terça-feira, 6 de junho de 2017

1972-06-06 - POR UMA ASSOCIAÇÃO DE TODOS OS ESTUDANTES - Movimento Estudantil

POR UMA ASSOCIAÇÃO DE TODOS OS ESTUDANTES
Nº 6 - 6/6/72

Comunicado da Direcção da AEISCEF

Avançar na Luta
1 - O QUE SE TEM PASSADO NA ESCOLA.
Após um longo período de letargia no trabalho de massas no ISCEF quebrado por um ou outro processo (caso de Matemáticas II) e uma ou outra iniciativa e reforçadas pelas discussões de 'dirigentes' digladiando-se ou investigando segundo uma linha 'justa' o 'sexo dos anjos', o período eleitoral constitui a primeira mudança como resultado do expresso no programa aprovado pelos resultados eleitorais pela consciência e vontade de restituir a AE aos estudantes fazendo com que o seu querer seja o querer das massas pelas propostas desde logo avançadas.

Perante as perspectivas de acção estudantil na luta pela resolução dos seus problemas logo as proibisses surgiram tomando como pretexto a reunião de cooperativistas. A unidade dos estudantes e a sua combatividade mostram que estes estavam prontos a defender as suas conquistas.
E no dia 16 de Maio o Governo continua a sua escalada repressiva de encerramentos das AE (escalada essa que até então já tinha lavado ao encerramento de oito Associações) ao encerrar a Associação dos estudantes de Económicas, intervindo brutalmente e pondo a polícia no ISCEF. Face a isto os estudantes do ISCEF iniciam uma grande ofensiva contra a repressão.
Os espancamentos de estudantes no IST a ISCEF e de assistentes no último, a destruição de salas e gabinetes, o assalto à secção de folhas, o impedimento do tratamento as perseguições até nas Casas do Saúde e Hospitais o encerramento das instalações das AAEE das duas escolas estão ainda bem presentes na memória de todos. Foi mais uma carga policial na “boa tradição" que já em Coimbra brindou com o ferimento a tiro de um estudante (1969), e morte de outro nas prisões da Pide (1965), etc. ...
Desde 16/5 não deixou a repressão de se continuar a abater sob as mais diversas formas: encerramento do instituto Superior Técnico e Cantina Universitária cargas policiais vigilância policial e pidesca exibições de força operações stop em zonas estudantis aparatos policiais à porta de dirigentes, prisões e tentativas de prisões, instauração de processos e julgamentos sumários provocados sob as mais diversas capas. Simultaneamente a censura dos jornais, as manobras destes e daqueles e em especial do MEN dá o pano de fundo a toda esta montagem.
A resposta dos estudantes também se tem manifestado quotidianamente e em posição de RIAs o plenário rápido na Cidade Universitária logo a 17 apesar do encerramento de Ciências;
A greve de já mais de duas semanas integralmente cumprida as reuniões de estudantes em Económicas com largas centenas de presentes o plenário deliberativo na Cidade Universitária com mais de um milhar de estudantes apesar do período do ano e do aparato policial a distribuição dos comunicados à população a ida dos dirigentes ao MEN e a concentração realizada são reveladoras da unidade dos estudantes da sua combatividade intransigência na defesa das suas conquistas e capacidade de defrontar o inimigo principal dos mesmos.
O apoio dos estudantes tem também sido um factor positivo tento na divulgação de informações como em tomadas de posições (a Ordem dos Engenheiros, a informação de certa imprensa estrangeira Sindicato dos comercialistas etc.).
Uma compilação e sistematização de todas estas informações será um contributo para a luta pelo que a direcção tenciona brevemente elaborar com a colaboração interessados um dossier destes acontecimentos.

