sexta-feira, 26 de maio de 2017

1977-05-26 - O Proletário Vermelho Nº 81

EDITORIAL
A HISTORIA QUE POR AQUI PASSA

Foram necessários anos e anos de lutas e combates para chegar aqui e, afinal estamos ainda tão longe. O capitalismo europeu está próximo do “desemprego” enquanto o americano - não sem deixar de espreitar a distracção dos povos — procura arrumar o seu quintal. Foram necessários centenas de anos de guerra de classes para que isto acontecesse. E hoje, os que hoje vivem a História que por cá passa com lucidez e consciência têm dificuldade em lhe encontrar o exacto curso.
Todos os anti-marxistas viram o seu cepticismo reduzido a pó. A luta de classes motorizou a História como os pés movimentaram o corpo. A dificuldade está - continua a estar - porém em “viver” essa História. Vivê-la porque e enquanto por cá passa desta maneira.

ABRIR UM PACTO CONTRA O PACTO IBÉRICO
Durante meio século — de História de Portugal e do Mundo - os povos assistiram ao advento e à “consolidação” de várias formas de governo forte capitalista, de governo fascista: a Alemanha, a Espanha, a Itália, depois Portugal e a Grécia. E isto habituou as pessoas de hoje à ideia de que o fascismo “foi uma coisa de sempre”, de que o fascismo “será um flagelo de sempre”. As pessoas criaram a ideia profundamente errada de que era o fascismo a forma preferida de governo capitalista, de que o fascismo podia “acontecer” em qualquer momento, nacional ou internacionalmente falando. Esta ideia está felizmente a ruir pela base com o próprio desmoronamento das velhas normas morais da burguesia em decadência:
- Um porta-voz da Casa Branca promete apoio aos inimigos do “apartheid” e do governo de Pretória! Pode ser “bluff”, mas ainda que o seja é sinal de falta de cartas fortes.
- Os meio-centenários regimes totalitários da Europa caem, um após outro, no espaço de meses, como se de moléstia se tratasse! Pode ser “coincidência", mas ainda que o fosse não deixaria de ter as suas implicações.
- Por detrás de tudo isto, os povos dos Novos Continentes, os velhos escravos do “engenho” das Europas e Américas, recusam receber ordens das grandes potências e encontram a necessária força na sua unidade crescente. Pode ser “acaso”, mas não deixou de vibrar o seu golpe na estabilidade do velho Mundo.
- Os velhos hábitos e “tabus” desmoronam-se, à força da sua própria corrupção, e os direitos dos homens ampliam-se dia a dia, aos povos, às raças, aos sexos, às religiões, o que poderá ser “a decadência dos bons costumes”, mas não deixa de ser a vitória de novas ideias.
- Dois governos, dois exércitos de dois povos unidos por ignominiosos pactos de velhos crápulas, como o foram Franco e Salazar, reencontram-se de novo e “de novo enroupados” para denunciar tal pacto e reconstruir relações novas.
- A velha ordem das coisas, desfeita, descomposta, putrefacta, assiste feita cadáver à nova ordem mundial, ordem das ideias, das forças dos governos, da fraternidade dos povos, do avanço da consciência do Homem. E isto só pode ter sido resultado dos milhares, dos milhões de combates que cada explorado, cada oprimido, cada colonizado, travou com os seus iguais contra o “dictat” e a tirania.
No que nos respeita, a lição é bem legível, os resultados palpáveis, mesmo que insuficientes para os anseios de cada um.
O velho egoísmo, o sistema antigo de coisas, bem protesta e esbraceja nas praias de todos os Restelos. Não conseguirá parar a roda da História, avariar o motor da luta de classes.

O GÉRMEN DA DESTRUIÇÃO
Porém, no horizonte e a cavalo nesta nova realidade, ergue-se já a ameaça vizinha do novo fascismo, manobra a besta fera do Kremlin, engordado na esteira das revoltas dos povos.
Ergue-se porque as novas coisas não são definitivas mas modificáveis, não são imóveis mas transformáveis em contínuo. Porque trazem no seu seio o gérmen da sua própria destruição a favor de uma ordem mais perfeita. É o grande ciclo histórico do homem à procura da sua forma social mais conveniente que se aproxima do fim. A pré-história do Homem que se apresta a encerrar as portas do obscurantismo, da ignorância, do oportunismo, da exploração do homem pelo homem. E encerra-as abrindo-as por outro lado para a consagração mais perfeita dos direitos individuais, harmoniosamente articulados para viver que não para oprimir.
A História que por aqui passa - que, afinal, sempre por aqui passou menos apercebida e evidente - é afinal a marcha irreversível da velha ordem do Mundo para a nova, da velha opressão do individualismo egoísta para o humanismo novo, conquistado, da liberdade que virá. Para todo o homem e graças a luta do homem. Graças à luta de classes. Como Marx o dissera e a realidade nos mostra. Aos que podem e querem VER.

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