quinta-feira, 25 de maio de 2017

1977-05-25 - Povo Livre Nº 149 - PPD/PSD

VOLATIM
Universidade e crise de objectivos

A CRISE da Universidade continua na ordem do dia. E há já quem fale mesmo numa reedição das graves crises universitárias de 1961 e de 1969. Só que os tempos são radicalmente outros. Só que neste momento não é a ditadura fascista a visada, são-no antes as próprias instituições democráticas. Só que neste momento o pseudo-radicalismo apenas pode servir desejos saudosistas do messianismo.
Porém, a própria governação não pode cair no erro grosseiro de resumir o problema actuai e a crise agudizada o simplismo de os considerar simples obra de agentes exteriores à Universidade.
De facto o que acontece é que há forças interessadas em agudizar da crise latente da Universidade. Porém, a verdade é que as condições para a fácil desestabilização já existem no seio das próprias Escolas Superiores. Dai que as acções policiais só sirvam para agudizar a crise e causar legítimo descontentamento e alarme.
A UNIVERSIDADE napoleónica endeusada pela ditadura persiste. E porque persiste não temos Universidade.
E o que se passa? Há estudantes que querem rapidamente terminar os seus exames na mira de alcançarem o mais depressa possível o diploma; outros tomam consciência do profundo afunilamento que existe no final dos cursos no respeitante a possibilidades de emprego; outros ainda, animados por objectivos e ideais utópicos ou por intenções meramente de grupo politico, servem de ponta de lança para que a crise mais se agudize.
Uns e outros afrontam-se quotidianamente nas Reuniões Gerais, nos Plenários, nas Assembleias Magnas, nos corredores das Escolas. Uns e outros são a expressão da crise profunda que assola a nossa Universidade moribunda.
Ao ELITISMO do «magister dixit» sucedeu um anti-elitismo irresponsável. Com inúmeras excepções a nossa Universidade continua a não possuir espírito de corpo, ideia-de-obra, fundo cultural e civilizacional. Herdando os males duma sociedade civil frágil, e não a influenciando no sentido de superação dessa fraqueza institucional, a Universidade continua a viver dum «estrangeirismo» fechado.
A Universidade está, portanto, a sofrer as consequências de todo este estado de coisas. Por isso, torna-se fundamental pôr em prática a sua reforma em termos realisticamente adaptados à sociedade concreta.
A crise de objectivos e a crise de projecto cultural que está patente na Universidade não podem ser esquecidas pelas autoridades.
Perante os problemas imediatos o realismo obriga a que se pesem não só as questões imediatas (e aí estão os pretextos do movimento grevista) mas também as questões de fundo (a crise estrutural). Por isso, as autoridades não podem esquecer o mal da Universidade sob o peso das reivindicações imediatas e dos afunilamentos estruturais.
Nesta medida, não se confunda o que hoje se passa em Portugal com o que se verificou há 9 anos em França no Maio de 1968... Em 1968 houve a crise numa universidade adulta. Em 1977 em Portugal há a crise duma Universidade que não tem a necessária maioridade cultural e institucional. Daí que esse terreno seja tão permeável a jogos de cúpulas partidárias e a fugas para diante do esquerdismo acéfalo. Em Maio de 1968 havia algo mais do que isso... Que o digam um Glucksman ou mesmo um Castioradis...

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