quinta-feira, 18 de maio de 2017

1977-05-18 - Bandeira Vermelha Nº 070 - PCP(R)

EDITORIAL

1. A greve nos STCP no Porto, a manifestação dos metalúrgicos na mesma cidade aquando da paralisação pelo contrato, a manifestação operária em Braga, a demissão da direcção da Hotelaria na Madeira depois das graves perturbações ocorridas e a greve dos caixeiros e finalmente as grandes movimentações estudantis, constituem relevantes acontecimentos da cena política nacional. São indicadores preciosos que revelam as enormes potencialidades do movimento popular de massas e a fragilidade do governo actual e da sua política. Apontam igualmente com particular incisão o único caminho possível para barrar a avançada reaccionária e alcançar vitórias.
A luta estudantil reveste-se de particular significado. Num sector que era já considerado por muitos como irremediavelmente à mercê da direita e até do fascismo, ergue-se hoje um poderoso movimento democrático que, enfrentando corajosamente a brutal repressão da polícia, chama dia a dia novos sectores para a luta e levanta reivindicações avançadas que entram directamente em choque com a política governamental. O apoio que está a encontrar entre a população laboriosa, as acções concretas de ligação com o movimento popular — de que é exemplo Coimbra — e a sua firmeza revolucionária exemplar são factores importantes que estão já a conferir às actuais movimentações um lugar de destaque no movimento popular de massas.
A luta estudantil é também um incentivo precioso para a acção partidária. Confirma-se a justeza da orientação do nosso Partido e das Juventudes, torna-se claro que o trabalho paciente em bases revolucionárias sempre alcança vitórias. As acções massivas entre diferentes sectores sociais fazem descortinar no horizonte uma saída para a política governamental. Uma saída independente dos meros acordos parlamentares, uma alternativa apoiada na energia e nos anseios das largas massas trabalhadoras.
  2. Crescem as dificuldades do governo social-democrata de Mário Soares. As pressões da direita e do imperialismo fazem-se sentir, ameaçadoras, sobre um governo que não cessa de cavar a sua própria sepultura. Isolado à esquerda e pressionado à direita, o governo não consegue emprestar qualquer consistência às repetidas declarações de fidelidade à Constituição e de não aliança com os partidos direitistas. A realidade está aí, nua e crua, a provar as previsões do nosso Partido. Não é possível seguir uma via intermédia entre os monopólios e o imperialismo e o movimento popular. O ataque às conquistas dos trabalhadores, as cedências ao grande capital e aos agrários não é compatível com uma política antifascista. A actuação governamental é fiel servidora das exigências da reacção e do imperialismo e pôs em marcha uma máquina repressiva odiosa que faz recordar os velhos métodos de Spínola e até mesmo do Marcelo.
As demagógicas discursatas da Mário Soares acerca das liberdades democráticas e dos direitos do homem não surtirão efeito. Não fazem esquecer os discursos fascizantes do sr. Cardia ou do sr. Barreto. Não podem ocultar os factos que diariamente denunciam uma política que cerceia as liberdades e favorece os ricos e os parasitas. Não dão de comer a quem trabalha.
A única alternativa realista é o combate sem temores a cada medida governamental e a cada avanço da reacção. É essa a linha do nosso Partido. É esse o caminho que a vida não pára de confirmar.
  3. Um obstáculo permanece a dificultar a acção revolucionária dos trabalhadores — a política e actuação revisionistas. Há muito que o vimos denunciando mas não é ainda suficiente o seu conhecimento entre os trabalhadores de vanguarda. Subsistem incompreensões profundas acerca da natureza dos revisionistas. São numerosos os que alimentam esperanças numa aliança do nosso Partido e das forças revolucionárias com o partido revisionista. Acalentando esperanças enganadoras, esses sectores ficam paralisados, oscilam entre posições avançadas e a cobardia, acabam por perder a iniciativa política ou, o que, é pior, colocam-se na alçada do revisionismo.
É conhecida a nossa opinião de princípios acerca do partido revisionista. Não se trata de um simples partido reformista, oscilante, conciliador. Revela-se como destacamento infiltrado no movimento operário, malabarista especializado que desvirtua os princípios marxistas para pregar a conciliação de classes, o pacto social, a capitulação. A pretexto das concessões tácticas, dos compromissos inevitáveis, da debilidade passageira. Para impedir a revolução, servir a burguesia e a penetração de Moscovo.
Os cépticos devem meditar nas recentes atitudes dos revisionistas. No secretariado das intervencionadas impedem a coordenação e o avanço na luta, apelando à calma na Auto-Reconstrutora. Nos metalúrgicos, trocam o contrato colectivo pela portaria, procuram impedira manifestação do Porto, apelam a meia-hora de greve na Lisnave e na Setenave aquando da recente paralisação. Enfileiram ao lado do governo nos apelos à paz nas Academias. Sabotam o apoio dos sindicatos à luta estudantil em Coimbra. Consideram normal a visita de Mondale a Portugal. Elogiam Eanes ao regressar da cimeira da NATO...-Tudo com a mesma aparência marxista, responsável, conhecedora dos pretensos meandros da política nacional.
A verdade é que tudo aquilo em que tocam definha, recua e conhece derrotas. Onde a luta se desenvolve à sua margem, ampliam-se os sectores combativos, alcançam-se vitórias.
  4. Os acontecimentos recentes apontam para a intensificação da acção revolucionária entre as massas. A partir dos seus anseios profundos, das reivindicações mais sentidas, dos seus interesses vitais. Para que os ricos paguem a crise, os fascistas sejam reprimidos e o imperialismo expulso de Portugal. A vida confirma a justeza da linha revolucionária do II Congresso do Partido, exige maior dinamismo na acção de massas, rejeita o sectarismo estreito e autosuficiente.
Simultaneamente, exige-se maior vigor na divulgação das conclusões do II Congresso entre os sectores de vanguarda e, em particular, a classe operária. A grande polémica contra o revisionismo burguês tem de ser ampliada. Precisa de ser levada a todos os trabalhadores avançados, não hostilizando os comunistas enganados, mas invectivando com firmeza as trafulhices de Cunhal. As tarefas de divulgação aberta do II Congresso através do contacto directo com os trabalhadores têm de ser agarradas por todos os colectivos partidários.
Através da ampliação da luta de massas em ondas sucessivas, da radicalização dos seus objectivos e formas de luta, fortalece-se o movimento popular, preparam-se novos auges revolucionários. Na polémica política contra o revisionismo entre as massas consolidam-se as vitórias de hoje, preparam-se os êxitos de amanhã.

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