sexta-feira, 26 de maio de 2017

1977-05-26 - CASO NÃO SEJA SOLTO ATÉ DIA 28 DE MAIO - Rui Gomes

CASO NÃO SEJA SOLTO ATÉ DIA 28 DE MAIO
Rui Gomes entrará em greve da fome

BOLETIM INFORMATIVO DA COMISSÃO DE LUTA PELA LIBERTAÇÃO DE RUI GOMES  26-5-77 N° 3

Direcção geral AAC impossibilitada estar presente comício devido radicalização luta académica Coimbra manifesta seu total apoio luta libertação estudante antifascista Rui Gomes no momento que fascismo pretende destruir últimas conquistas 25 Abril saneados voltam escolas fábricas com apoio Governo MEIC suspende aulas FCTUC impondo regresso professores fascistas AAC reputa fundamental importância luta libertação Rui Gomes AAC solidária convosco libertação imediata Rui Gomes morte ao fascismo a luta continua.
DG AAC
Aqueles que querem ver os fascistas passear na Universidade de Coimbra, aqueles que reprimiram os estudantes portuenses, aqueles que mantém preso o estudante antifascista Rui Gomes, são os mesmos que querem devolver as empresas aos patrões, que querem destruir a Reforma Agrária, que soltam os pides e permitem que os bombistas continuem a sua acção terrorista. São os mesmos que querem que sejam os trabalhadores a pagar a crise feita pelos ricos. Esses são os mesmos que tentam que os trabalhadores têxteis não conquistem o seu CCTUV. Contra esses, nós trabalhadores têxteis dizemos: Trabalhadores-Estudantes a mesma luta!
Os trabalhadores da Fábrica Portugal, SARL, reunidos em plenário durante a greve de 13.5.77, em luta pela saída do CCTVN da Indústria Metalúrgica e Metalomecânica, tendo conhecimento que o jovem antifascista Rui Gomes se encontra arbitrariamente preso há cerca de 19 meses...
...exigem:
- A libertação imediata e incondicional do jovem antifascista Rui Gomes.
- A prisão dos pides, fascistas e bombistas.
-  A formação de um verdadeiro Tribunal que julgue a PIDE enquanto organização fascista, a partir dos testemunhos das suas vítimas.

ALARGA SE O APOIO INTERNACIONAL A RUI GOMES
A delegação de Bruxelas da Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas (AEPPA) lançou há cerca de um mês um Apelo Internacional para a Libertação do jovem Rui Gomes, estudante português preso há cerca de dois anos sem culpa formada, no forte de Caxias, em Lisboa.
Este apelo recebeu um apoio entusiástico da parte dos meios progressistas belgas. Com efeito, assinaram já as seguintes personalidades e organizações:
-  Cónego François Houtart, professor na Universidade Católica de Louvain — Sra. D. Elianne Vogel, professora de Direito na Universidade Livre de Bruxelas — CNAPD, Comité National d'Action pour la Paix et le Développement, que agrupa cerca de 30 organizações de juventude progressistas francofones — MCP, Mouvement Chrétien pour la Paix — UBDP, Union Belge pour la Défense de la Paix — ABP, Association que-Portugal — UNEL, Union Nationale des Etudiants du Luxembourg — ORT, Organisation Révolucinaire des Travailleurs — AEAB, Associítion des Etudiants Algériens de Belgique — HdE, Hypothèse d'Ecole, associação de professores de liceu — JOC, Jeunesse Ouvrière Chrétienne du Luxembour — JEC, Jeunesse Etudiante Catholique de Belgique — MRAX, Mouvement contre le Racisme, l'antisémitisme et la Xénophobie — ACRPV, Associação Cultural e Recreativa dos Portugueses de Vilvoorde — Maison des Jeunes 1917 — Maison des Jeunes de Forest — Club Desportivo Português de Antuérpia.
Chamamos a atenção da Imprensa Portuguesa sobre este caso flagrante de violação dos Direitos do Homem e sublinhamos a importância da denúncia de semelhantes situações, no momento em que Portugal se prepara para entrar no Mercado Comum Europeu.