2 - Interpretação dos acontecimentos
A direcção tem sismáticamente procurado formas democráticos de actuação e cumprindo as decisões tomadas pelos estudantes. Assim continuará a proceder porque sente que esse é o querer da maioria dos estudantes.
Isto não significa que não exprima as suas posições as suas interpretações dos acontecimentos e tal é importante.
Explicitarem as causas dos acontecimentos só pode ser feito tendo em conta a situação geral do país as contradições e tensões económico sociais e papel dos estudantes e das suas lutas. Mas fica por ai a incapacidade de interpretar a situação no concreto e construir uma base de acção. Ficar por ai é nada dizer por que razão a repressão se abate naquele momento e naqueles locais.
Apesar da luta estudantil ter manifestado durante este ano um refluxo muitos milhares de estudantes, estiveram em pequenas lutas ou em formas superiores de luta revelando combatividade. Por outro lado os períodos eleitorais abriram perspectivas dum reforço da luta. A repressão pretende cortar essas perspectivas liquidando a luta dos estudantes e para tal o ataque a pessoas fundamentalmente aos organismos de massa dos estudantes como são as AAEE.
Para tal lançam-se sobre duas escolas importantes no contexto associativo de Lisboa a coberto do período do ano da desmobilização.
Para aumentar essa desmobilização encerram posteriormente a Cantina da cidade universitária.
Procurando numa altura propícia decapitar vanguardas e estruturas procuraram simultaneamente impedir qualquer manobra dos estudantes de Lisboa de solidariedade aos estudantes de Coimbra isolar os estudantes da população, quebrar a unidade estudantil.
Os pretextos fortuitos, as histórias "apaixonantes" sobre golpes de estado e golpezinhos, as provocações, as interpretações pessoalistas e palacianas são dados a ter em conta mas de interesse secundário.
Enquanto houver lutas estudantis na defesa dos seus legítimos interesses e resolução dos seus problemas, enquanto houver organismos legais de massa reagende-se por princípios democráticos, enquanto houver um governo desligado dos interesses da maioria a repressão sobre os estudantes nas suas diversas formas concretos e objectivas existirá. Considerar que novos tempos “pacíficos” surgiram ou interpretar a repressão como uma angústia subjectivista e existencialista é facilitar a própria repressão.

3 - Ensinamentos a extrair
Como em qualquer luta aberta a situação é complexa. Se atendermos à grande diferença entre a luta neste período e nos anteriores, e às formas de luta adaptadas, verificaremos quão grande é a inexperiência de muitos estudantes e a dificuldade do momento.
Alguns ensinamentos centrais são:
(a) O movimento associativo continua a constituir a forma agregadora da grande maioria, dos estudantes, o campo fundamental da acção destes. O carácter de massas das AAEE liga-se estreitamente aos processos democráticos de actuação ao campo legal que conquista e impõe Considerar que as AAEE não têm interesse e estão historicamente ultrapassadas é demitir-se de facto da luta que neste momento se deve travar.
   (b) Numa altura, que não é só agora, em que o Governo procura liquidar o Movimento Associativo pelas mais diversas formas, a luta unida dos estudantes contra o encerramento das AAEE pela reabertura das suas instalações pela libertação dos estudantes presos, pelo fim dos processos etc. constitui o objectivo central da luta do Movimento Associativo.
Constitui grave factor de desmobilização e de não resposta oportuna aos acontecimentos o considerar a luta contra a repressão em abstracto identificando-a com um problema subjectivo.
A luta contra a repressão nas mais diversas manifestações concretas é uma luta ofensiva, ou pode sê-lo, reforçando a combatividade e a experiência dos estudantes impondo vitórias e consolidando-as.
(c) A acção conjunta de todos os estudantes a sua unidade, querer de acção de largas centenas de estudantes é capaz de fazer recuar a repressão, tem todas as possibilidades de obter grandes vitórias. Menosprezar esta capacidade, encarar as massas estudantis como "carneiros" e "bebés" é desconhecer a realidade e permitir o avanço da ofensiva repressiva é trair os estudantes e dar ao governo vitórias. Com efeito em muito pouco tempo e apesar dos erros cometidos grandes vitórias já foram conseguidas: reuniões amplas sem qualquer intervenção da polícia incluindo o plenário, certas iniciativas culturais, ampla unidade forjada obtenção de instalações provisórias da AE, a libertação de estudantes presos, a não prisão de mais, a informação à população e as próprias manobras demagógicas do MEN fazendo cedências parciais, fazendo promessas e pretendendo livrar-se da responsabilidade constituem vitórias dos estudantes são o reconhecimento da sua força e podem e devem ser aproveitados pela luta estudantil.
(c) Os estudantes revelarem no seu conjunto grande combatividade o que mostra que o refluxo verificado durante este ano deve-se fundamentalmente à incapacidade e incompetência de muitos dirigentes. No entanto reflectindo deficiências do trabalho anterior apresentam deficiente espírito de iniciativa e experiência.
Embora aquém das vantagens do processo há deveras deficiências quer resultantes do enquadramento do processo quer dos estudantes ou grupos de estudantes quer ainda da direcção.
Numa altura em que é necessário por todos os meios unir os estudantes e orientá-los na luta pela reabertura da AE; alguns grupos de estudantes apenas se preocuparam em criticar sem avançar contra propostas e não colaboram no cumprimento das decisões da larga maioria doe estudantes.
O processo tem adquirido formas massivas de luta que se concretizam por um elevado número de estudantes nas reuniões mas um reduzido número no trabalho de cumprimento das decisões ai tomadas. Debilidades de organização associativa e de capacidade de enquadramento de novos estudantes nas estruturas existentes ou a criar.
Deficientíssima informação aos estudantes de Económicos tende-se subestimando a informação escrita que leva a não atingir todos os estudantes mas apenas a que têm participado nas reuniões. Ainda maior é a deficiente informação aos outros estudantes do país.
Apesar das propostas apresentadas pela direcção e aprovadas pelas RGAs procurar combinar diversos níveis de actuação conjugar a luta contra a repressão com a luta pedagógica e a actividade cultural não se tem conseguido a conjugação desses diversos planos de luta.
Grande inexperiência de reunião de que resultou alguns dos erros anteriores sendo de acrescentar a má condução de reuniões e muito em especial a não explicação junto dos estudantes do conteúdo total das propostas.

