segunda-feira, 15 de maio de 2017

1977-05-15 - SOLIDARIEDADE C/ COIMBRA - LCI

SOLIDARIEDADE C/ COIMBRA

A luta continua, o Cardia para a rua!
Viva a greve geral das três academias!

1 - Com a carga da polícia de choque sobre os estudantes do Porto, com o encerramento da Universidade e das Cantinas em Coimbra e com o discurso de Sotto Mayor Cardia na passada feira, o actual MEIC retomou a tradição de "diálogo" a que o ministério nos habituou nos tempos áureos de Hermano Saraiva e Veiga Simão.
Cardia demonstra uma vez mais, quais os métodos que utiliza; recusou um debate publico, através da rádio e da televisão, com a Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra. Também o Primeiro Ministre o Presidente Eanes e o Conselho da Revolução se recusaram, a receber os nossos colegas de Coimbra após o encerramento desta Academia.
Os estudantes de Coimbra, recusando a reintegração de 6 professores saneados  após o 25 de Abril (entre os quais se conta Veiga Simão) entraram em greve geral, depois destes professores e o MEIC se terem recusado a realizar um referendo sobre a integração na Faculdade de Ciências e Tecnologia, escola a que pertencem os 6 elementos em causa.
Agora, com todas as faculdades encerradas, Cardia propõe que os estudantes de ciências de Coimbra votem  a seguinte alternativa; ou abertura da Academia com os saneados ou manutenção das faculdades encerradas, implicando o "chumbo" colectivo.
Ainda no seu discurso, Cardia disse que a responsabilidade pela actual situação cabe"a "organizações políticas de ultra-esquerda com a Colaboração de elementos inequivocamente fascistas" e que "o governo não pode tolerar que elementos e grupos de formação fascizante, qualquer que seja a sua ideologia, prossigam a obra de Salazar. Para Cardia, os vários milhares de estudantes (atingindo o número de 4.000) que decidiram da greve são da "ultra-esquerda" e "fascizantes que pretendem prosseguir a obra de Salazar"! Estranha lógica esta a de "salazaristas" recusarem a integração de um ministro de Marcelo Caetano (Veiga Simão)!
Até a pessoa mais desprevenida achará estranho que uma Academia estivesse em greve geral por meia-dúzia de "agitadores profissionais"…
2 - Nestas circunstâncias e atendendo à posição de força do MEIC, impõe-se a generalização da luta e a sua extensão a nível nacional. Existem, neste momento, problemas vários que afectam todos os estudantes portugueses (luta de Psicologia, candidatos à Universidade, homologação dos cursos não reconhecidos pelo MEIC, reabertura do ESCSP, homologação dos órgãos de gestão do ISE, etc,). É necessário unificar todas essas lutas parciais com a luta dos estudantes de Coimbra, que também diz respeito aos estudantes de Lisboa e Porto, na medida em que, com as suas atitudes, o MEIC põe em causa todas as conquistas do movimento estudantil apés o 25 de Abril.
A solidariedade com Coimbra, a unificação de todas as lutas estudantis é necessária e urgente!
Alguns importantes passos foram já dados nesse sentido com o último ENDA em que; para além da elaboração de um caderno reivindicativo dos estudantes universitários portugueses; se decidiu iniciar a preparação da greve geral nacional, até à reabertura da Academia de Coimbra,sem os saneados.
Na Próxima 3ª feira, dia 17, Lisboa, Porto e Coimbra viverão  uma jornada de luta, com paralização das aulas. A única perspectiva que pode possibilitar a nossa vitória é a da greve geral nacional, caso o MEIC não ceda. Para isso, há que prosseguir com a informação a todos os estudantes e à população acerca dos justos objectivos da luta dos estudantes e, concretamente, há que preparar Plenários em todas as Academias para decidir a entrada em greve geral a partir da próxima semana.
3 - Cardia mais não faz do que aplicar a política de recuperação burguesa no ensino, desde o seu famoso decreto de gestão até à reimposição da escala de zero a vinte, passando pela reintegração dos saneadas e pelas cargas da polícia de choque, (veja-se o que se passou no Porto), tudo isto são provas de que Cardia cumpre um plano anti-estudantil.
Fazer vergar Cardia é exigir a sua demissão, demonstrando a nossa firme resposta às suas provocações. Mas, para isso, importa não cometer os erros em que se incorreu aquando da luta contra o decreto de gestão e importa, desde já, desmascarar todos aqueles que recusam a continuação da luta, apesar do seu verbalismo. A esses, aos que dizem que "a greve é uma forma de luta demasiado avançada", responderemos; "Qual a vossa alternativa para reabrir Coimbra, sem os saneados? Não terá Cardia, ele próprio, tomado formas de luta (quer dizer; repressão) demasiado avançadas?"
E é nesta via, estamos certos, que o movimento estudantil não deixará de recusar, também ele, o Pacto Social que o governo quer impor e que os conciliadores estão dispostos a assinar no movimento associativo como no movimento sindical.

Coimbra, 15 de Maio de 1977
COMISSÃO NACIONAL DE JUVENTUDE DA L.C.I.

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