APELO
Homens e mulheres antifascistas!
Juventude progressista!
São passados 20 meses sobre a data da minha arbitrária prisão! Contrariando preceitos constitucionais, infringindo os mais elementares direitos individuais, enfrentando arrogantemente o protesto da opinião pública democrática, nacional e internacional, as autoridades militares continuam a manter-me encarcerado, sem culpa formada e sem perspectivas de julgamento a curto prazo.
A minha prisão já não é só arbitrária! Ela reflecte toda a arrogância das forças do arbítrio e da reacção instaladas no aparelho judicial. A direita quer demonstrar o seu poderio, mantendo-me na prisão enquanto faz julgamentos-farsas dos pides e quando anuncia para breve a libertação do Director-Geral da ex-PIDE, Silva Pais. Por isso a continuação da minha prisão é uma provocação infame a todos os democratas e antifascistas.
Não podemos deixar impune esta provocação! O apoio que tenho recebido de milhares de antifascistas, no país e no estrangeiro, demonstra seguramente a revolta que as prepotências reaccionárias causam ao nosso povo. Julgo que é altura de lutarmos decididamente contra esta situação. Permitir a continuação da prisão de um antifascista é passar um cheque em branco às forças da reacção para que repitam isto no futuro. Vamos permitir de novo presos políticos antifascistas nas cadeias de Portugal? Não podemos consentir nessa afronta!
Permitir a continuação do meu encarceramento sem uma luta tenaz e frontal seria trair a minha condição de combatente revolucionário! Não o faço nem o farei! Honrarei sempre aqueles que souberam dar a vida no combate às forcas retrógradas, por um futuro de bem-estar e felicidade para o nosso povo. Por isso decidi utilizar a arma mais combativa e poderosa de um preso político — a greve da fome! A partir de 28 de Maio, dia em que completo 20 meses de prisão, inicio uma greve de fome ilimitada até à minha libertação ou julgamento. Liberdade ou morte!
Sei que não estou só nesta luta! No decorrer destes longos 20 meses tenho recebido imensas provas de solidariedade. Esta solidariedade é o espelho dos elevados sentimentos antifascistas do nosso povo. Agradeço-vos de todo o coração. Saberei ser digno dela! Quero agradecer, em especial, aos estudantes portugueses a sua solidariedade, aproveitando a ocasião para saudar as suas lutas actuais.
Agora que entro numa luta de vida ou de morte, lanço daqui de Caxias um apelo enérgico para que me apoieis decididamente.
Aproveito a passagem do 51º aniversário do golpe fascista de 28 de Maio para lançar um grito de alerta!
Não permitamos que o clima de repressão sobre o movimento popular e o movimento estudantil se alastre! Lutemos unidos como uma rocha!
Não consintamos que nos retirem as conquistas alcançadas depois do 25 de Abril!
Façamos recuar as forças da reacção nos seus propósitos criminosos! Liberdade para o povo, repressão para os seus inimigos!
Derrotemos os que sonham com um novo 28 de Maio!
MORTE AO FASCISMO!
VENCEREMOS!
Forte Militar de Caxias, 25 de Maio de 1977
Rui Adelino Machado Gomes

QUEM É RUI GOMES?
O estudante Rui Gomes foi um destacado dirigente estudantil de antes do 25 de Abril. Pertenceu à direcção do Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa. Devido à sua consequente actividade antifascista e anticolonialista, foi expulso do ensino em 1973, no D. João de Castro, liceu que frequentava, pelo período de três anos. Foi perseguido pela PI DE e teve que passar à clandestinidade, para não ser preso, meses antes do 25 de Abril. Depois desta data continuou a sua anterior militância antifascista. A 28 de Setembro de 1975 foi preso quando recebia tratamento no Banco do Hospital de Santa Maria, das balas que o atingiram quando os "comandos" de Jaime Neves dispararam sobre os Deficientes das Forças Armadas que se manifestavam frente a São Bento. Acusam-no de se ter tentado introduzir no aquartelamento do RAF de Porto Brandão. Sem provas mantêm-no preso há 20 meses.
Se Rui Gomes fosse um pide ou bombista, já estaria em liberdade como todos eles. Rui Gomes está preso por ser um antifascista — é um preso político!
Amigos e Companheiros de luta!
Foi com espanto que recebi a notícia da integração de professores fascistas saneados, na Universidade de Coimbra. Foi com revolta que soube da violenta repressão de que foram alvo os estudantes que no Porto se manifestavam pacificamente. Foi com grande indignação que ouvi a arrogante e provocatória comunicação do ministro Cardia.
(...)
Mas, como sempre, os estudantes portugueses não cruzaram os braços. Foi com alegria e entusiasmo que soube da rápida resposta que por todo o país, os estudantes dão às medidas repressivas e reaccionárias do governo falsamente socialista.
(...)
Companheiros!
Quando as conquistas alcançadas estão em perigo, quando o fascismo avança a coberto das medidas antipopulares e anti-estudantis do governo, temos que estar unidos e lutar.
Se soubermos avançar unidos como uma rocha, se estivermos ao lado das aspirações populares, se não virarmos a cara à luta, de certo que VENCEREMOS!
Estou convosco nesta hora e convosco grito:
VIVA A LUTA DOS ESTUDANTES AO LADO DO POVO! O FASCISMO NÃO PASSARÁ!

Caxias, 18-5-77
Rui Adelino Machado Gomes

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo