sábado, 17 de junho de 2017

1972-06-00 - O Tempo e o Modo Nº 092

o que faz tropeçar os reform(oral)istas

Um liberal é um liberal. Não há que pedir-lhe mais do que ele pode e quer dar. Não fica mal, contudo, redefinirmos as coordenadas do pensamento e da acção de um liberal muito em voga e muito em vista, o deputado Francisco de Sá Carneiro, tanto mais quanto é ele próprio a dar de si uma imagem politicamente autobiográfica assaz completa, em entrevista que fez com que se tivesse «esgotado a República de 11 de Janeiro de 1972, em que pela primeira vez foi publicada», «razão que justifica (...) a edição» em brochura (*) da mesma entrevista, segundo a apresentação dessa mesma edição da Moraes.

Em primeiro lugar é urgente constatar que Sá Carneiro é um reformista. Diz ele que «Há pois que caminhar no sentido de soluções que em muitos sectores serão necessariamente socializantes». E diz mais, pouco adiante: «E no próprio esquema capitalista se vão hoje os governos aproximando cada vez mais de soluções socialistas ou socializantes». Nada de original, nem sequer de exclusivo de liberais: de Brejhnev a Tito, passando por Garaudy, Dubcek e levtutchenko, muito boa (?) gente não tida tradicionalmente por liberal funciona pelo mesmo conceito de «socialismo». Que lhes faça bom proveito.
Característica sim peculiar e dolorosa deste reformista, é não saber nada. Não se julgue que é com ironia ou azeda acrimonia que se imputa ao porta-voz do reformismo parlamentar uma palmar ignorância, com o malévolo intuito polémico de o denegrir — é ele próprio que, com notável candura, nos confessa repetidamente que não sabe, que não percebe, que não vê.
Quanto ao «problema do Ultramar», Sá Carneiro, num transporte de humildade, admite que «honestamente não posso estar à vontade para falar de directrizes. Só conheço Angola e superficialmente. Tenho, portanto, uma visão muito limitada (...) Mas directrizes políticas concretas seria pretensão minha dá-las sem conhecer todo o Ultramar e, mais do que isso, sem estar de posse de toda uma informação completa, que não tenho (...). Ora, é só de posse de uma informação completa que será possível traçar directrizes e fazer política. O grande defeito de que a meu ver enfermamos todos é essa falta de informação».
Face ao apoio de outros governos ao governo português e à presença de bases estrangeiras no território nacional, o deputado do Porto declara que «não tenho elementos que me permitam ajuizar da ligação entre uma e outra coisa». No concernente à base das Lages diz, hesitante, que «desconheço em que regime [se encontra a base concedida, TM] (...) mas o que me parece é não haver ligação directa entre a existência dessas bases e um certo comprometimento político-diplomático, embora não exclua a hipótese».
E para cúmulo, termina a entrevista, curta de vinte e três páginas, dizendo que «não faço a menor ideia» do que irá pensar o chefe do governo da própria entrevista!
Mas tão (ou mais) significativas do que as lacunas frequentes de informação ou sabedoria de Sá Carneiro, são algumas das suas teses. Apenas meia dúzia das mais gritantes:
— «sem liberdade de reunião e de associação, com risco de inexistência de efectiva liberdade de expressão, não vejo qualquer possibilidade de acção política válida e continuada»;
— «feita uma opção — a que fiz em 1969 — há que suportar todas as consequências e efeitos dessa opção e aguentar com a responsabilidade dela decorrente se, como eu receio, não puder realizar aquilo que me comprometi a fazer perante o eleitorado e no sentido de cuja obtenção tenho trabalhado»;
— «De facto, até agora a situação não se modificou em relação ao período anterior» [referência do governo de Marcelo Caetano face ao de Salazar, TM];
— «de resto, creio que o problema do Ultramar se insere no mesmo contexto do problema metropolitano e nem sequer é muito específico.» (sic);
— «creio que o regime do prof. Marcelo Caetano se manterá. Que não haverá perspectivas de reforma além daquelas que ele mesmo entender»;
— «quanto às correntes de opinião, o que temos entre nós, quando muito, são correntes de pensamento, visto que, não havendo liberdade de expressão, essas, correntes de pensamento jamais se podem transformar em correntes de opinião com impacto no público».
