quarta-feira, 7 de junho de 2017

1977-06-07 - Bandeira Vermelha Nº 073 - PCP(R)

EDITORIAL

1. A semana política que há pouco findou veio confirmar as posições e análises do nosso Partido.
A intervenção das diversas forças políticas na cena nacional, não obstante a demagogia e a retórica habituais, continua a clarificar os contornos da sua fisionomia política segundo o que vimos analisando há várias semanas.
Um facto ressalta do panorama nacional. Torna-se patente que a burguesia portuguesa continua atolada em profundas contradições, comprova-se a tese partidária que apontava para a permanência dos factores de crise e a sua difícil superação. De semana para semana aumentam as controvérsias, as hesitações, os avanços e os recuos no seio do capital, renasce em certa medida a sucessão de crises políticas no país.

Não é difícil compreender que os planos de recuperação capitalista e agrária não estão a ser cumpridos como desejariam os monopólios. A lei da "reforma agrária" do sr. Barreto suscita divergências no interior do próprio conselho de ministros. As leis antioperárias já aprovadas permanecem sem ser aplicadas em muitos casos. Da aplicação de outras, resultam reacções sempre maiores das massas trabalhadoras que enfraquecem e abalam a estabilidade do governo.
É ainda cedo para fazer um balanço profundo dos acontecimentos políticos dos últimos dois meses. Mas não é possível deixar de salientar que eles não cessam de confirmar as conclusões do II Congresso e todas as posteriores tomadas de posição dos organismos dirigentes do nosso Partido.
    2. A vida está comprovando diariamente que não tinham razão os que julgavam já impossível parar a ofensiva da reacção e do capital. Em mil batalhas, o movimento operário e popular ergue-se com vigor em defesa das conquistas alcançadas e por melhores condições de vida, vem progressivamente neutralizando dezenas de projectos reaccionários e antipopulares. Tão pouco estavam na via justa aqueles sectores que de há muito vêm atacando o nosso Partido de sectarismo por recusar alianças com o partido revisionista. A verdade é que grande parte das vitórias alcançadas pelos trabalhadores têm-se verificado não com o apoio dos revisionistas, mas apesar e contra a oposição revisionista. Tornando-se claro que essas vitórias se devem, em primeiro lugar, à enorme disposição combativa das massas trabalhadoras, não é exagerado afirmar que o nosso Partido tem aí desempenhado relevante papel. Não por ser já reconhecido pela maioria da vanguarda operária. Não por possuir já uma forte organização em todos os centros nervosos da luta de classes. Mas pela justeza das suas orientações. Pelo vigor e determinação com que as defende. Pelo esforço singular com que os seus dirigentes e militantes se lançam no combate. Pela incontestável conjugação das suas palavras de ordem e bandeiras de luta com os anseios profundos dos trabalhadores. E pelo crescimento vigoroso da sua organização e do seu reconhecimento entre os sectores avançados da classe operária.
É este o profundo alcance dos acontecimentos de Mora. É essa a razão essencial que originou a participação de militantes comunistas à cabeça de inúmeras manifestações dos metalúrgicos. E também no 1° de Maio e no 25 de Abril.
    3. Aqueles que continuam à margem dos acontecimentos vivos, os que insistem em ver no revisionismo um monstro indestrutível ou um aliado indispensável na luta antifascista, fariam melhor se meditassem nos ensinamentos da vida.
Onde estariam neste momento as empresas intervencio­nadas — onde permanece a luta — se tivessem seguido os conselhos revisionistas de calma e serenidade?
Onde estariam as regalias e a margem de manobra da classe operária se esta tivesse acatado as orientações revisionistas para evitar as greves e não afectar a produção nacional?
Onde estaria hoje o movimento estudantil se tivesse acatado os decretos governamentais como aconselhavam os revisionistas?
Em que situação estariam os campos alentejanos se seguissem os exemplos de cedência e cobardia furiosamente elogiados pelo partido revisionista?
Em resumo. Onde estariam hoje as conquistas duramente defendidas pela luta e iniciativa da classe operária se se tivesse afirmado a política revisionista? É inútil demonstrar que grande parte delas já não existiria. Do mesmo modo que nunca teriam chegado a existir se o movimento operário, após o 25 de Abril de 74, tivesse acatado as orientações desse partido.
     4. Confirmou-se a tese partidária acerca da complexidade da revolução portuguesa. Os esquerdistas, que ontem afirmavam estar prestes a derrota completa do 25 de Abril, têm hoje melhores condições para compreender que a defesa das liberdades não é sinónimo de "revolução já".
Não é possível decretar a inexistência de ziguezagues no processo revolucionário. Não é possível ocultar a necessidade da acumulação de forças com apelos abstractos à tomada do poder. Tão-pouco é possível esquecer a preparação obrigatória das grandes massas para os choques decisivos, procurando queimar degraus indispensáveis, substituindo a táctica pela estratégia feita política diária.
Já o dissemos inúmeras vezes, mas não é demais repeti-lo. As revoluções não se fazem apenas com os princípios e a doutrina. Exigem arte e ciência na sua aplicação à realidade viva. Não basta proclamar os objectivos. Há que estudar as formas e os meios de os alcançar.
A vida confirma diariamente a correcção da táctica partidária. Está conforme à realidade o apelo à acção de massas para paralisar a ofensiva reaccionária e chamar novos sectores à luta revolucionária. Constata-se que é através desta acção que se conjugam as forças democráticas e anti-imperialistas, é através dela que ganha consistência uma alternativa revolucionária para a situação actual. Verifica-se que não há saídas intermédias para a crise de hoje — ou ela é superada à custa dos capitalistas e latifundiários, ou será o proletariado e os trabalhadores a arcar com o seu peso.
    5. Os acontecimentos dos últimos meses comprovam o papel destacado que cabe ao PCP(R) na cena política nacional. Não como única força democrática e revolucionária. Mas como o Partido da classe operária que nenhuma classe nem qualquer partido podem ignorar. Como força decisiva do campo popular, sem o qual não é possível assegurar o rumo, a consequência e o êxito da luta revolucionária.
O PCP(R) é sem dúvida um partido jovem. Mas os êxitos já alcançados e a trajectória que prossegue apontam-no como o Partido do futuro.
Há que preservar no caminho apontado pelo II Congresso, há que lutar pela crescente afirmação do PCP(R) como Partido proletário de acção de massas. Aplicar e enriquecer a táctica de acordo com cada local de trabalho, apresentar sempre alternativas para cada situação concreta, para cada pequena viragem da situação política, não deixando margem de manobra ao inimigo de classe. Combatendo o sectarismo auto-suficiente e o pedantismo do intelectual que pensa solucionar os problemas práticos com declarações sonoras.
Há que consolidar as bases ideológicas marxistas-leninistas em que assenta o nosso Partido. Fomentar o hábito do estudo em todos os colectivos partidários, combater as eventuais tendências para construir a táctica à margem dos princípios do marxismo-leninismo.

Um e outro movimento constituem um todo que seria fatal pretender divorciar. Mais acção de massas, mais audácia e flexibilidade na condução do movimento diário. Mais estudo da teoria marxista, mais preocupação com os princípios para guiar a acção diária, para lhe dar o rumo seguro que a conduzirá à vitória.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo