quinta-feira, 1 de junho de 2017

1977-06-01 - Bandeira Vermelha Nº 072 - PCP(R)

EDITORIAL
OS ACONTECIMENTOS DE MORA INDICAM O CAMINHO
DEFENDER A REFORMA AGRÁRIA

Na última semana a atenção do país voltou a ser chamada para os campos alentejanos, os campos da Reforma Agrária. Quer a carga da GNR em Mora, ferindo dezenas de pessoas, enviando para o hospital novos e velhos, homens e mulheres, quer a "lei Barreto” que visa destruir tudo o que até hoje foi feito e restaurar uma situação semelhante ao 24 de Abril, indignaram todos os portugueses progressistas, levantaram por todo o país e em especial nos campos do Sul, um grande vento de revolta.
Não é ocasional a coincidência dos dois acontecimentos: a "lei Barreto” é a ofensiva legal, a base legal para destruir a Reforma Agrária; a carga de Mora é o caminho que o governo trilha para impor a sua vontade reaccionária sobre quem trabalha e sempre trabalhou a terra. Face a esta política ergue-se uma resistência cada vez mais generalizada, resistência que a brutalidade policial não quebra, antes faz ganhar novo ânimo, novas forças.

O II Congresso do nosso Partido já havia assinalado a ofensiva contra a Reforma Agrária, já havia denunciado que ela visava destruir uma conquista revolucionária para a transformar numa simples reforma capitalista. O II Congresso apontou aos trabalhadores a via da resistência activa, da luta firme e sem tréguas contra a recuperação agrária. Os acontecimentos dos últimos dias não fazem mais que confirmar esta análise, o movimento nos campos, a vontade espontânea dos assalariados mostra que a nossa linha de luta é abraçada por todos quantos querem ver a Reforma Agrária avançar e não recuar.
No último fim de semana uma reportagem do, nosso jornal esteve em Mora. Falámos com assalariados rurais dos quais nenhum era membro do nosso Partido, provavelmente até votaram no partido revisionista. Contudo nas suas bocas encontramos a coragem e a vontade de luta dos comunistas, encontramos a percepção revolucionária do 25 de Abril a correcta atitude face á GNR, o ardor revolucionário de todos os trabalhadores. Falavam com o coração e falaram-nos da revolução, vimos como para os trabalhadores as patranhas acerca dos “direitos do homem” nada valem face aos direitos de quem trabalha. Deram-nos para o prosseguimento da luta a correcta perspectiva, a resistência activa às reservas, a luta sem esmorecer, até à morte se preciso, de armas na mão se necessário. O relato da entrevista que publicamos é de leitura indispensável, e só é nossa pena que não possamos publicar na íntegra a longa conversa que durante várias horas mantivemos. As suas opiniões e palavras reflectem, não temos dúvidas, não só o que pensam este punhado de trabalhadores, mas o que sentem milhares e milhares por esses campos da Reforma Agrária.
Mas não só as palavras desses assalariados são exemplares: o que se passou em Mora também o é. Por sua iniciativa um movimento que ultrapassou em muito os cálculos revisionistas os assalariados levaram à prática as duas palavras de ordem do Partido: cooperativa atacada não pode ficar isolada e resistência activa às reservas. A grande manifestação de dia 26, que juntou em Mora mais de 20 000 pessoas, algumas vindas de mais de 100 Km de distância, é uma demonstração cabal de que os assalariados estão dispostos à luta, que ultrapassam os revisionis­tas que quiseram limitar a manifestação ao concelho.
A resistência oposta pelos trabalhadores à carga da GNR, se bem que fraca e desorganizada ainda, indica igualmente o caminho a seguir.
Mas a luta apenas vai no seu início. O PCP(R) aponta aos trabalhadores de Mora o exemplo de Baiões como a correcta via a seguir para derrotar as intenções do agrário e do governo. Não ceder, não assinar nada, impedir o agrário de usar a terra obrigando-o à protecção da GNR. Em Baiões a unidade dos trabalhadores, a sua força, obrigou a GNR a retirar e os trabalhadores acabaram por ir trabalhar as terras. Em Mora, em todas as reservas, esse exemplo deve frutificar e multiplicar-se.
O nosso Partido chama todos os assalariados à luta, chama-os a resistir com firmeza às agressões e injustiças, a defender a terra que é de quem a trabalha. A proposta de greve de aviso de um dia que já granjeou grande apoio entre os assalariados tem igualmente o apoio do nosso Partido, deve ganhar força, deve ser levada adiante numa grande jornada de unidade e luta dos assalariados rurais em defesa da Reforma Agrária.

