sexta-feira, 16 de junho de 2017

1977-06-16 - Luta Popular Nº 548 - PCTP/MRPP

EDITORIAL
OS DOIS PAÍSES

Longe vão os tempos em que a classe dominante do nosso país nos bombardeava quotidianamente os ouvidos com a sua cantilena reaccionária do «Portu­gal uno e indivisível, pluricontinental e multirracial». Essa era uma expressão e uma filosofia constitucionalmente consagradas, pela qual a classe dos grandes proprietários de terras e dos grandes monopólios da indústria, do comércio e da finança procuravam justificar a indivisibilidade do seu domínio sobre os povos e a unidade do seu sistema de exploração do trabalho e dos trabalhadores.

Cedo os povos irmãos dos territórios coloniais se ergueram em armas na conquista das suas soberanias nacionais e na libertação dos seus países oprimidos. A vitória histórica que obtiveram destroçou de cima a baixo a filosofia colonialista da pluricontinentalidade e o racismo da multirracialidade.
Mas, mesmo dentro das fronteiras do nosso país, não havia nem há nenhum Portugal «uno e indivisível», como queria a classe dominante. Desde sempre, a classe operária e o povo trabalhador, que é quem tudo produz, partiu em guerra aberta contra os latifundiários, os grandes agrários e todos os grandes capitalistas, que são quem nada produz e quem arrecada nos cofres o suor e o sangue dos trabalhadores.
O Portugal «uno e indivisível» era constituído, afinal, por dois «países», o país do Trabalho e o país do Capital. E a única unidade que existe entre eles. É a unidade da luta dos explorados contra os exploradores, até que sejam varridos da superfície da Terra o sistema da exploração e as classes opressoras.
Os últimos três anos e, duma forma geral, todos os períodos de crise profunda, como é o que vivemos de momento, patenteiam aos olhos de todos, mesmo aos olhos do filisteu incorrigível e reaccionário, a existência real desses dois «países» em luta dentro das fronteiras do território nacional. Já não é mais possível a ninguém ignorá-lo, ainda que os reaccionários e oportunistas procurem iludi-lo.
E é justamente no sentido de tentar iludir perante o povo a realidade da luta de classes extremamente aguda que se trava na nossa sociedade e, acima de tudo, de tentar iludir o conteúdo real dessa luta de classes, que é a questão do Poder político, que todos os sectores da burguesia se puseram de acordo e começam, à uma, a falar de dois «países», mas não dos dois «países» que realmente existem.
De súbito, toda a classe dominante ataca o «país político», em nome do «país real». Para o CDS e o PPD, «o país real já não suporta o país político»; para o partido de Barreirinhas Cunhal, «o país real deve ser apolítico», ou então seguir a política do partido dele, a fim de que se possa considerar «real»; para o doutor Mário Soares, consoante se pôde ouvir nas suas recentes estadias na Televisão, o «país real» seria aquele «país» conciliador, abúlico, castrado, pacifista e impotente, poltrão e mesquinho, que abomina a política e os políticos que não sejam do PS; para o Presidente da República, conforme se percebeu do seu discurso do dia 10, na Guarda, o «país real» é o país que pensa como ele ou que está de acordo com o que ele pensa.
Obrigada a reconhecer que há dois «países», a classe dominante tergiversa, porém, sobre a verdadeira natureza de cada um deles; e, apesar de nos encontrarmos já quase na década de oitenta do século vinte, a burguesia usa de conceitos já postos de parte pelos seus antepassados da mesma década do século precedente. Ela coloca-se bem mais atrás do que o seu António Sérgio, que se aproximava bem mais da verdade, ao compreender que havia um «país das pedras vivas» e um «país das pedras mortas».
Claro está que não há nenhuma diferença nem nenhuma oposição entre o «país real» e o «país político», porque eles são uma e a mesma coisa ou, se preferirmos, são o reflexo necessário e inelutável um do outro. O país real é o país da luta de classes, o país em que duas classes antagónicas se combatem de morte e em que a classe intermédia, a pequena burguesia, pretende exercer o papel impossível de conciliar os contendores antagónicos, de conciliar os antagonismos sociais. O país político é o espelho fiel, cristalino, desta situação das classes e desta luta de classes.
A «teoria» reaccionária que proclama a existência dum «país real» e dum «país político» e que pretende fazer ver um desfasamento inexistente entre os dois países é a nova «teoria» que abre o caminho ao bonapartismo, que abre o caminho ao sistema de governo burguês reaccionário que, em nome do «país real», do país do Capital, dos monopólios e dos agrários, chama a bota do exército a esmagar o «país político», a pôr o segundo de acordo com o primeiro, a proibir com a ponta das baionetas toda a política que não seja a política dos exploradores, a proibir no fundo, a política do Trabalho.
A profundidade da crise e a corrida vertiginosa para a bancarrota e a falência dos partidos burgueses e pequeno-burgueses em pôr-lhe cobro produzem e adiantam aquelas explicações «teóricas», a fim de desbravarem e prepararem o terreno para a explicação e a justificação das forças do inimigo, designadamente as suas forças militares.
Do lado da classe operária e do povo trabalhador urge reforçar toda a sua organização, urge combater e isolar as ideias do revisionismo e do oportunismo, urge cerrar fileiras sob uma direcção justa, a direcção política dos marxistas-leninistas, para prosseguir na luta contra a fome e a miséria, na luta pelo pão, pela terra, pela liberdade, pela democracia, pela independência nacional e pela paz, pelo poder político, na rota do socialismo e do comunismo.

Há, efectivamente, dois países: dois países reais e antagónicos; duas políticas reais e antagónicas; duas classes reais e antagónicas. Mas só o país do povo trabalhador, dirigido pela política da classe operária revolucionária é o país do futuro, da vitória e do progresso.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo