sexta-feira, 26 de maio de 2017

1977-05-26 - Luta Popular Nº 545 - PCTP/MRPP

EDITORIAL
AS GRANDES MANOBRAS

De súbito, todos os partidos burgueses e pequeno-burgueses, pela voz da sua imprensa ou dos seus dirigentes, se vêem compelidos a falar de crise.
De «situação crítica», diz o dr. Freitas do Amaral; de «crise de identidade», sentencia o dr. Sá Carneiro; de «crise constitucional», corrige o dr. Barreirinhas Cunhal, pelas penas dos seus lacaios Piteira Santos e Miguel Urbano Rodrigues; de «crise nacional», prefere o editorialista da CIP, dr. Proença de Carvalho; de «ambiente de crise», congemina o social-monárquico dr. Sousa Tavares; de «vésperas de um novo 28 de Maio», chora com baba e ranho o dr. Raul Rego.
Até ao passado sábado, a palavra crise estava rigorosamente banida das páginas daqueles jornais, não saia da boca daqueles políticos, nem escorria da pena daqueles plumitivos. Vinte e quatro horas depois, ela sai de todas as bocas, salta de todas as páginas e escorrega de todas as canetas.
Há cinco semanas, o dr. Mário Soares, falando para um grupo de magnatas ianques com investimentos no nosso país, garantia-lhes que «Portugal era o país do sul da Europa com maior estabilidade política» e, ontem, o seu porta-voz director de «A Luta» grita aqui del rei, que estamos de novo em 1926…
Que terá feito todos estes reaccionários, oportunistas e filisteus abandonar os conceitos de «acalmia» e de «estabilidade» política a que se aferravam, para substitui-los pelo de crise política? Não será, de certo, porque os tenham convencido a análise e as posições políticas do nosso Partido, continuamente examinando o evoluir da situação política e caracterizando o acumular dos factores da crise que se aproxima.
A verdade é que os factos falam por si, e já não é mais possível aos politicastros burgueses e a sua imprensa vendida negarem a realidade e o sentido desses factos, escondendo que uma nova crise política se encontra em adiantado estado de gestação no bojo da sociedade.
Mas, por outro lado, a verdade é que convém aos partidos, aos políticos e à imprensa do capital — agora que todavia a crise política real não eclodiu ainda, em toda a sua profundidade e envergadura — falar aceleradamente de crise, pelas mesmas razões porque antes a pretendiam ocultar.
Antes, escamoteavam eles o acumular vertiginoso dos factores de uma nova crise política, para poderem manobrar à vontade nos bastidores, longe dos olhos e da atenção dos operários e do povo trabalhador, reunindo e preparando, com a discrição própria dos homens de negócios, todos os instrumentos necessários para fazerem face à verdadeira crise, na altura oportuna. Isto é, para poderem apanhar de surpresa a classe operária, atacá-la sem aviso e procurar desbaratá-la.
A derradeira semana, porém, e mais precisamente os últimos dias tornaram de certa maneira ineficaz essa táctica. É que, onde a semana anterior via uma simples «crise académica», a semana em curso vê crescer uma vasta movimentação democrática dos estudantes; e, factor muito mais convincente e decisivo, vê a classe operária, através do seu sector mais avançado, o dos metalúrgicos, movimentar-se e surgir na rua em todo o país. E se é certo que os metalúrgicos não se desenvencilharam da influência social-fascista na sua movimentação de hoje, não é menos certo também que é inequívoco o seu desejo de lutar pelos seus interesses de classe, assim como são inegáveis o seu repúdio e a sua indignação pela política governamental do partido «socialista».
Os políticos e os partidos burgueses não podem já deixar de falar de crise; então falam o mais que podem dela, de maneira distorcida e enviesada, para, à sua maneira, prepararem rapidamente uma opinião pública que dê ampla cobertura às suas grandes manobras e faça pender para o lado do grande capital, o aliado de que necessitam para enfrentar os operários e o povo trabalhador.
As grandes manobras dos quatro principais par tidos burgueses, tal como se desenrolaram durante esta última semana consistiram, por um lado, na iniciativa duma «cimeira democrática», proposta pelo PSD ao CDS e ao P«S», aceita pelo primeiro e de momento recusada pelo segundo, por outro lado, consistiram numa aproximação tácita entre o partido governamental e o partido social-fascista, que se preparam para pôr de pé, nas costas dos operários e contra eles, a política traidora do chamado «pacto social».