Dificilmente seria concebível maior manifestação de incompreensão e impotência políticas. Representante natural de facções economicamente ascendentes da burguesia industrial e financeira, Sá Carneiro não é capaz, como ninguém do seu grupo, de exprimir em termos políticos, em termos de programa, em termos de análise, em termos de intervenção em suma, a importância infraestrutural e o dinamismo empresarial dos seus representados. As suas visões idealistas e meramente «políticas», «jurídicas», moralisto-individualistas, estão desfasadas da realidade social, em que não penetram sequer. Raciocinando segundo um dever ser abstracto e metafísico, reaccionário mas estéril (= inofensivo), deliberadamente marginal e rabugento, demissionista e masoquista, Sá Carneiro e os seus pares não irão longe.
Porque os reformistas, ou melhor, quem beneficia com as reformas, largá-los-ão bem depressa — em política, a ineficácia é fatal — e necessariamente se inclinarão ou para o reformismo do governo ou para o reformismo de uma certa «esquerda» sem «escrúpulos» doutrinários (ou outros).
Sobrevirão os Sá Carneiros como má consciência vagamente incómoda e cívica (sobretudo cívica) de uma burguesia crescentemente adestrada e amadurecida politicamente, capaz de se aliar com antigos Diabos, quando chegar o momento, conhecendo com mais lucidez amigos (novos) e inimigos (de sempre) — mas sem conseguirem exprimir em poder, qualquer espécie de poder, essa «intervenção» criticizante e ética. Editarão duas ou três revistas de pequena tiragem, serão citados pelo «Monde» de vez em quando, farão alguns discursos amargos nos períodos eleitorais e receberão condecorações em embaixadas estrangeiras, a que o «Diário de Lisboa» se referirá em três ou quatro Notas do dia seguidas. Mas não desempenharão qualquer actividade política activa, do que, provavelmente, nem sequer terão consciência...
Homens que dizem «considero-me muito mais a pessoa que resolveu trabalhar ao nível da intervenção ética do que um político», e até parece acreditarem mesmo nisso, e são deputados em 1972 em Portugal, não passam de «cadáveres adiados»... A moral e a política não se relacionam entre si como categorias independentes mas coexistentes: toda a moral é política, quer dizer, diz respeito e representa em última análise um dever ser de classe. Quem «entra» na política julgando que é um moralista apenas, «superior» à política, desconhece as raízes da moral, como de toda a superestrutura de resto, e faz política sem saber. Ou seja, defende determinados interesses de classe sem ter a consciência clara disso: a sua actuação objectiva está decisivamente afectada e, logo, prejudicada na sua eficácia pelo desfasamento subjectivo («teórico», se se quiser) entre o que realmente faz e o que julga fazer.
É evidente que outros reformistas ou (e) outros políticos que nem isso são, também não têm uma consciência materialista da sua actividade e função de classe. Mas — felizmente para eles — não são moralistas e vivem «materialisticamente» a sua intervenção política como pontas de lança da sua classe. O não conhecimento por eles das verdadeiras leis da evolução da sociedade, é não só inevitável por parte de quem logicamente tem que actuar contra essas leis, como até é condição da sua eficiência «ingénua», pragmática, política, precisamente pela mesma razão.
Não é, pois, por Sá Carneiro não fazer análises que se coadunem com o materialismo histórico que ele deixa de ser eficaz e se marginaliza. Isso é normal, embora não deixe de ser pedagógico verificá-lo. Sá Carneiro perde terreno e vulnerabiliza-se porque tenta substituir essa fatal incompreensão histórica por uma pseudo-moral pretensamente super-classista, que, não o sendo evidentemente, empecilha qualquer hipótese de praxis coerente que possa tentar.
Não sabendo coisa nenhuma, ou seja não podendo assumir as consequências dos interesses profundos que realmente defende, mas não podendo assumir a sua denúncia, apresentando-se como movido por imperativos morais e reformistas, sendo os reformistas também morais, em última análise, pois não referidos explicitamente a desígnios políticos, Sá Carneiro é bem a imagem da impotência do reform(oral)ismo.


(*) «A liberalização bloqueada», colecção Actualidade Portuguesa, Moraes editores.

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