domingo, 25 de junho de 2017

1977-06-00 - Posições Nº 2 - Movimento Estudantil

Apresentação do Número Dois

Uma nova revista é como um amor novo: uma aventura com tudo o que isso tem de exaltante, mas também de intemporal, de eterno. Um projecto é sempre necessariamente, o compromisso entre uma ideia e uma realidade, isto é um devaneio pretensioso. E tal coisa apenas poucos podem afirmar sem caírem no ridículo. O comum devaneio pretensioso é o estado de espírito dos que estão, por esta ou por aquela via, sob o aconchegante calor do pensamento dominante. Marginal quer então dizer; imagem da dominância no espelho da consciência fácil, da consciência (real no nosso mundo) que resolve os problemas através da definição de maiorias e minorias.

Ora, projectar uma revista marginal é pretender centrar as margens no espectro dessa mesma consciência fácil, é propor do nosso próprio lugar uma visão central, é aceitar o jogo de espelhos graças aos quais nos vamos aguentando, fixar na imagem da inversão topográfica do objecto e da imagem.
O nosso projecto era afinal não mais do que a figura duplas da guerrilha para o poder do novo poder que faz a revolução através de uma mudança, ela ainda duplas mudança de fonte e mudança de caminho - não mais o oriente mas o ocidente, não mais o mar, mas a terra.
É evidente que tal trânsito significava, no interior do projecto Posições, a adopção de novos mestres e de novas posições teóricas, significava uma contestação, não da nossa faculdade, mas dos nossos professores - dos Platónicos, dos Orteguianos, dos marxistas. Era afinal uma questão de distinção. Opor Deleuze a Platão, Foucault a Marx, Nietzsche a Ortega, - Escreveríamos assim uma bela página da História do Espírito!
Mas o que, quando a paixão irrompe é claro e inevitável, torna-se depois menos claro e menos inevitável. Isto és menos reaccionário. Não fomos criticados. Excepto por aqueles que se fossem inteligentes, teriam compreendido que éramos os seus melhores aliados. Os seus únicos aliados com força suficiente para sermos autênticos aliados.
Nem tão pouco tivemos discussões internas. Simplesmente o tempo passou.
E o número dois sai agora. Atrasado porque o projecto inicial deixou de nos interessar. Porque compreendemos que uma revista teórica, ou faz pouco barulho ou é reaccionária.
E saímos porque foram assumidos compromissos externos e porque, melhor ou pior os queremos cumprir.
Não podemos agora prometer um terceiro número. Mas podemos afirmar que, se ele existir, não poderá ser igual a estes dois.

Rui Magalhães

Sousa Dias

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