A PALAVRA AOS ASSALARIADOS RURAIS
A brutal GNR — sobre os trabalhadores agrícolas de Mora, fazendo largas dezenas de feridos, alguns com certa gravidade emocionou e revoltou todos os portugueses democratas. A demagogia e a mentira, as desculpas mal disfarçadas não puderam apagar a imagem da barbárie demonstrada pelos guardas que carregaram sobre os trabalhadores, batendo indiscriminadamente em homens e mulheres, novos, velhos e crianças. Bandeira Vermelha enviou uma equipa de reportagem a Mora que, no local, recolheu o testemunho e a opinião dos assalariados rurais vítimas da agressão.
Na vila de Mora foi-nos indicado um trabalhador de Brotas que na véspera havia regressado do hospital onde estivera internado devido à agressão de que foi vítima.
Firmino Coelho, o trabalhador agredido, imediatamente nos admitiu em sua casa, nos convidou a sentar e rapidamente se juntaram à nossa conversa muitos outros vizinhos, igualmente participantes na manifestação e vítimas da repressão da GNR.

O QUE SE PASSOU EM MORA
O camarada Firmino começou por nos descrever os antecedentes da luta: "Na quarta-feira a cooperativa "A luta é de todos" tinha mobilizado o concelho por causa duma reserva dada ao sr. Barata. "A luta é de todos" ao tomar conhecimento da entrega da reserva tinha dito que estava interessada em sentar-se à mesa com o agrário, o CRRA e o sindicato para discutir o problema. Os trabalhadores estavam conscientes que a terra lhes pertence e não a quem não a trabalha! Como não aceitaram nós mobilizámo-nos para lá ir. Chegados lá vimos todas as entradas bloqueadas por uns 300 ou 400 GNR, com cavalos e cães polícias. No entanto já estavam lá dentro alguns trabalhadores que tinham entrado mais cedo. Entre os que estavam lá dentro estava um membro da C. Directiva, que se recusou a ceder, e que disse que só depois de entrarem todos os trabalhadores é que estes em conjunto podiam decidir. Ele sozinho que não decidia nada. Não pode nem deve ceder, foi a posição que ele tomou e muito bem!"
O camarada descreveu-nos então a situação do local e a forma como a GNR se havia disposto, depois do que nos contou o modo como se iniciou a agressão. "Os GNRs começaram a empurrar os que estavam na herdade para sair de lá sem que estes se opusessem e foi então que puxaram um trabalhador para o meio deles, de modo a que reagíssemos e eles tivessem o motivo para começar a pancada. Foi a GNR que a começou, não fomos nós: quando não deixámos que eles levassem o trabalhador para o meio deles, ei-los que tinham o pé para começar a cascar e foi precisamente o que aconteceu".
Sobre o modo como começou a carga contou-nos que "sacaram dos cassetetes, "cassetada”, os cavalos a empinarem-se, o povo apertado numa estrada estreitinha a fugir, as pessoas a atropelarem-se, motorizadas caídas, valas cheias de água, mulheres, crianças, velhas, a ca irem dentro daquelas valas em monte. Isto vimos nós todos com os nossos próprios olhos. E os cavalos a empinarem-se, a perseguirem as pessoas, e eles sempre a desancarem em todos. Nessa altura ainda consegui fugir". O camarada Firmino relatou depois a brutalidade da GNR, de todos os guardas sem distinção, deu-nos o exemplo duma criança de 4 anos, que foi atirada para uma vala onde ficou até, horas depois, a fossem encontrar com as pernas todas roxas. Nessa altura uma camarada que se tinha juntado à nossa conversa disse que ela própria tinha visto "um guarda a cavalo tirar a espada e dar com ela na cabeça dum trabalhador, abriu logo uma grande brecha e o sangue até esguinchou! Quando o vi até pensei que estava morto. Outro GNR ouviu ameaçar um trabalhador que lhe cortava o pescoço"