Sempre proclamando recusar qualquer aliança privilegiada com um só dos partidos da Assembleia da República, o partido «socialista» julga poder manter o privilégio da aliança com todos eles, chamando a isso uma política «independente».
O resultado dessa política «independente» conhecem-no já os operários e o povo nas medidas antioperárias e antipopulares que o governo do dr. Mário Soares continuamente faz cair sobre os trabalhadores.
É próprio dos partidos pequeno-burgueses e conciliadores, como o que actualmente está no governo, chamar independência à conciliação e autonomia à sujeição aos ditames do grande capital. O dr. Mário Soares pertence àquela espécie de políticos que quer estar bem sentado entre duas cadeiras: entre o proletariado e a burguesia. E, mesmo no que respeita às relações do seu partido com os três partidos do grande capital, ele julga poder sentar-se alternadamente entre as cadeiras de qualquer deles.
Sem dúvida, o futuro mostrará ao dr. Mário Soares, ao partido «socialista» e à pequena burguesia hesitante e indecisa que não há lugar para nenhuma terceira via entre o proletariado e a burguesia, nem para nenhum assento entre os monopólios privados e os monopólios estatais.
É manifesto que se acumulam novos elementos e novos factores para a crise política próxima. Mas esta semana deixou entrever, de uma maneira mais clara do que nunca, que a crise que se aproxima não é apenas a crise de um governo, seleccionável, digamos assim, no quadro do Parlamento ou mesmo da Constituição. Ela é uma crise mais profunda que coloca frente a frente as duas principais classes da nossa sociedade, e dificilmente admitirá as soluções intermédias que tem admitido até aqui.
«Maioria de esquerda», «maioria democrática», «maioria constitucional» ou «maioria presidencial», tudo isso são tácticas políticas viradas contra os operários e o povo; apesar disso, nenhuma delas poderá impor-se, nas actuais circunstâncias e na actual situação política, sem o recurso à força. E as próximas semanas, quem sabe se os próximos dias, mostrar-nos-ão não apenas um agravamento dos factores políticos mas também dos factores militares da crise. Não seria de admirar que as grandes manobras políticas precedessem as grandes manobras militares.
A complexidade da situação política exige da classe operária e dos comunistas uma grande firmeza e uma grande clarividência. Não há que alimentar nenhuma espécie de ilusões nem na Constituição nem nas leis, não há que alimentar ilusões na classe dominante e nos partidos conciliadores. Pelo contrário, há que abandonar todas essas ilusões, há que reforçar a organização dos operários e do povo trabalhador, há que desmascarar e isolar os falsos comunistas e os falsos socialistas.
A classe operária deve formular e defender as suas reivindicações próprias e prosseguir os seus objectivos políticos autónomos, unindo a si os camponeses pobres e as demais camadas trabalhadoras. Apenas um governo democrático popular poderá aplicar medidas políticas profundas, que contem com o apoio e o entusiasmo de mais de 90% da população portuguesa e adopte as medidas correctas, práticas e eficazes (isto é, contra o pequeno punhado de monopolista, de latifundiários, de parasitas e exploradores) para solucionar a crise económica que cada dia traz maior sofrimento e mais miséria para o povo.
Os marxistas-leninistas, todo o nosso Partido deve prestar a máxima atenção e dedicar o maior dos seus cuidados à organização das massas trabalhadoras, ao reforço da sua unidade na base de princípios justos, à coordenação das suas lutas, explicando minuciosamente as peculiaridades da situação política que vivemos e a impossibilidade de encontrar qualquer solução para os problemas do povo fora de um governo democrático popular, fora da mobilização do próprio povo, fora da luta do próprio povo para impor o seu programa operário e popular.
Os trabalhadores não devem deixar-se atemorizar pelos espantalhos agitados pelos diversos partidos que sugam o seu suor à mesa do orçamento. Devem confiar em si mesmos, na força da sua unidade e da sua organização, pela qual terão acima de tudo de lutar.

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