder da classe dominante.
A greve da fome de Rui Gomes e o cerco à polícia pela manifestação a seu favor de dia 17, são o exemplo claro daquilo a que estão dispostos os revolucionários para derrotar a reacção.
  4. O balanço é positivo e animador. O caminho a seguir já está traçado. Com persistência, audácia e determinação é possível alargar as feridas ainda abertas no poder burguês reaccionário.
É preciso ligar ainda mais indissoluvelmente a luta pela Liberdade à luta pelo Pão e pela Terra. Sem tibiezas nem hesitações.
Todo o Partido deve intensificar a grande campanha nacional a favor da libertação de Rui Gomes. As acções massivas devem multiplicar-se e ganhar definitivamente todo o país. A firmeza revolucionária precisa de dominar todas as iniciativas. O grande movimento nacional contra a libertação de pides e bombistas deve ser impulsionado. Todos os colectivos partidários precisam de possuir os seus próprios planos para apoiar o Tribunal da PIDE.
A luta de massas contra a carestia, por melhores salários e pela saída dos contratos, deve igualmente ser intensificada. O combate às desintervenções precisa de ser reanimado. Nenhum patrão agora regressado pode sentir-se folgado do ataque do movimento operário.
É urgente que todo o colectivo partidário se prepare para a grande batalha em defesa da Reforma Agrária. De norte a sul do país, nas herdades e nas aldeias, nas empresas e nas minas, nos escritórios, nas escolas, por todo o lado, deve surgir, intempestivamente, uma enorme movimentação de esclarecimento a favor do projecto-lei revolucionário, contra a lei Barreto e a traição revisionista.
  5. Para vencer é indispensável a UNIDADE, a FIRMEZA nas posições adoptadas, a DIRECÇÃO CONSEQUENTE E ENÉRGICA DA CLASSE OPERÁRIA. Os êxitos já alcançados na conjugação das forças democráticas precisam de ser alimentados. A vitória sobre o inimigo comum exige a superação das diferenças ideológicas na acção comum das forças autenticamente antifascistas. Aos comunistas cabe a responsabilidade de saber trazer para a luta firme, com persuasão e sem sectarismos, os sectores democráticos que, por natureza, duvidam da vitória e oscilam nos combates.
Mas de pouco servirá a unidade ampla se não assentar na acção revolucionária sempre mais firme e mais radical. As massas trabalhadoras e a sua iniciativa devem ser o suporte da unidade antifascista. A radicalização não deve ser evitada a pretexto (falso} de manter a unidade.
A direcção da classe operária e do seu Partido é uma condição indispensável para o êxito da luta. Mas não se assegura por decreto. Tão pouco pela exacerbação do sectarismo cego.
Alcança-se pela iniciativa constante nas acções de massas. Pelo poder de organização e de mobilização. Pelo exemplo seguro em todos os momentos.

Assegura-se pela autonomia política, ideológica e organizativa do Partido Comunista. Pelo seu reforço e alargamento incessantes. Pela difusão massiva das suas alternativas e orientações próprias em todos os momentos, pela crítica construtiva mas sistemática a todos os sectores aliados e pelo combate persistente e quotidiano ao perigo revisionista. Pelo intensificar da propaganda a favor da democracia popular e do socialismo, pela salvaguarda cuidadosa das suas bandeiras próprias.

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