MATEM-ME SE QUISEREM QUE AINDA TENHO QUEM TOME CONTA DOS QUE CÁ DEIXO
Foi a ajudar um trabalhador ferido que o camarada Firmino foi agredido. Ele conta-nos: "Foi quando ia a chegar à vila que vi a mãe dum camarada com ele ferido. Nós então corremos para lá para ajudarmos a mulherzita a tra­zê-lo. Quando ia a agarrá-lo pelas pernas para o levar de charola com outro nosso camarada é que vêm dois GNR e procuram arranjar motivo para me dar. Um deles agarra-me por um braço e obriga-me a virar e então o outro, com um desses cassetetes que dão descarga eléctrica, deu-me então aqui — e aponta para o lado esquerdo da testa — e eu caí logo, desmaiado"
"Quando acordei, estavam mais camaradas à minha volta mas vi os guardas que me bateram e disse para eles — Foi preciso um me agarrar para o outro me bater! O guarda respondeu logo a desafiar-me mas eu disse-lhe: Ó homem mate-me se quiser que ainda tenho quem olhe pelos filhos que deixei em casa!"
Depois foi o hospital, os remédios, as tonturas e as dores de cabeça e ainda no domingo, quando conversamos com ele, não se podia mexer mais depressa sem ver tudo a andar à roda.

GNR: TAL E QUAL UMA AUTENTICA PIDE
Tal como não podia deixar de ser, a GNR foi tema geral de todos os camaradas que connosco conversaram. Todos falavam com o coração nas mãos, diziam sem rodeios o que lhes ia nas almas. Ouçamos o que nos disse, para começar, o camarada Firmino.
"O que eu vi foi uma autêntica PIDE, eu que nunca fui preso pela Pide nem conheço o que era a Pide nos terrores daquilo que fez, mas do que soube depois do 25 de Abril deles e o que vi em Moura, é uma autêntica pide. Se se fez o 25 de Abril para acabar com a Pide, estamos a ter um governo que está a consentir a Pide cá no nosso país. Vi, sofri, estou magoado, digo a verdade!
Uma camarada que assistia à conversa não hesitou em precisar: "As caras que os guardas mostraram não eram caras de homens, eram caras de Pides!"
Realmente como classificar a actuação da GNR se não como o fazem estes trabalhadores simples? Eles viram e sentiram na carne a brutalidade dos guardas, eles viram que "a primeira pessoa a levar porrada foi uma mulher aí dos seus 60, 70 anos", ouviram guardas dizer que "nunca mais largavam as armas como o fizeram no 25 de Abril, que a sua G3 nunca mais largavam", como podiam ter outra ideia da guarda senão aquela que a realidade e a sua experiência lhes ensinou?
Não vimos nas suas bocas uma só palavra que pudesse desculpar o que não tem desculpa, apenas vimos a certeza profunda de que "eles não batem contrafeitos, eles foram sempre assim. Agora, quando eles tiverem mansinhos, foi como que dissessem deixemos passar que lá viria o dia de voltarmos à mesma..."
Hoje o "seu" ódio à GNR ainda é mais que antes do 25 de Abril".

SE HÁ UM GUARDA, BOM, QUE DISTA A FARDA
Há quem diga que há guardas bons, que eles só agem a mando do governo e não têm culpa. Tal foi a opinião expressa por Carlos Brito, chefe do grupo parlamentar revisionista na AR. Tal não é a opinião dos trabalhadores. Foi o camarada Firmino que nos disse e repetiu várias vezes ao longo da conversa: "Dizem que lá há bons, mas se lá houver alguém que dispa a farda nesta altura. Todo o que vestir aquela farda não se consideram como bons."
Mas não era só a opinião do camarada Firmino, uma mulher presente contou-nos que, durante a carga, "uma mulher lhes disse: vocemecês larguem essas fardas, mais armas e cães e venham lutar ao nosso lado, malandros"

