terça-feira, 6 de junho de 2017

1977-06-06 - Improp Nº 03 - III Série - Movimento Estudantil

    AS ALTERAÇÕES DO PLANO DE CURSO E A PARTICIPAÇÃO DOS ESTUDANTES

O  conteúdo dos cursos, os métodos de ensino e avaliação, têm como todos sabemos um papel determinante na formação dos que saem da Universidade, e é para isso que eles têm sido alvo do "interesse" dos responsáveis pela Educação no nosso país.
Em pouco tempo, assistimos a una série de medidas, desde a portaria sobre a avaliação de conhecimentos até ã imposição dos numerus clausus, todas elas com um denominador comum:
A criação de um ensino elitista e altamente selectivo, o que passa pela destruição das principais transformações democráticas alcançadas até o 25 de Abril, pela luta dos estudantes e professores.

Também a reestruturação dos cursos existentes está em preparação, e com esse fim foram criadas as Comissões Cientificas Inter-Universitárias, constituídas pelos professores doutorados das várias escolas, que até têm poder para declarar em "degradação pedagógica" uma escola, ou por outras palavras, podendo decretar o seu encerramento como já aconteceu com o ISCSP, onde evidentemente não foram encontradas quaisquer provas de degradação do ensino.   
A reestruturação que se prepara para as escolas do ensino superior não tem em vista alargar os aspectos positivos introduzidos no conteúdo dos cursos, nem melhorar o ensino como o aspiram os estudantes, nem tão pouco terá em conta a vontade das escolas, em suma, essa reestruturação terá por base posições políticas, que afinal são os mesmos que levam à repressão sobre os estudantes, e ao encerramento de to da uma Academia.
Mas a intenção de interferir no conteúdo dos cursos duma forma anti-democrática, não vem só do MEIC, ele existe também nalguns professores da nossa escola, e a prová-lo:
Quando em Abril o MEIC enviou para o Conselho Cientifico o pedido dos planos de curso para o próximo ano lectivo, houve logo quem aproveitasse, para independentemente da vontade dos professores e estudantes das secções e mesmo sem o seu conhecimento, enviar planos totalmente alterados em relação aos actuais, como sucedeu na Física e na Biologia.
Com que critério o fizeram, a meia dúzia de professores que nisso participaram? Não foi de certeza com o objectivo de melhorar a qualidade dos cursos, pois na Biologia, por exemplo, esses professores têm mostrado um completo desprezo pela falta de condições pedagógicas e materiais existentes, que fazem com que nesta altura do ano, o 1º ano apenas tenha duas cadeiras a funcionar. Mais certamente terá sido de acordo com as especialidades científicas de cada um …

     E NO NOSSO CURSO O QUE SE PASSOU?
No que se refere ao plano dos 4º e 5º ano do ramo das Aplicadas, também esse plano foi enviado para o MEIC sem que os estudantes tomassem dele conhecimento.
No entanto, no que se refere aos restantes anos, é de salientar a atitude democrática que assumiram os professores do Conselho Científico que ficaram responsáveis por esses anos.
Assim, quer no Educacional, quer no ramo de Puras os estudantes foram consultados sobre as alterações propostas. Quanto ao PLANO DE BACHARELATO este foi apresentado â Comissão de Curso, ainda que com um prazo excessivamente curto, primeiro uma semana e depois duas, para que fosse tomada uma posição.
Desde logo a Comissão de Curso deixou claro que não seria possível nesse espaço de tempo, e atendendo ainda que a escola se encontrava em eleições associativas, realizar reuniões onde os estudantes se pronunciassem sobre o plano apresentado.
No entanto a Comissão de Curso, fruto da discussão que teve, podia manifestar a sua opinião, ficando no entanto ressalvado, que essa não era a opinião dos estudantes do curso.
Pareceram-nos aceitáveis as alterações propostas, que são essencialmente:
-  a introdução da cadeira de MECÂNICA TEÓRICA, obrigatória do 3º ano, justificada como uma aplicação dos conhecimentos adquiridos em A.L.G.A. e ao mesmo tempo permitindo o conhecimento de alguns dos conceitos fundamentais a um dos ramos da Matemática
-  a cadeira de ÁLGEBRA do 2º ano, passa a anual, justificada como sento uma cadeira base para conhecimentos futuros e para o ramo Educacional.
Mas colegas, não podemos deixar de reconhecer a actuação incorrecta que tivemos ao não dar divulgação a este plano.
E se é um facto, que tinha sido completamente impossível a convocação de quaisquer reuniões, não era no entanto, impossível garantir a informação do que se estava a passar.
Aliás, era esta a nossa ideia ao programar um comunicado, que esteve pronto a ir para as máquinas e que não chegou a ser distribuído, pois chegou-se à conclusão que ele expressava uma posição pouco reflectida sobre a cadeira de Álgebra.
Depois disso, e gravemente, não foi programado novo comunicado, não tendo assim a informação chegado junto da maioria dos estudantes.
Em princípio, as cadeiras do próximo ano lectivo, no que se refere ao bacharelato, serão as acima indicadas.
No entanto, as questões referentes à reestruturação mais ou menos profunda do curso, estão longe de estarem encerradas. E se a Comissão de Curso cometeu erros, estamos no entanto dispostos a não persistir neles, e tudo faremos para garantir e incentivar a participarão dos estudantes, nomeadamente a definição dos programas das cadeiras há que garantir por exemplo, que a nova cadeira de Álgebra não se torne o que era antes do 25 de Abril, uma cadeira sem interesse e cujo fim era apenas a selecção dos estudantes.
O controle efectivo dos estudantes sobre o conteúdo do curso é a única garantia de que não perderemos o que já conquistamos neste campo e por outro lado, que novas transformações serão feitas no sentido dum aperfeiçoamento constante do ensino que temos, e de acordo com a vontade da maioria dos estudantes.


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