terça-feira, 30 de maio de 2017

1977-05-30 - Improp Nº 04 - III Série - Movimento Estudantil

EDITORIAL

TRÊS DIAS DE GREVE.
TRÊS DIAS DE LUTA.
Os estudantes de Lisboa mostraram mais uma vez que estão dispostos a não ceder nas suas conquistas fundamentais e a não aceitar a política repressiva de direita que Cardia tem tentado aplicar nas escolas. Isto é um facto irrefutável que nem aqueles que tudo fizeram para desmobilizar a greve podem negar. As percentagens de aderência na Academia são bem prova disso.
Demonstraram também a sua solidariedade activa para com os colegas de Coimbra em luta pela reabertura da Universidade sem saneados.
Em Coimbra os estudantes levantam-se contra o referendo-burla pela defesa das Assembleias democráticas exigindo a reabertura da Universidade. Carda ao impor o referendo pretende dar uma ideia falsa da vontade dos estudantes da Academia: que estes são cãezinhos dóceis da sua política e que até se pronunciaram "democraticamente" pela reabertura da Academia com saneados! A isto já os estudantes responderam e continuarão a responder: a alternativa é entre uma escola progressista sem os saneados e uma escola retrógrada com aqueles que foram os pilares do fascismo.
Outro aspecto da luta estudantil é a luta contra a repressão.
Durante muitos anos, antes do 25 de Abril, a ditadura fascista não podendo conter com argumentos a forte contestação do seu sistema pelos estudantes, usava então a repressão como forma de intimidação e domínio sobre estes. Hoje assistimos, ainda que incrédulos, a actos que nos fazem lembrar esses negros tempos. A carga policial, no Porto sobre as estudantes é bem exemplo disso.
Há pois que exigir do Governo a punição severa dos responsáveis por aquela actuação que não fica atrás das cargas brutais da polícia de choque fascista.
Outro objectivo é ainda exigir do MEIC a resolução dos problemas que afectam a Universidade e preocupam os estudantes e todos os que nela trabalham.
No caso particular da nossa Faculdade é o não funcionamento de algumas cadeiras (caso da Biologia e Geologia), é as reestruturações que são feitas nas costas dos estudantes (salvo honrosas excepções graças ao espírito democrático de alguns professores), é ainda a luta contra a reintegração de saneados que segundo o MEIC são pessoas honestas, que nunca fizeram mal a ninguém, etc.
Tudo isto são problemas que a todos dizem respeito e que ninguém por certo ignora, mas que são desprezados pe­lo MEIC e todos aqueles que o apoiam.
No entanto levantam-se a alguns colegas várias dúvidas.
Seremos nós capazes de vencer esta luta? Serão os estudantes capazes de se levantar em peso e opor-se às medidas reaccionárias do MEIC? Pensamos que sim. Para isso é necessário que todos compreendamos que isso só será possível pela sua luta. A experiência tem-nos mostrado que o MEIC não tomará, só por si medidas progressistas no sentido de resolver todos os problemas que hoje afectam a Universidade. Temos de ser nós a impô-las.
E ainda necessário que exista uma unidade entre a maioria dos estudantes, sem a qual não poderemos avançar com formas de luta que nos permitam opor a essas medidas.
Estas atingem-nos a todos e devemos ser todos a responder. Um grande exemplo disso deram-nos os colegas de Coimbra. Temos de mostrar a todos os colegas que a solução dos seus problemas não está numa tomada de posição passiva ou mesmo na ideia de que será o MEIC a resolvê-los. Está em unir-mo-nos em torno dos objectivos atrás enunciados e em lutar para que estes sejam levados à prática.
Mas para isso é também necessário que essa luta não fique isolada e que tenha o apoio de grande parte da população, nomeadamente dos trabalhadores.
Isso é já hoje uma realidade: cada vez é mais a contestação dos trabalhadores à política de cedência à direita do Governo de Mário Soares. Também a luta dos estudantes é uma luta contra a política de direita de Sottomayor Cardia. Estes factos e inúmeras manifestações de apoio mostram que os trabalhadores sentem como sua a luta estudantil.
Há portanto que prosseguir na luta pois só assim poderemos evitar que o destino da Universidade vá para as mãos de quem não irá, concerteza, pô-la ao serviço de quem a sustenta e que por isso tem esse direito: o povo português.

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