SE VIESSE UMA LUZINHA QUE FOSSE DO 25 DE ABRIL...
Mas não só sobre o carácter da GNR se falou. Os trabalhadores sentem porque ainda hoje ela existe. Têm uma explicação clara para isso. Foi o que disse o camarada Firmino:
"Se virem uma luzinha, uma aragenzinha do 25 de Abril, um 25 de Abril mais a sério... Agora bateram eles, mas depois...Eles são muito mais odiados que antes do 25 de Abril. Todo o povo trabalhador, todo o povo que está com a revolução odeia os gajos. Desde o mais pequeno trabalhador ao maior intelectual.
Perdemos uma grande oportunidade, 25 de Abril, 26, 27, tínhamos levado a revolução adiante e hoje já não havia cá GNR. O que não lhe fizemos, fazem-nos eles agora a nós, uma revolução é uma revolução e tem de ser levada a sério".
A experiência é muito-rica e tem sempre grandes ensinamentos. Os trabalhadores não esquecem o passado ainda recente, e lembram "que sempre respeitamos, os GNRs". Hoje já não fariam o mesmo, já não deixariam à solta para um dia eles os cavalgarem de novo. "Faríamos uma revolução a sério!"
Falaram-nos também duma revolução e dos seus princípios. Sobre aqueles que se passam para o inimigo, que estão contra quem trabalha, dizem- -nos que "ele pode ter sido um amigo, mesmo um irmão, mas se estamos numa revolução e ele é trabalhador como eu não posso tolerar que estejam contra mim. Pode ter a ideologia que quiser, mas no que respeita cá ao trabalho..." Em palavras simples falaram- -nos na justiça do povo, uma justiça cuja lógica é o interesse de quem trabalha e produz, do trabalhador.

OUVIMOS TRABALHADORES PEDIR ARMAS
O que se passou no dia 25 em Mora, a grande manifestação que no dia 26 reuniu 20 000 trabalhadores na "maior manifestação que cá a terra viu", não foi o fim da luta, antes apenas o seu começo.
Foi o camarada Firmino que nos explicou: "tudo o que está naquelas terras foram os trabalhadores que fizeram. Umas coisas foram feitas ainda pelos trabalhadores quando eram explorados pelo patrão, outras, muitas, foram já feitas pela cooperativa. Nada, nada menos foi feito pelo agrário, que tem mãos firmes e nunca trabalhou à altura!" E mais adiante: "já tiraram uma reserva, se não tirar mais, aquela cooperativa vai ficar com excesso de mão de obra, fica pequena para tantos trabalhadores, vai voltar ao desemprego"
E isto os trabalhadores não suportarão, não foi para tal que trabalharam e se sacrificaram. A sua disposição de luta é inabalável: "podem-nos tirar o crédito, podem-nos fazer tudo, mas só nos tirarão a terra a meio da porrada, façam lá o que fizerem. A gente já passou muita fome, aguentamos a fome, ordenados baixos, tudo, mas a terra é nossa!"
Não tencionam pois dar tréguas aos agrários: "Na minha ideia só com uma grande força da GNR é que o agrário lá pode ficar". Apenas a razão da força vence quando tem a força da razão.
Mas a própria GNR, à sua brutalidade animal, os trabalhadores resistem. No dia 25 "os guardas também, levaram, nós procuramos resistir, apesar daquilo ser muito estreito" Foi com pedras correntes, o que havia à mão. Contudo já muitos trabalhadores "pediram armas, gritaram, dêem-me uma caçadeira, dêem-me uma espingarda"
O povo alentejano é corajoso e revolucionário, está firme na defesa da Reforma Agrária. Essa firmeza está bem patente nestas palavras sinceras duma mulher e que, não hesitam em afirmá-lo, podiam ter sido ditas por qualquer dos outros camaradas com quem conversámos.

"Digo e estou pronta para a luta. Tenho dois filhos, tenho o meu homem e não esmoreço. Tanto me faz a mim morrer hoje como morrer amanhã. Morro porque sou uma mulher revolucionária".

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