4 - Aspectos do trabalho a desenvolver
Compete às reuniões dos estudantes tomarem o caminho a seguir e vincular a eles todos.
Assim tem sido feito. Assim continuará a procurar fazer-se de forma cada vez mais democrática
A direcção limita-se agora a exprimir algumas considerações sobre alguns aspectos gerais e esboçar propostas que oportunamente apresentará.
A - Sendo de manter a diversidade de objectivos de luta até agora apresentados não é de perder a perspectiva que a reabertura das instalações da AE é o aspecto principal, um lado as vitórias já conseguidas abrem caminho a novas vitórias e por outro lado em posição de uma vitória total dos estudantes. Neste campo para além de reforçar o movimento internamente abre perspectivas a curto prazo aos estudantes do Técnico para luta semelhante e cria grandes potencialidades à luta dos estudantes de Lisboa, Porto e Coimbra pela reabertura das AAEE encerradas.
Conscientes desta responsabilidade nacional as estudantes e Económicas devem manter-se firmes até a abertura total das instalações, não desmobilizando com cedências parciais ou promessas tendo presente que a luta objectiva e imediata é a que atinge todos aqueles que reprimem os estudantes portugueses e não apenas o MEN ou qualquer outra estrutura.
A greve tem sido e continua a ser uma forma eficiente de lutar. Manter firme a greve mobilizando os estudantes para diversas iniciativas é o caminho.
   (B) A luta dos estudantes reforça-se tanto mais e conquista mais vitórias quanto mais for o movimento geral de apoio. Conscientes de que são a vanguarda da luta, que o seu caminho é traçado pelos estudantes democraticamente, deve-se procurar reforçar a solidariedade à nossa luta, procurar novos apoios, manter os existentes unir todos os interessados na base dos nossos objectivos. Ter receio da unidade é desprezar a sua própria força.
   (C) Cumprir e fazer cumprir integralmente a ultima proposta aprovada em RGA é muito importante pois há que reforçar a luta pedagógica, combinar as exigências do teor da avaliação de conhecimentos e conteúdo das matérias com a perspectiva de greve, alargar e ampliar as iniciativas culturais e de convívio que chamem novas camadas de estudantes.
   (D) Reforçar a informação e propaganda aos estudantes da escola e fora dela. Procurar aproveitar por todas as formas os meios de informação e, de denúncia da inexistência de liberdade de expressão de pensamento.
   (E) Aumentar o carácter deliberativo e vinculativo das RGAs, por uma maior mobilização, preparação e direcção.
   (F) Pressionar o movimento federativo de Lisboa a acompanhar o processo e tomar iniciativas, em especial estreitar a ligação entre a luta dos estudantes de Económicas e do Técnico.

PELA CONQUISTA DE NOVAS VITORIAS
PELA REABERTURA DAS AAEE


Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo